O novo pau-de-selfie

A indignação, assim como o vestido branco e dourado, passou, talvez porque surgiu assunto mais quente

charge: Latuff

charge: Latuff

Gregorio Duvivier, na Folha de S.Paulo

NUNCA TINHA ouvido falar em temaki até 2007. Do dia para noite pipocaram dezenas de temakerias, que logo em seguida deram lugar a iogurterias, que por sua vez logo fecharam as portas para dar lugar às paleterias –sim, o raio gourmetizador atingiu os picolés. Especialistas antecipam que vem aí uma onda de tapioquerias, embora tenha havido rumores de que a yakisoberia vem com tudo no verão.

Houve um tempo em que só se falava do pau-de-selfie (revisores: sei que os gramáticos divergem sobre esse hífen, mas vamos hifenizar porque o hífen é uma espécie de pau-de-palavra). Embora já existisse faz muito tempo –desde Rembrandt, dizem–, o pau-de-selfie voltou com tudo em janeiro de 2015. Capas de revista, milhões de tuítes, posts, reportagens, promoções do Mercado Livre.

A assessoria de imprensa do pau-de-selfie era espetacular. Nunca um pau fez tanto sucesso no país desde o pau-brasil. Surgiram desdobramentos, como o pé-de-selfie, para quem usava o pé na falta de um pau, e a selfie-de-pau, autoexplicativa. Assim como surgiu, sumiu. Não o pau em si, mas o assunto-pau –basta ir à praia para ver que o pau segue firme e forte, de cabeça erguida.

Em seu lugar, surgiram novos assuntos-de-um-mês-ou-menos. O vestido –que para mim era azul e preto, mas na verdade revelou-se branco e dourado, ou talvez fosse o contrário– teve umas duas semanas de glória. Amizades se desfizeram: “É azul e preto, imbecil!”. “Claro que não, babaca. Qualquer idiota sabe que é preto e dourado.” Isso também passou.

Meu amigo Henrique Goldman vem ao Brasil de seis em seis meses. Ficou assustadíssimo quando chegou aqui em março e só se falava de corrupção –como se fosse uma novidade recém-importada da China. Concluiu brilhantemente: “A corrupção é o novo pau-de-selfie”. A indignação, assim como o vestido branco e dourado, também passou, talvez por causa da eclosão de escândalos incriminando os mesmos que capitaneavam a indignação, talvez porque surgiu um assunto mais quente: a pão-de-queijeria. Ou talvez fosse o dubsmash. Ou o food truck.

No momento em que escrevo, o pau-de-selfie da vez é a redução da maioridade penal. Descobriram que a verdadeira causa da violência no país é o conforto excessivo que damos às crianças de rua. “Mata! Prende! Esquarteja!”. O fascismo é o novo food truck.

O buraco é mais embaixo do que o mês que a gente dedica aos assuntos nos deixa perceber. Calma que nem tudo é tão preto no branco, nem tão preto e azul, nem tão branco e dourado.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for O novo pau-de-selfie

Deixe o seu comentário