Desculpe, Neide

Desculpe, Neide, os milhões de brasileiros que acreditaram que o PT mudaria as prioridades do país

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Ruth de Aquino, na Época

Há dez meses, Neide, 44 anos, ótima pessoa e profissional competente, cheia de energia, mãe de quatro filhos, percebeu um caroço no seio. Há dez meses ela luta pela cura. Primeiro, Neide fez um ultrassom. Depois uma mamografia, depois raios X de tórax. Neide ficou então “na fila para ser operada”. Prometeram que seria rápido. O caroço doía, aumentava, e, junto, a ansiedade.

Neide é empregada doméstica na casa de meu filho e minha nora. Seu nome é Jacineide Silva. Trabalhou e cuidou, com carinho, de minha neta de 2 anos, até a dor a impedir. Ela se mudou para o Rio de Janeiro em 2002, em busca de “uma vida melhor”, feliz com a eleição de Lula. Antes disso, Neide trabalhava na lavoura e na roça, no Maranhão. Veio só com a filha caçula, Jacyane. Neide parece ter só 30 anos. É magra, forte e tem um sorriso lindo.

Neide foi jogada de lá para cá, na espera infinita de cura. Tentávamos confortá-la: pode ser só um cisto. Ela pressentia algo mais grave. Só com a intervenção de médicos particulares, amigos da família, Neide conseguiu saber seu lugar na fila e ter informações sobre “o andamento” de seu caso, a passos de tartaruga. Bastava ter paciência.

Quando chegou sua vez da cirurgia, em fevereiro, o médico avisou que só operaria com biópsia. Neide ficou na fila para fazer a biópsia. Entre marcação de exame e resultado, foram quatro meses de agonia e dor. Na última quarta-feira, saiu o diagnóstico. Câncer. Neide voltou ao hospital com o exame. “A médica disse que, do jeito que está, não dá para operar. Tão grande que toma meu peito quase inteiro. Tem de fazer radioterapia antes para queimar. Mas o médico oncologista só tem hora daqui a um mês”, disse Neide.

Eu ia escrever sobre o congresso do PT. O Partido dos Trabalhadores é um partido de esquerda, fundado há 35 anos e no Poder há mais de 12. O maior compromisso do PT é, por definição, com os trabalhadores. Com a saúde e a educação do povo. E a moradia, o saneamento, o emprego. Já se foram três mandatos, e a cereja do bolo agora é a “Ferrovia Bioceânica”, que (nunca) vai ligar o Rio de Janeiro ao Peru – mais uma obra megalomaníaca destinada a parar no meio e dar prejuízo ao Brasil.

Eu ia escrever sobre o congresso do PT, tão dividido e acossado pelas denúncias de corrupção que agora batem à porta do Instituto Lula. Mas vi no Facebook uma postagem de Nilza Rezende, escritora e mãe de minha nora, sobre a via-crúcis de Neide. E aí meu sangue ferveu.

“Como um mês no hospital público brasileiro vira um ano”, escreveu Nilza, “talvez a Neide seja atendida quando não der mais tempo para cura. Fico perplexa e chocada ao ver como pobre sofre neste país. A vida é mesmo injusta. E o governo é cúmplice. O que adianta ficar fazendo propaganda para as mulheres se autoexaminarem? Balela. Quando elas veem o tumor ficar do tamanho de uma bola, elas têm de esperar quase um ano para ser atendidas. Não há salvação: o SUS é o caminho para a morte.”

Desculpe, Neide, desculpe os milhões de brasileiros que acreditaram que o PT de Lula mudaria de verdade as prioridades do país. Se você votou, votou no cara. Muito tempo depois, foi eleita no lugar dele uma mulher. Diziam que era o poste de Lula, quanta injustiça. Como mãe do PAC, com certeza ela faria muito pela Saúde feminina.

Dilma sofreu de câncer e cuidou de tudo no Hospital Sírio-Libanês em São Paulo. Uma vitoriosa, que contou com a agilidade, os recursos e os talentos da melhor medicina nacional. Está certo dar tratamento VIP a uma presidente. Só não está certo o SUS desprezar a massa. A demora no atendimento, tratamento e cirurgia de câncer significa, frequentemente, a morte em vez da vida. Poderia ser o Estado acusado de homicídio doloso – aquele em que o algoz sabe que corre o risco de matar?

Presidente Dilma, a senhora abreviou sua viagem para ir à abertura do congresso de seu partido. Diante do profundo copidesque ideológico que sofreu o discurso do PT, pare um pouco. E pense na Neide. O que fazer para dar a ela um tratamento mais digno, menos doloroso e apressar ou garantir sua cura eventual? Pense em todas as Neides que aguardam a vez de ser operadas – e não têm a quem apelar porque não são representadas por ninguém. Pense em como nos convencer de que seu governo enfrenta apenas “a intolerância de uma minoria”. Foi o que a senhora disse em Salvador.

Pense em tudo que foi desviado dos hospitais para enriquecer seus militantes hoje bilionários, pense em seus 39 ministérios, pense nas obras inacabadas e abandonadas da Copa do Mundo, pense em sua propaganda enganosa, pense se a tal Ferrovia Bioceânica não é mais um engodo a ser metido goela abaixo de um povo que acreditou. Para começar, que tal pedir desculpas a Neide?

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