As vacinas fazem mal?

Paciente de varíola, fotografado em 1886. A doença, muitas vezes fatal, foi erradicada em 1979. (foto: wikimedia commons)

Paciente de varíola, fotografado em 1886. A doença, muitas vezes fatal, foi erradicada em 1979. (foto: wikimedia commons)

Publicado na Galileu

Com a chegada do frio, vieram as campanhas de vacinação sazonal contra a gripe e, com elas, a velha paranoia: a vacina não faz mal? Não vai me deixar doente? E o mercúrio, hein? Como as autoridades sanitárias reafirmam o tempo todo, o risco de efeitos adversos sempre existe, para qualquer tipo de medicamento. No caso específico da vacina sazonal contra a gripe, os mais comuns parecem ser febre, coriza, dor de cabeça.

De minha parte, me pergunto quanto disso não é puro viés cognitivo – a pessoa toma a vacina, algum tempo depois passa por algum desconforto típico da estação e, retroativamente, acaba atribuindo isso à picada, mesmo que sem motivo. E há o efeito nocebo: a mera expectativa de que algo vai fazer mal pode, às vezes, acabar gerando um mal-estar ou um efeito adverso real. Reações alérgicas sérias a vacinas são raras, com incidência estimada de um caso a cada milhão de doses aplicadas.

A desconfiança em relação a vacinas é algo que vai e vem ao longo da história. A onda atual é relativamente recente. Duas décadas atrás, a vacinação, principalmente a vacinação infantil, era vista, de forma quase unânime, como um benefício e uma necessidade, por boas razões. A erradicação da varíola e a virtual erradicação global da pólio são resultado direto da existência de vacinas.

A vacinação em larga escala produz uma “imunização de manada”, em que mesmo pessoas que não tenham recebido a dose se beneficiam, já que os membros vacinados da comunidade criam uma barreira que as doenças não conseguem atravessar.

Esse efeito, no entanto, vem se diluindo. No início deste ano, um surto de sarampo pegou de surpresa os visitantes da Disneylândia, nos Estados Unidos, espalhando-se até o Canadá. Em todo o mundo, médicos cada vez mais veem crianças sucumbindo a doenças que, graças a décadas de campanhas de vacinação, pareciam relegadas aos livros de história.

Isso acontece porque uma mistura de medo e ideologia “naturalista” vem levando pais, paradoxalmente em famílias de bom poder aquisitivo e, espera-se, esclarecidas, a decidir não vacinar os filhos. No início da década de 90, por causa de duas pequenas igrejas evangélicas cujos fiéis se recusavam a vacinar os filhos, a cidade americana de Filadélfia assistiu a uma epidemia de sarampo que atingiu mais 1,4 mil pessoas. Nove crianças morreram. Essa crise pôde ser atribuída à ignorância e ao fanatismo religioso. Hoje, as crises são causadas por outro tipo de fanatismo, onde a ignorância se disfarça de sofisticação New Age.

O momento atual da paranoia antivacinação começou em 1998, quando a revista médicaLancet publicou artigo que levantava uma hipotética ligação entre a vacina tríplice – para sarampo, caxumba e rubéola – e o autismo. Nos anos seguintes, o artigo foi desmascarado como fraude. A Lancet retratou-se e seu ator, Andrew Wakefield, teve a licença para o exercício da Medicina cassada. Mas o dano já estava feito.

Logo em seguida, veio a confusão do timerosal. Esse é o tal “conservante de mercúrio” que às vezes gera memes histéricos no Facebook. Ele é usado em algumas vacinas desde a década de 30, sem nenhum efeito adverso conhecido. O mercúrio do timerosal compõe uma molécula orgânica chamada etil-mercúrio. A forma tóxica é outra, o metil-mercúrio. A diferença química é a mesma que existe entre etanol (o álcool do vinho e da cerveja) e o metanol (um álcool altamente tóxico, que pode causar cegueira e morte).

Quando o governo americano decidiu mudar a tecnologia usada em suas vacinas e tirar o timerosal da fórmula, em 1999, bem no meio da onda de terror insuflada por Wakefield, o público ficou desconfiado. Teorias de conspiração, boatos e desinformação espalharam-se como fogo em rastilho de pólvora.

Pressionado, o Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA realizou então várias pesquisas sobre a ligação entre timerosal e autismo, todas com resultado negativo. Um estudo específico comparou a taxa de autismo na Dinamarca antes e depois de o país deixar de usar o timerosal – o que aconteceu em 1992 – e determinou que ela seguia na mesma trajetória de antes.

Nada garante que vacinas sejam 100% seguras. O timerosal, por exemplo, só começou a ser usado como conservante depois que um lote de vacinas, contaminado por bactérias, matou diversas crianças. Mas a verdade é que a primeira (e até agora única) doença a sumir por completo da face da Terra, a varíola, só foi erradicada graças às vacinas – e que muitas outras já poderiam seguido o mesmo caminho.

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