Epístola aos brasileiros

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Por Bruno Reikdal

Sou religioso. Cristão, batizado e engajado em minha comunidade. Tenho consciência de que no que diz respeito às leis de um Estado, elas devem ser laicas e me posiciono politicamente dessa forma no espaço público extra-comunitário. Esse texto, entretanto, não se dirige a este espaço, mas à comunidade restrita: é um texto de fé direcionado para meus irmãos de fé. Não argumento com o mundo todo, mas clamo e interpelo os irmãos em Cristo para que fiquem atentos a esta mensagem, para que ouçam a voz de Deus e, por fim, apelo para que se lembrem de seu encontro pessoal com Jesus Cristo, nosso Senhor

Irmãos e irmãs, será que nos esquecemos de quem éramos antes de nos encontrarmos com Cristo? Será que cremos que foi por nosso mérito, força própria, sozinhos e solitários, que nos achegamos a Ele? Será que não nos lembramos mais que dependemos de uma comunidade, de gente que nos ensinou a Mensagem e nos guiou enquanto estávamos perdidos? Nos esquecemos de vez que não vem de nossos próprios méritos o encontro de fé com Jesus, mas é de Graça e pela Graça?Houve quem quisesse nos atrapalhar? Porque é, então, que hoje desejamos destruir a vida do perdido? Porque desejamos desviar o pequeno? Porque nos colocamos com indiferença, como pedras de tropeço, na vida dos pequeninos?

Parece que nos esquecemos de nosso encontro com Jesus Cristo. Somos diferentes quanto a doutrinas, teologias e tradições, mas uma coisa nos une: a experiência profunda, fundamental, salvífica e transformadora com Jesus. Essa nos torna irmãos, de uma mesma comunidade. Parece que nos esquecemos que éramos como ovelhas perdidas, que estávamos desgarrados e sozinhos. Parece nos esquecemos que não andávamos nos melhores dos caminhos, aliás, que só mudamos de direção quando encontramos o Caminho.

Em Mateus 15: 18-19, depois de contestar a acusação dos fariseus, Jesus diz “o que sai da boca vem do coração, e é isso que faz com que a pessoa fique impura. Porque é do coração que vem os pensamentos maus, os crimes de morte, os adultérios, as imoralidades, os roubos, as mentiras e as calúnias”. Hoje, peço que olhemos o que tem saído de nossa boca para que examinemos, como Paulo nos adverte antes de tomarmos a ceia, o nosso coração. Não pode sair da mesma boca o amor a Jesus e uma ordem de morte. Não pode sair do mesmo coração o desejo por salvação e o desejo por vingança. Será que fomos influenciados pelo fermento dos fariseus? Será que ainda cremos que fomos nós que enchemos as cestas com pães e peixes para alimentar multidões? Estejamos alertas para os ensinamentos que não são de Cristo (Mateus 16).

Temos responsabilidade pela vida uns dos outros. Temos responsabilidade pela vida dos perdidos. Não é por nossas vidas que seremos cobrados, mas pelas vidas que destruímos, pelos que condenamos: se guiamos as ovelhas para o bom caminho ou se impedimos que elas se achegassem ao Pastor.

Certa vez, os discípulos foram chamados para expulsar o demônio de um menino, um moleque, e não conseguiram (Mateus 17). O pai do menino foi até Jesus desesperado e contou que os discípulos eram incapazes de expulsar o demônio. Jesus advertiu os discípulos respondendo: “gente má sem fé! Até quando ficarei com vocês? Até quando terei que aguentá-los? Tragam o menino!” – hoje, talvez ele esteja gritando o mesmo! O demônio foi expulso por Jesus, e os discípulos queriam saber o porque não eram capazes de fazer o mesmo. Jesus disse: “Foi porque vocês não têm bastante fé. Eu afirmo a vocês que isto é verdade: se vocês tivessem fé, mesmo que fosse do tamanho de um grão de mostarda, poderiam mover montanhas […] Esse tipo de demônio só pode ser expulso com oração e jejum”. Hoje conseguimos dar gritos em nossas comunidades, expulsamos com palavras “espíritos” de objetos e destruímos coisas crendo estar salvando vida de pessoas. Para isso tem sido necessário fé? Muita fé? Fé de verdade? Existe um demônio muito maior que não temos sido capazes de expulsar. Invisível, gigante e assustador: a situação político-social de nosso país! Ela exige fé para mover montanhas, ela exige oração e jejum. Ela tem produzido meninos, moleques, pequenos que precisam ser salvos, libertos, e estão morrendo nas nossas mãos. Pior! Ao invés de expulsar esse demônio gigante, desejamos matar os meninos! Assassinar gente porque nossa fé é medíocre, anti-Jesus, anti-Cristo!

