O Facebook virou chorume

Mariliz Pereira Jorge, na Folha de S.Paulo

Numa época não tão distante as pessoas diziam que a vida nas redes sociais era uma falsidade só. Todos estavam sempre felizes, sorrindo, dando check-in em baladas, em restaurantes, em praias paradisíacas. Ninguém tinha problemas, contas pra pagar, tristezas pra lidar.

Lembra? A gente postava músicas, compartilhava textos falsos de Clarice Lispector e Pedro Bial. A gente ainda se divertia, fazia novas amizades, reencontrava colegas antigos.

Tenho saudade dessa época. Comecei a me dar conta disso no dia das mães quando o Facebook foi tomado de fotos e declarações amorosas de filhos para suas mães. Foi como um suspiro de um doente que parece terminal. Um dia leve e agradável, como as nossas relações deveriam ser.

A gente descambou da felicidade talvez-quem-sabe-fingida para dias de inquisição. Tudo que vai contra nossas crenças não presta e merece ir para a fogueira. O que antes era fonte de distração e também de informação, virou uma vitrine para egos inflados, maldosos e raivosos.

Mas o que me acendeu um alerta interior não foi o tiroteio político. Não foram as discussões sobre corrupção ou maioridade penal. Ou as piadas sobre a lancheira da filha da Bela Gil ou sobre os vestidos feios da cantora Paula Fernandes. Acho que tudo isso faz parte, ainda que haja excessos.

O que me fez perceber que perdemos a mão foram as pequenas coisas. O exercício egóico de querer parecer mais inteligente, mais sarcástico e mais sacana na frente dos outros às custas dos outros. Apenas para ganhar likes e aplausos como se fosse uma competição de quem, no final das contas, é o mais babaca.

O que me fez perceber que chegamos lá no fundo do poço foi ver que não são posts e comentários em sites de notícias, vindos de gente que não conheço e não sei que tipo de gaita toca. É artilharia pesada partindo de amigos, de conhecidos, de mim mesma.

Dei de cara com uma pessoa xoxando o casamento de gente que ela nem conhece. Desdenhando o casal, criticando a noiva, o vestido. Em outro, uma garota contava com detalhes que se fazia de amiga de uma colega de trabalho, que ela considerava cafona, para escrotizar a garota pelas costas, no Facebook.

Onde foi que nos perdemos? Por que temos o prazer de exercitar essa maldade gratuita? Por que pensamos que temos o direito de escrever publicamente o que no passado talvez falássemos apenas para os mais íntimos?

Isso não tem nada a ver com a onda politicamente correta da qual sou totalmente contra. Isso é sobre empatia com pessoas próximas, que envolvem situações em que qualquer um de nós poderia estar. Estou falando do amigo, do conhecido, do amigo do amigo. Gente que a gente esbarra e convive até sem querer. Isso é sobre se colocar no lugar do outro, como bem define a expressão em inglês: “walk in someone else’s shoes”.

Se a gente não consegue ter empatia pelo próximo mais próximo, aquele que vive a mesma realidade, imagine o que acontece em relação ao próximo distante.

E numa semana que tirei para fazer um detox alimentar, percebi que precisava de um detox no coração. Não quero ser uma dessas pessoas malvadas, mal humoradas, venenosas, que se acham mais inteligentes, mais sarcásticas, mais espertas do que os outros. Mesmo que eu me ache ninguém precisa saber.

Olhando para o meu comportamento on-line me achei um cocozinho de pessoa. Feia e fedorenta. Igualzinha aos que me chocaram com seus posts idiotas que alimentam o chorume que inundou as redes sociais.

Longe de ser Pollyanna. Tenho preguiça de gente muito boazinha. Nem se eu comesse toda comida natureba desse spa e meditasse três vezes por dia me tornaria alguém livre de preconceitos bestas e críticas bobas. E por serem preconceitos bestas e críticas bobas, eu deveria guardá-los para mim, no máximo dividir com pessoas que tenham os mesmos preconceitos bestas e críticas bobas.

A gente deveria saber a hora e o lugar para destilar nossas malvadezas. A gente deveria controlar nossas crises de egocentrismo.

Minha temporada no spa termina amanhã e eu queria deixar aqui mais do que alguns quilos que não me pertencem. Queria abandonar de vez a arrogância e a prepotência que contaminaram muita gente que se acha soberano (em bom português, foda pra caralho) atrás de seus computadores e smartphones.

Quero voltar a compartilhar músicas, postar frases do Osho, dar check-in em happy hours. Prefiro ser uma falsa feliz a uma autêntica escrota.

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