As suas bactérias não gostam de junk food – mesmo que você goste

publicado na Galileu

uando Morgan Spurlok passou um mês comendo as maiores porções do McDonalds para o seu documentário “Supersize Me”, ele ganhou peso, danificou seu fígado e afirmou ter sofrido sintomas relacionados à abstinência. Tudo isso foi atribuído popularmente à mistura tóxica de carboidratos e gorduras, além dos químicos e preservativos encontrados em junk food. Mas será que isso pode ter outra explicação?

Podemos ter esquecido de ‘outras’ que não gostam de fast food. As pobres criaturas que vivem no escurinho de nossos órgãos. São os centenas de trilhões de micróbios que superam os números totais de células humanas em uma taxa de 10 para um e que digerem nossa comida, nos dão muitas vitaminas e nutrientes para nos manter saudáveis. Até recentemente acreditávamos que elas eram prejudiciais – mas estas (como a salmonella) são uma minoria e a maioria é essencial para nós.

Estudos com ratos de laboratório mostraram que, quando os bichos são alimentados com muita gordura, seus micróbios mudam dramaticamente e para pior. Isso pode ser prevenido com o uso de probióticos, mas há diferenças óbvias entre nós e ratos de laboratório, assim como há diferenças entre nossos micróbios naturais.

Um estudo recente analisou um grupo de africanos que comia uma dieta tradicional local, composta em sua maioria de feijões e vegetais. Cientistas trocaram a dieta deles com um grupo de afrodescendentes americanos, que consumiam muita gordura e proteína animal, com poucas fibras. Os africanos ficaram piores do que os americanos: seu metabolismo mudou para um perfil diabético e longe do saudável em apenas duas semanas. Os afroamericanos, por sua vez, apresentaram menores chances de desenvolver câncer de cólon. Ambos os grupos mostraram diferentes microbiomas, a população de micróbios no sistema digestivo, no fim do experimento.

fast-food

Pelo bem da ciência e para pesquisas relacionadas ao meu livro “The Diet Myth”, eu testei várias dietas incomuns e registrei seus efeitos em meu próprio microbioma. Essas dietas incluem jejum, a dieta da colonoscopia e uma dieta intensiva de queijo francês não-pasteurizado. Meu filho, Tom, um veterano de genética da Universidade de Aberystwyth sugeriu um experimento adicional crucial: analisar os micróbios e suas mudanças de uma dieta ocidental normal para uma dieta de consumo intensivo de fast food durante uma semana.

Eu já não era o indivíduo indicado para os testes, já que eu não tinha mais uma dieta ocidental padrão, mas Tom, que como a maioria de seus colegas gosta de fast food, era. Então ele concordou em ser o meu ratinho de laboratório desde que eu pagasse por todas as suas refeições e que ele também pudesse analisar os resultados do experimento para sua dissertação. O plano era que ele fizesse todas as refeições no McDonalds durante 10 dias. Ele deveira comer Big Macs ou nuggets, mais batatas fritas e Coca-cola. Para vitaminas ‘extras’ ele podia beber cerveja e comer salgadinhos de noite. Ele coletaria amostras de fezes antes, durante e depois da dieta alterada e iria mandá-las para três laboratórios diferentes, para checar a consistência dos resultados.

Tom começou cheio de boa vontade e grande parte de seus colegas estava com inveja de sua verba ilimitada para comer porcarias. Nas palavras dele:

Eu me senti bem pelos primeiros três dias, depois tudo veio água abaixo, me tornei letárgico e, durante uma semana, meus amigos diziam que minha pele estava ‘cinza’. Os últimos dias foram bastante difíceis. Eu me senti mal, mas definitivamente não senti sintomas de abstinências e, quando finalmente terminei, corri para o mercado e comprei salada e frutas.

Foi claro que a dieta intensiva fez com que ele se sentisse mal temporariamente, mas precisamos esperar alguns meses para que os resultados dos exames chegassem. Eles vieram da Universidade de Cornell, nos EUA, e do British Gut Project, que permite que qualquer um teste seu microbioma, desde que os resultados fiquem disponíveis online para serem acessados por qualquer interessado. Todos eles contavam a mesma história: a comunidade de micróbios de Tom foi devastada.

O sistema digestivo de Tom passou por mudanças enormes em grupos comuns de micróbios por razões que ainda não estão claras. Firmicutes foram substituídos por Bacteroidetes como grupo dominante, enquanto as amigáveis Bifidobacterium, que controlam inflamações, foram dizimadas até ficarem pela metade. Mas o marcador mais claro de um sistema doente foi a perda da diversidade das espécies. Depois de apenas alguns dias, Tom perdeu a presença de 1400 espécies – 40% do total no início da dieta. As mudanças persistiram até duas semanas depois do fim da dieta especial. Essa perda da diversidade é um sinal universal de doença no sistema de pessoas obesas e com diabetes e pode causar uma série de problemas imunológicos em ratos de laboratório.

Não é novidade que comer porcaria faz mal para você, mas saber que esses alimentos acabam com o nosso microbioma tão rapidamente é preocupante. Muitas pessoas comem fast food regularmente e mesmo que elas não fiquem obesas por causa das calorias, o metabolismo e o sistema imunológico sofrem através dos efeitos da dieta nos micróbios.

Precisamos das bactérias para produzir muitos dos nutrientes e vitaminas essenciais e, para isso, elas precisam da nossa ingestão de plantas e frutas para dar a elas energia suficiente para a produção de químicos. Esses químicos, por sua vez, mantém nosso sistema imunológico funcionando.

É improvável que nós sejamos capazes de impedir que as pessoas comam fast food, mas os efeitos devastadores em nossos micróbios e a nossa saúde a longo prazo podem ser diminuídos se também ingerimos alimentos que nossos micróbios amam, como probióticos (iogurtes), vegetais, castanhas, azeitonas e alimentos com grande quantidade de fibra. Eles sentem fome, acima de tudo, da diversidade de alimento – e aquele pedaço de picles no seu hamburguer não é suficiente.

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