“Foi porque vocês não tem bastante fé”. Temos que nos envolver com política, sempre com cautela e cuidado para que não percamos nosso coração e para que o fermento dos fariseus não nos encha. Mas temos que nos envolver. Entretanto, não podemos perder de vista que não nos envolvemos mais como qualquer outro cidadão: somos hoje cidadãos, em primeiro lugar, do Reino! E isso requer de nós que nos posicionemos de acordo com nosso encontro com Cristo. Não as doutrinas, nem as tradições e teologias, pois estas divergem, mas de acordo com aquilo que nos é comum e nos faz irmãos: Jesus, a experiência de fé com Cristo. Olhando para nosso coração, para o que sai da nossa boca, lembrando de quem eramos e quem somos hoje, com temor pela Palavra de Deus e por Jesus, qual a nossa resposta à diminuição da maioridade penal? Em nome de Jesus e de nossa fé, porque desejamos isso?

Quando os discípulos discutiam quem era o mais importante no Reino dos Céus, Jesus chamou um moleque, ma criança, colocou na frente deles e disse que deveríamos nós mudarmos de vida para nos parecermos com eles, nos fazermos como criança, como moleque para podermos entrar no Reino. Aquele que, por ser seguidor de Jesus, em suas palavras, receber os pequenos, estará recebendo o próprio Cristo! O capítulo de Mateus 18! Nos esquecemos dele? Nos esquecemos da Mensagem? De Jesus? A partir do versículo 6, Jesus diz:

“Quanto a estes pequenos que vivem em mim, se alguém for culpado de um deles me abandonar, seria melhor que tivesse amarrado uma pedra no pescoço e se jogado no fundo do mar! Ai do mundo por causa das coisas que fazem com que os pequenos me abandonem! […] Cuidado, não desprezem nenhum destes pequenos! Eu afirmo a vocês que os anjos deles estão sempre na presença do meu Pai, que está no céu. Porque o Filho do Homem veio para salvar o que está perdido! O que é que vocês acham que um homem que tem cem ovelhas e uma delas se perde? Será que não deixa as noventa e nove pastando no monte e vai procurar a ovelha perdida? Eu afirmo que é verdade: quando ele a encontrar ficará muito mais contente por causa dessa ovelha do que pelas noventa e nove que não se perderam. Assim também o Pai que está nos céus não quer que nenhum dos pequenos se perca.”

Em nome de Jesus! Na Palavra de Deus, porque é que desejamos condenar pequenos? Porque é que desejamos vingança contra moleques que estão perdidos?Porque é que desejamos apagar o pavio que ainda fumega? Falta de fé? Nos contentamos com o mundo? Deixamos de ser do Reino? Nos enchemos do fermento maldito? É melhor nos amarrarmos e nos jogarmos no fundo do mar? Nos eximimos de nossa responsabilidade para com eles, responsabilidade não apenas legal, mas espiritual, de fé, como cristãos?

Irmãos e irmãs, apenas 0,01% da população jovem comete crimes violentos – de acordo com dados da Unicef. São a uma ovelha. Ao invés de irmos atrás dela para salva-la, estamos condenando as 100 para o abismo. Porque? Para não termos que ir à obra, para não termos que nos comprometer com nossa fé, com Cristo. Estamos abandonando a fé! Dos crimes no país, apenas 6% são cometidos por menores de idade. Apenas 6%! Porque é que desejamos jogá-los na cadeia? Porque é que desejamos sofrimento, mais violência, mais morte? Vingança? Mesquinhez? Desejamos lavar nossas mãos? Tirar a mão do arado e olhar para trás?

Cremos que ao serem jogados dentro de Fundações Casa eles não estão sendo punidos? É mesmo? Quantos de nós conhecemos uma casa dessas? Quantos de nós sabemos e temos certeza de que elas não tem cumprido com sua função educacional, abandonando o ECA e os direitos humanos? Lá jovens apanham, sofrem, são condenados, sim, e punidos violentamente. Ainda assim – mesmo com essa desgraça infeliz – 70% dos jovens é reabilitado e não ha reincidência criminal. O mesmo índice na cadeia cai, hoje, para 20%. Quem vai para o sistema penitenciário está condenado, tem pouquíssimas chances de abandonar o crime, de ser cuidado, tratado, respeitado, transformado.

