Os caretas

Se o mundo é lotado de neuroses, faça o esforço de se colocar no lugar do outro

eduardofelici

Fred Coelho, em O Globo

Quinze de dezembro de 1971. Em um texto publicado na coluna “Geleia geral”, o poeta e compositor piauiense Torquato Neto nos conta os percalços da rotina de um homem “cabeludo” no Rio de Janeiro. Naquele tempo, a violência verbal era acoplada à máquina de repressão comportamental que a ditadura conservadora impunha aos que não seguiam seu consenso. De cabelo longo, barba e certa magreza andrógina, Torquato ouvia gritos como “cachorro cabeludo” em plena Conde de Bonfim ou era interpelado de perto na Avenida Gomes Freire com perguntas como “é homem ou mulher?”. Se ele estivesse em junho de 2015, talvez os cabelos longos não fossem mais ofensa (afinal, até pastores fazem escova progressiva), mas sem dúvida a questão sexual ainda iria criar as mesmas situações bizarras por boa parte da população.

Na abertura da década de 1970, o cabelo e a androginia de Torquato estavam diretamente vinculados a desdobramentos da contracultura. Uma de suas origens se dá em meio aos anos 1940 e 1950, quando surge no Ocidente um novo personagem urbano para descarrilhar o trem da civilização. São os jovens, aqueles que, ao se automarginalizarem, tornam-se rebeldes à ordem através do Cinemascope e de bandas de rock, e ao recusarem noções sagradas como a família, a heterossexualidade e o emprego, reivindicam sua imagem, seu som, sua escrita e, principalmente, seu corpo, como DIFERENÇA.

Poetas beats, “rebeldes sem causa”, anarquistas libertários, aspirantes a uma existência feita através da arte (aqueles que o escritor Norman Mailer chamou em 1957 de hipsters) foram os primeiros jovens que se desviaram das normas obrigatórias de comportamento ditados pelo American way of life ou pela chamada “sociedade afluente”. Foram eles que criaram a oposição histórica entre sua geração e os “squares”, isto é, os “quadrados”. No Brasil, os “quadrados” são mais conhecidos como “os caretas”.

Os caretas. Como entendê-los para além do seu egocentrismo sócio-histórico? O Careta (com C maiúsculo, uma espécie de “tipo ideal”), aquele que entende que há uma moral e uma certeza (as suas) organizando a vida de todos. O Careta, aquele que se incomoda com o corpo DO OUTRO, que se intromete no desejo DO OUTRO, que se julga parâmetro de conduta DO OUTRO. O Careta, aquele que condena, que julga, que proíbe, que comanda, que executa, que mata em nome de abstrações completamente infundadas nos dados concretos do mundo. O Careta, aquele que faz com que até uma propaganda de perfumes seja um perigo para as famílias brasileiras. Se não fosse perigoso, o Careta seria um tipo engraçado. Mas não é.

Voltemos ao período de Torquato. Em 1971, um inimigo civil-militar tão importante quanto a guerrilha era, em termos da época, a pederastia ou qualquer comportamento “desbundado”. Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos em dezembro de 1968 porque cantavam e dançavam suas barbas, cabelos, batas e “ideias perigosas” entre os jovens. Para os caretas que curtiam verde-oliva, a loucura psicodélica, a liberdade sexual e a transgressão da família formavam um pacote que, como na canção de Caetano, misturava caras de presidentes, grandes beijos de amor, dentes, pernas, bandeiras, bomba e Brigitte Bardot. Os militares os prenderam para calá-los e, principalmente, agora citando Gil, para cortarem suas barbas, seus cabelos e suas ondas.

Mas e hoje? O que nos move nessa frente careta sobre o país que se avizinha cada vez maior, como uma tsunami do tamanho de um presidente do Congresso? Acho inútil dizer, mas digo: não se trata aqui de condenar a opinião alheia sobre a vida. Como cada um quer viver e criar seus filhos, netos, gatos e cachorros é problema da cabeça de cada um. Trata-se de defender o limite público de neurose que cada um pode transferir para os outros. Se o mundo é lotado de neuroses (todos temos as nossas), faça o esforço (falarei mais uma vez) de se colocar no lugar do outro. Afinal, o que o Careta acha? Que somos todos seres saídos de um mundo perfeito, caminhando sempre sob padrões pré-estabelecidos por alguma coisa fora do tesão da vida? Que aqueles que se apaixonam por pessoas do mesmo sexo ou os que preferem diferentes formas de prazer fazem isso para irritar o seu padrão moral?

O Careta, no fundo, quer impor um mundo em que temos medo de descobrir o novo. Ele inventa diariamente um INIMIGO MEDO (para usar outra expressão de Torquato) ao alimentar a mentalidade repressora que proíbe mamilos e corpos nus em capas de disco (salve Juçara Marçal e Jonas Sá!), que boicota novelas e marcas que exibem casais gays se AMANDO, que quer revogar benefícios sociais conquistados por lutas que começaram lá na época em que ofendiam cabeludos na rua (pelo menos não eram espancados até a morte como muitos hoje em dia são). Contra o inimigo medo, um refrão batido sempre aparece para iluminar o dia: qualquer maneira de amor vale a pena.

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