País vive onda de modernismo reacionário, diz sociólogo

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Eleonora de Lucena, na Folha de S.Paulo

O país vive uma onda conservadora. “Há um modernismo reacionário, que sempre é favorável ao sistema capitalista, por mais que critique esse ou aquele aspecto da vida política, como a corrupção e a má administração”.

É o que avalia Michael Löwy, sociólogo paulista radicado em Paris. Junto com o norte-americano Robert Sayre, ele está lançando no Brasil “Revolta e Melancolia”.

Para Löwy, o elemento mais preocupante da extrema direita conservadora no país, sem paralelo com a que existe na Europa, é o apelo aos militares. “O saudosismo da ditadura militar é o aspecto mais sinistro da recente agitação de rua conservadora no Brasil”, diz.

As semelhanças com o movimento de direita europeu surgem, segundo ele, na ideologia repressiva, no culto à violência policial –como na “bancada da bala” nos parlamentos– e na intolerância com as minorias sexuais.

Do outro lado do espectro político, Löwy relaciona a crise do PT com a “perda de seu horizonte radical”. Afirma que o partido perdeu contato com suas bases populares, aderiu ao receituário neoliberal e fez desaparecer de seu programa a tese socialista.

Alinhado com a esquerda, ele advoga que outras organizações, como o PSOL ou o PSTU não conseguiram ocupar o espaço que havia sido do PT, ainda que possam vir a fazê-lo no futuro.

“Quem vai decidir se haverá uma saída para a esquerda serão os movimentos sociais: os sem-terra, os sem-teto, os sindicalistas, os ecologistas, os indígenas, as mulheres, os afrobrasileiros”, opina.

romantismo

“Revolta e Melancolia” percorre música, literatura, artes plásticas, filosofia. Rousseau, Goethe, Stravinski, Rosa Luxemburgo, Tolstói, Marx, Balzac compõem a trama da análise.

Para os autores, o romantismo não é só um movimento artístico do século 19: está nas jornadas de Maio de 68, na luta ambiental, nas artes no Brasil dos anos 1960, na resistência armada à ditadura militar, em protestos contemporâneos na Europa, nos EUA e na América Latina.

A ênfase está no que os sociólogos definem como romantismo revolucionário –”o que não deseja uma volta ao passado, mas uma volta pelo passado, em direção à utopia futura”, diz Löwy.

Publicado em francês originalmente em 1992, o livro interpreta manifestações de oposição ao avanço capitalista. “Naturalmente o romantismo se transformou. Suas formas são diferentes das do século 19 e das de 30 anos atrás. Mas a análise continua válida. O romantismo é uma crítica à civilização burguesa, que continuará a existir enquanto persistir a burguesia”, afirma o brasileiro.

Comentários

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1 Comentário

  1. cleide disse:

    Besterol a parte, não acredito que seja simplesmente saudosismo, mas o cansaço em função da violência física, psicológica, emocional, que essas pessoas vem sofrendo. Mudamos de uma ditadura para outra. Não importa o que digam existe uma terrível violência aliada a tudo o que vem com nome de novo nos últimos anos, uma invasão.Ninguém em sã consciência deseja um militarismo, mas acreditam que o que está posto é tão ou mais violento.A intolerância é geral. Quanto ao capitalismo, o que vem com cara de novo é tão velho e implacável quanto o próprio capitalismo. Tanto um perfil quanto o outro é lamentável, mas o mais incrível é que as pessoas não percebem, entramos isto sim na era do EU. E é mesquinho e egoísta. Esse EU pode ser uma pessoa, um grupo, uma idéia, uma nação. Espero que nos acertemos.Ou cometeremos os velhos erros de novo.

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