Mas que coração de pedra temos para olhar para um pequeno, um moleque, uma menina de 16 anos e ficarmos em paz sabendo que serão trancafiadas numa cela com criminosos mais velhos, doentes, violentos, já desumanizados por tanta desgraça, dor, podridão, infelicidade e opressão demoníaca de nosso sistema político-social, nossas relações econômicas e desigualdades infernais, para dormirem juntos dentro de quatro paredes fechadas, superlotadas, em condições sub-humanas e degradantes? Vamos deitar na cama e dormir bem com o sentimento de missão cumprida? Que Deus nos encha de pesadelos com salas escuras! Que Deus nos perturbe o sono colocando desespero no nosso coração, claustrofobia, que nos vejamos no meio de sombras com olhos desejantes e maliciosos, trancados entre paredes de concreto, grades de ferro, sem saída. Já é uma maldição essa nossa postura.

Que inferno! É esse nosso desejo como cristãos? Como seguidores de Cristo? Como responsáveis por crianças? Falta de fé! E se nossos olhos ainda estão cheios de cinismo, condenados para eternidade nós estamos. Falta de temor a Deus. Nossos corações estão imundos! Neles está a violência, os crimes de morte, a imoralidade! Estamos envolvidos e participantes desse mundo não mais como sal e luz, mas como engrenagens do sistema demoníacos do qual fazemos parte. Que Deus nos perdoe… Me desespero, porque não posso lavar as mãos. Somos irmãos! É responsabilidade nossa, minha e tua, tanto pela vida uns dos outros como comunidade de fé, quanto pela vida de crianças – pelo amor de Deus!

Nossa luta não é contra carne ou sangue, mas contra os poderosos e governadores do mal. Eles são maus, são demoníacos e estão produzindo mais inferno nesse mundo. Como cidadãos do Reino não podemos permitir. Nossa luta é contra eles. É contra esse sistema invisível. É contra essa ordem diabólica que oprime crianças, que as lança no fogo, na morte, na violência, no crime. É essa nossa luta, não contra as ovelhas, contra as crianças. E esse demônio para ser expulso do menino, do pequeno, do moleque, requer muita fé. Requer, nas palavras de Jesus, muito jejum e oração. E que jejum e oração é este? Isaías 58: 3 – 10:

“As pessoas perguntam a Deus: De que adianta jejuar se você nem nota? Para que passar fome se não se importa com isso? O Senhor responde: A verdade é que nos dias de jejum vocês cuidam dos seus negócios e exploram seus empregados. Vocês passam os dias de jejum discutindo e brigando e chegam a bater uns nos outros. Será que vocês pensam que quando jejuarem assim eu vou ouvir suas orações? O que é que eu quero que vocês façam? Será que meu desejo é que passem fome, que se curvem como um bambu, que vistam roupas velhas e se deitem em cinzas? É isso que vocês chamam de jejum? Acham que isso me agrada? Não! Não é esse o jejum que quero! Eu quero que libertem os que são presos injustamente, que tirem de cima deles o peso que os faz sofrer, que ponham em liberdade ps que estão sendo oprimidos, que acabem com todo tipo de escravidão. O jejum que me agrada é que vocês repartam a sua comida com os famintos, que recebam em casa os pobres que estão desabrigados, que dêem roupas aos que não têm e que nunca deixem de socorrer seus familiares. Então a luz da minha salvação brilhará como o sol e logo vocês ficarão curados. O Senhor os guiará, e a presença de Deus os protegerá por todos os lados. Quando gritarem pedindo socorro, eu os atenderei; pedirão a minha ajuda e eu direi: ‘Eu estou aqui’. Se acabarem com todo tipo de exploração, com todas as ameaças e xingamentos; se derem de comer aos famintos e socorrerem os necessitados, a luz da minha salvação brilhará e a escuridão em que vocês vivem ficará igual à luz do meio-dia”.

Que Deus nos abençoe, que Deus nos perdoe. Examine teu coração. Qual teu desejo? Porque desejamos isso? Que Jesus Cristo guie teus pensamentos e tuas ações. Que não percamos nosso coração, nem nossa fé. Que lutemos o bom combate. Sejamos fortes e fiéis. Peçamos perdão por nossos pecados. É tempo de nos arrependermos e mudarmos nossos caminhos!

Que a graça e o amor do nosso Senhor Jesus Cristo, que as bênçãos do Pai e as consolações do Espírito Santo de Deus estejam conosco, hoje e sempre.

Amém.

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