Te amo, iPhone

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Tati Bernardi, na Folha de S.Paulo

Ah, no meu tempo as pessoas se olhavam nos olhos! As crianças brincavam de pipa! Eu namorava no portão de casa! Sério? Poxa, que bom pra você. Agora, deixa eu te contar sobre o meu tempo. Ontem, sem sair do meu apartamento em Perdizes, eu fiz reunião no Leblon pelo Skype, pedi conselhos a uma amiga em Paris pelo Viber e acompanhei, via WhatsApp, o nascimento do filho de um amigo que mora no interior (ele mandou foto das enfermeiras fazendo joinha, da esposa fazendo joinha, dele todo vestido de verde e com touca fazendo joinha e, finalmente, do recém-nascido, a mãozinha dele parecia fazer um joinha). Mais de 80 amigos estavam copiados no grupo “nascimento do Gabriel”, fazendo piadas, mandando boas energias, palavras de amor… Sério que você acha isso tudo terrível e sem afeto? A outra opção, numa quinta chuvosa, atarefada e cheia de trânsito, era simplesmente não ter “visto” nenhuma dessas pessoas.

Claro que iPad mil horas por dia tá errado, inclusive pra um adulto. Mas aquelas duas horinhas pros pais (e o restaurante inteiro) comerem tranquilos não merecem o seu papinho chato e ditatorial de brinquedo de madeira e pés descalços. Jura que vai maldizer a maravilhosa tecnologia? Ela, assim como a grama verdinha numa tarde pueril de sábado, quando usada com parcimônia traz toda uma magia pra vida. Ah, esse tempo vazio e egóico dos selfies! No meu tempo… Você está enganado. Assim como a corrupção, o ego não foi inventado nesta década. Olha pra essa sua estante, em meio a esse monte de objetos étnicos e artesanais, o que você vê? Sim, dezenas de fotos mal tiradas esbanjando sua malemolência em cachoeiras! Sorry, mas ser velho ou usar bata não faz de você melhor do que a blogueira fashion de 19 anos obcecada por um “bom ângulo de nariz”. Não que ela seja legal (ela é besta), mas você também é bem besta. E eu sou mais besta ainda, porque escrevo esta coluna com uma camiseta tie-dye, enquanto dou um “regram” em pessoas que me elogiam. Tadinha! Estamos todos perdidos em todos os tempos.

Quando você vir um casal jantando em silêncio, mergulhados individualmente em seus celulares 3G, não me venha com suspiro arrogante de “sou do tempo do amor” (o amor é uma mentira inventada pelo Don Draper). Querido, você é do tempo em que os casais se aturavam por decênios de desespero e posavam de bons católicos. Sonhando com facas afiadas, bombas atômicas, mortes lentas e cruéis. Sonhando com a recepcionista, com o cunhado, com o ator do “Mad Max” (meu Deus!). Depois de alguns anos (ou até meses) chega um dia em que a internet faz mais por nós do que Freud, clonazepam e amante. Tem dia que o assunto, o tesão, o encantamento, simplesmente não vêm. Vão todos juntos com o Chaves pra Acapulco e deixam você mais sem graça que stand-up sobre loira. Daí, ou você entra no Facebook e comenta “caraca, olha, a Dani fez henna na sobrancelha e tá parecendo uma espécie de prima desafortunada da Malu Mader” ou você joga o azeite balsâmico reduzido na cara do ser humano, sem saber se tem mais raiva dele ou da palavra reduzido. Enquanto no seu tempo você namorava no portão de casa, no meu tempo eu comecei a trabalhar com 17 anos e com 20 e poucos eu já tinha casa própria pra namorar no quarto, que é mais legal e confortável.

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