De ‘Babilônia’ ao Boticário: os pastores do ódio e a intolerância

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Geraldo Samor, na Veja on-line

Em 2010, a Pixar — o estúdio que deu ao mundo Toy Story, Procurando Nemo e Os Incríveis — resolveu fazer um vídeo com seus funcionários gays para tentar reduzir o suicídio entre adolescentes que, por causa de sua sexualidade, são vítimas de bullying ou isolamento social.

O vídeo da Pixar — que assegurava aos jovens que ‘é o.k. ser diferente’ — era parte do projeto “It gets better” (“As coisas vão melhorar”), que já recebeu outros 50 mil vídeos de solidariedade e testemunhos pessoais, com mais de 50 milhões de acessos no YouTube.Tim Cook

No ano passado, o CEO da Apple, Tim Cook, escreveu um artigo dizendo ter orgulho de ser gay. Cook disse que queria ajudar pessoas que estão ‘dentro do armário’ a ter coragem e dignidade.

Também nos EUA, há muitos anos ninguém levanta as sobrancelhas quando as empresas fazem comerciais mostrando o afeto entre dois homens ou duas mulheres.

Na economia mais desenvolvida do planeta, o mercado de ideias chegou a um veredito: a igualdade é um bem público, um valor moral, e, de quebra, good for business.

Trata-se de uma conquista civilizatória, que começou com a abolição da escravidão e se sedimentou com o movimento pelos direitos civis do século passado. (Veja Selma e Milk.)

Contra este espírito — a ideia aparentemente simples de que a igualdade é uma coisa justa e que deve ser abraçada — insurge-se no Brasil um pastor.  Pastores.

Primeiro, um pastor condenou um ato de amor — um beijo na novela Babilônia — e pediu boicote a um patrocinador, a Natura.

Depois levantou-se um outro, cuspindo veneno contra uma propaganda do Boticário que ousou falar do amor entre iguais, em vez de ficar no papai e mamãe.

Profundamente incomodado, este pastor também pediu boicote, evocou o santo nome do “Estado democrático de direito” para exercer o direito de dar sua “opinião”, e esbravejou em frente à câmera qual um adolescente inseguro buscando se afirmar, tentando achar sua voz e identidade.

A diferença entre os adolescentes e alguns homens ‘de igreja’ é que estes pastores entendem bem o seu lugar no mundo, e sabem exatamente o que querem — e, ao contrário da Natura e do Boticário, não é nada perfumado.

O objetivo de certos pastores não é guiar o rebanho, mas hipnotizar serpentes. Não estão na missão de espalhar o amor, mas de semear divisão, invocando para isto a suposta ‘vontade de Deus’ ou ‘o que está nas Escrituras’.”

Mesmo antes da Igreja Católica resolver abandonar (recentemente) sua postura de guardiã de certos dogmas, alguns ‘líderes’ evangélicos já estavam desesperados para ocupar aquele nicho escuro e mofado.

Os pastores brasileiros têm similares no mercado de ideias dos EUA. Eles se assemelham a uma igreja que existe lá, e que também divide as pessoas em duas categorias — de um lado, as ‘pessoas de bem’; do outro, os gays e os judeus. (Desculpem, esqueci de colocar aspas quando escrevi igreja.)

A ‘igreja’ americana que é irmã espiritual de alguns pastores brasileiros é a Westboro Baptist Church, um grupelho de 40 pessoas cuja rotina inclui fazer piquetes em enterros de jovens gays que foram assassinados ou se mataram — “Deus odeia as bichas”, eles gritam, felizes.

No Brasil, provavelmente nunca nos livraremos destes pastores da divisão, barulhentos e oportunistas. Sempre haverá mercado para seu discurso de intolerância, mas o trabalho das verdadeiras ‘pessoas de bem’ é garantir que aquele mercado seja cada vez menor, com menos ibope e sem liquidez.

