Por que as discussões políticas são tão acaloradas

Pesquisa americana revela que nosso cérebro percebe quem tem opinião contrária como inimigo, membro de um grupo hostil. Um rival que, nos primeiro estágios de nossa evolução, poderia levar à morte

Circuitos que rastreiam alianças e coligações são ativados quando conversamos com alguém com preferência política diferente. (foto: Thomas Northcut/VEJA)

Circuitos que rastreiam alianças e coligações são ativados quando conversamos com alguém com preferência política diferente. (foto: Thomas Northcut/VEJA)

Publicado na Veja on-line

Um grupo de pesquisadores americanos descobriu porque as discussões costumam ser acaloradas quando o assunto é política. Nosso cérebro encara quem tem uma visão divergente como membro de um perigoso grupo rival. A categorização é herdada de nossos ancestrais caçadores-coletores que precisavam fazer alianças e coligações para sobreviver. Saber quem está conosco e quem está contra é essencial, pois, quando ainda vivíamos nas florestas, combater grupos hostis poderia nos custar a vida.

De acordo com o estudo, feito por cientistas da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, nos Estados Unidos, e publicada no periódico online Cognition, conversar com alguém que tem uma visão política diferente ativa circuitos neuronais que rastreiam coligações. Segundo o psicólogo David Pietraszewski, um dos autores da pesquisa, quando as pessoas expressam opiniões que refletem os pontos de vista de diferentes partidos políticos, nossas mentes automaticamente as colocam como sendo de um grupo rival. “Para o nosso cérebro, a filiação política é vista mais como a participação em uma gangue, e não uma postura filosófica”, afirma.

O estudo – Para chegarem à conclusão, os cientistas fizeram vídeos com conversas sobre política exibindo dois grupos de opiniões divergentes. Em seguida, partes da conversa foram mostradas para alguns voluntários para que descrevessem quem falou o quê.

A primeira das conversas contava com dois indivíduos negros e dois brancos de cada lado conversando sobre suas respectivas visões. Ao final, as partes foram reconhecidas por sua visão política e não pela cor da pele. De acordo com os pesquisadores, o cérebro usa a cor para diferenciar as pessoas somente quando não há outro fator dominante – no caso, a opinião política.

O mesmo experimento foi realizado com grupos separados por sexo e com grupos de pessoas de 20 e 70 anos. Os participantes ainda identificavam as pessoas da conversa por sua visão política, mas também eram lembradas pelo gênero e idade, revelando que dividimos as pessoas em grupos de mais velhos ou mais novos e de mulheres ou homens. Essas categorias são reconhecidamente importantes, na história de nossa evolução, para a sobrevivência humana.

Enquanto o cérebro cria ligações com a política, acaba ignorando a cor da pele. Ou seja, a tendência para um ou outro partido é um fator forte na identificação de grupos.

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