Desesperança brasileira

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Frei Betto, em O Dia

O brasileiro anda desesperançado. A frustração se mescla ao rancor. Ninguém sabe dizer o que será deste país nos próximos anos. Diante da falta de perspectiva histórica e de protagonismo alternativo, o debate político baixou do racional para o emocional. Haja palavrão e carência de razão!

A terceirização ameaça esgarçar ainda mais os direitos trabalhistas (e se não ameaça, como afirmam seus defensores, por que aprová-la?). Dilma inclusive terceirizou o governo, entregando-o em mãos da troika Temer, Cunha e Renan. A inclusão econômica, promovida pelos governos Lula e o primeiro mandato de Dilma, está sob risco, devido à volta da inflação, ao baixo crescimento da economia e à carência de novos investimentos.

Desemprego e inflação representam uma química socialmente explosiva. Cometeu-se o equívoco de fazer inclusão econômica à base de programas sociais, créditos facilitados e desonerações tributárias, sem lastro de sustentabilidade. Em 12 anos de governo, o PT não fez reformas de estrutura, como a agrária, a tributária e a política. Agora, o buraco se abriu, e a conta chegou sob o nome de ajuste fiscal.

Quem vai pagá-la? As grandes fortunas, as remessas de royalties ao exterior, as heranças dos mais ricos, a maior tributação dos produtores e rentistas? Nada disso. Joaquim ‘Mãos de Tesoura’ Levy jogou a conta nas costas dos mais pobres, reduzindo direitos trabalhistas, enquanto Dilma multiplica os recursos do Fundo Partidário, e o Legislativo e o Judiciário aumentam seus salários.

A nação entrou em crise de depressão cívica. O PT não faz autocrítica. A presidenta, alvo de panelaços, se cala. Os movimentos sociais, debilitados, disputam as ruas com quem protesta sem saber o que propor. O pouco que resta da esquerda receia fazer eco à direita na sua crítica ao governo.

Perante o desgaste dos partidos, surgem propostas de formar frentes suprapartidárias, congregando militantes de diferentes partidos e movimentos sociais. Rumo a quê? Qual a proposta capaz de aglutinar distintos segmentos da nação? Apenas evitar a retomada do poder central pela direita?

Isso já se fez na reeleição de Dilma. Sem um projeto histórico capaz de encarnar princípios éticos inquestionáveis, reorganizar a esperança das bases populares e sinalizar efetivas mudanças estruturais, não creio que haveremos de enxergar luz no fim do túnel. Apesar de tudo, prefiro guardar o pessimismo para dias melhores.

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