Nenhuma luta é mais justa do que a luta pela igualdade, e nenhuma ideia está mais madura para vingar do que esta — seja no mercado de ideias, no capitalismo, ou dentro das famílias, e a despeito da inércia e da ignorância.

Contra os pastores do ódio, há o exorcismo da educação, a benção da informação e, claro, o perdão infinito. Setenta vezes sete. “Sim, senhor, eles sabem o que fazem, mas são pobres coitados, pois mendigam atenção enquanto (não) tentam encontrar uma ideia honesta.”

Até porque, se alguém realmente decidir boicotar a ideia de igualdade, vai ficar sem Boticário, Natura, Osklen, Skol, Banco do Brasil, Motorola, Vigor, FIAT, Heinz, Pepsi, Danone, Microsoft, GOL, YouTube, McDonald’s, Unilever, Google, Facebook, Coca-Cola…

Comentários

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4 Comentários

  1. Tito Monteiro disse:

    Está escrito e não há ninguém neste mundo e no mundo vindouro que irá mudar o que diz as Escrituras.Romanos capítulo UM está bem claro a posição de Deus,que é a nossa, Deus não se agrada de ver suas criaturas tendo relações fecais, homem com homem e mulher com mulher – é abominável,é anti natural,anti social e anti tradicional.E´tradição do povo brasileiro e não tem como fazer nós aceitarmos essa prática,se ficarmos calados seremos responsáveis diante de Deus, lembrando sempre Sodoma e Gomorra duas cidades destruídas por causa da promiscuidade sexual que era um direito que deve ser exercido com responsabilidade. Nós não temos o direito de matar ninguém por causa disso,eles os gays são livres para escolherem os seus caminhos e suas preferências sexuais e isso vem acontecendo,só que exigir da sociedade um aval é outra coisa que não vai acontecer nem que a vaca tussa e o touro voe. Fiquem a vontade e nós seguiremos as nossas tradições – sexo do tipo papai e mamãe. tito from brasília.

  2. Ronaldo disse:

    Bolsonada e Infeliciano, saiam do armário e, quem sabe, transformem-se em pessoas do bem.
    Lembrete: sou heterossexual e respeito as diferenças.
    Farsantes!

    • cleide disse:

      Ronaldo, não respeita não, já ofendeu dando nomes que não são os deles meu amigo. E assim vai. Quem disse que só porque se discorda de uma ideia se é hipócrita? E que todos são obrigados a gostar sexualmente do mesmo sexo? Essa imposição é que é injusta meu amigo. Somos abarroados todos os dias pela televisão, redes sociais, material impresso. Fotos, falas, impregnando mentes, por que? A troco de mais corpos a disposição no mercado gay? Mais de nossos meninos e meninas a disposição? Não existe felicidade sendo hetero? É isso que querem dizer? Primeiro liberam o sexo, oba. Não dão orientação, meios de manutenção, não coibem, não impedem a disseminação das drogas licitas e ilícitas, traficantes andam pelas cidades como reis, festas que duram a noite inteira. Opa isto gera bebês? Bebês estes que muitas vezes serão abandonados. Ora quem os adotará? Erros e mais erros. E ai criam mais desculpas esfarrapadas para encobrir estes erros. A verdade é uma só meus amigos. Somos como crianças que teimam em não aceitar regras. Verdade que alguns destes serão CO de alguma grande empresa, mas a maioria padecerá no caos, como todas as outras civilizações que antes de nós se entregaram a suas leviandades e quiseram obrigar a natureza a aceitar suas próprias regras. Não somos ninguém diante da grandeza da natureza. Mas por arrogância e pretensão, por querermos nossos desejos realizados, não importa quais sejam, não nos importamos onde isto tudo irá nos levar.

      • Ronaldo disse:

        Precisa estudar para saber a origem da homossexualidade. Não sou contra heterossexuais e nem homoafetivos.
        Apenas respeito as diferenças.
        Coisa que vocês não fazem!

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