Comunidade evangélica LGBT reúne 4.000 pessoas em rede social

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Publicado na Folha de S. Paulo

Só beijar na boca não basta para Antonio Carlos. “Boa tarde, alguém que tenha compromisso com Deus e que quer ter comigo também? Risos.”

Alguém publica reportagem sobre o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) levando “ex-gays” ao Congresso, e Pedrinho se revolta. “Esse cara nem é pra ser chamado de servo de Deus. Pastor vagabundo.” Danni se compadece: “O capeta tá babando por ele”.

Entre tapas (nos críticos) e beijos (entre si), a comunidade Namoro Evangélico LGBT reúne 4.000 membros no Facebook. O grupo virtual serve de abrigo contra o “mundo lá fora”, nem sempre gentil com o aprendiz de cabeleireiro Douglas dos Santos, 18, gay e evangélico pentecostal.

“Já falaram que eu ia à igreja só por interesse pelo pastor e pelos irmãos”, diz numa praça em Santo André (SP), ajeitando o boné preto para trás.

De tanto ouvir que se deixou cair em tentação, procurou “cura gay”, que consistia em rezar muito e se privar do que lhe dava prazer, como bombom. “Diziam que se eu jejuasse seria liberto, que [ser gay] era coisa da carne.”

Hoje tudo isso lhe soa como “sacrifício de tolo”. Adepto da Assembleia de Deus, Douglas mudou no culto. “Pego o que me pertence e vou embora.”

Ademais, a fé é sua grande alegria na vida. Ele tentou ir nas chamadas igrejas inclusivas, que aceitam o gay sem tentar “curá-lo”. “Não tinha o fervor que eu precisava.”

Para Simone da Silva, 43, e Márcia Inocêncio, 55, foi o contrário: a relação com Deus ferveu após entrarem na Igreja Cristã Contemporânea.

A assistente social Márcia era assídua em igrejas tradicionais, embora não se sentisse 100% bem nelas. “Era dificultoso disfarçar [sua orientação sexual]. Procurava sempre fazer escova no cabelo. Camiseta, jamais”, afirma.

Mãe de três filhos, a estudante Simone estava “ferida por tantas agressões” de relacionamentos com homens. Começou a namorar mulheres, até que aceitou o convite da futura companheira para tomar um suco no barzinho.

Na época, o pastor “falou que tinha que ser Adão e Eva, não Eva e Eva. Fiquei murcha por dentro. Não é possível que Jesus não ame a gente”.

Foi à internet para achar um templo onde pudesse entrar de mãos dadas com Márcia -que sonha em proporcionar a ela “o” casamento, para “SP inteira ficar sabendo”.

Os pastores Marcos Gladstone, 39, e Fábio Inácio, 35, lideram a denominação de 3.000 fiéis e nove sedes, em São Paulo, Rio e Minas. Em janeiro, a Igreja Contemporânea Cristão celebrou dois anos no teatro Anhembi Morumbi, na zona leste paulistana.

No palco, mulheres tocavam guitarra com terno e gravata, enquanto homens de camisa brilhante dançavam com guarda-chuvas coloridos estilo frevo. Mães de fiéis gays gritavam “aleluia”. Fiéis vestiam a camisa: era amarela, com uma carinha feliz e os dizeres “Sorria! Jesus te aceita”.

A Bíblia deve ser lida com lentes contemporâneas, afirma Marcos. Há este versículo no livro Levítico, do Antigo Testamento: “Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isso é uma abominação”. O pastor argumenta: “A mesma passagem diz que você não pode comer carne de porco, tocar na mulher durante seu ciclo e fazer a barba”. Quem encara hoje em dia?

Em julho, pastores brasilienses lançarão em São Paulo a “Bíblia Comentada Graça sobre Graça”, com explicações bíblicas sobre homossexuais, negros e mulheres.

Caio, 49, que prefere não dar o sobrenome, brinca que ser evangélico e gay é como ketchup e pizza, “só combina para mentes praianas”. Paulista do interior, do tipo que fala “porta” com “r” caipira”, diz que recorre à web para ser gay “sem que nenhum irmão olhe torto”.

Participa de um grupo no Whatsapp com 24 rapazes (“esse número não é à toa”). Há alguns dias, quase expulsaram um membro “mais saidinho”, diz. Ele compartilhou uma foto seminua, só com a Bíblia cobrindo suas partes.

Henrique Souza, o Ricke, enviou ao grupo Namoro Evangélico LGBT um close de seu rosto com boné vermelho para o lado e uma corrente de prata –ganhou seis curtidas e um “boa tarde, lindo”. Católico, ele entrou na comunidade atrás de um integrante.

O caso afundou. “Achei que entre evangélicos seria diferente. Mas as pessoas olham muito para o corpo. Se um gordinho e um magrinho postarem foto, o magrinho sempre terá mais curtidas.”

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