‘Não classifico as pessoas’, diz criador da iniciativa #jesuscuraahomofobia

Grupo de evangélicos lança a campanha #jesuscuraahomofobia na Parada Gay de São Paulo (foto: Clauber Ramos/Divulgação)

Grupo de evangélicos lança a campanha #jesuscuraahomofobia na Parada Gay de São Paulo (foto: Clauber Ramos/Divulgação)

Márcio Padrão, no UOL

Em um ano onde o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Cunha incentiva a discussão de um projeto que define família apenas como união entre homem e mulher, e uma marca de cosméticos é ameaçada de boicote por mostrar namorados gays em um anúncio de TV, a iniciativa de um grupo de diversas igrejas evangélicas e católicas emocionou o público da última Parada Gay de São Paulo, no último dia 7, por ter remado contra essa maré conservadora.

Inspirado em uma iniciativa similar que vem ganhando força entre cristãos norte-americanos, a “I Am Sorry”, o representante comercial José Barbosa Junior convocou 20 amigos para levarem cartazes com mensagens de desculpas pelo tratamento dado por grande parte dos evangélicos à comunidade LGBT.

Com a hashtag #jesuscuraahomofobia, o grupo recebeu muitas manifestações de apoio durante a Parada, na avenida Paulista, e nos dias seguintes, pelas redes sociais.

“Vi que uma drag queen toda paramentada me olhava com olhos lacrimejantes e visivelmente emocionada com o meu cartaz. (…) Creio que reconheceram naquele pequeno grupo um amor infelizmente negado pela maior parte da Igreja. Fiquei sonhando como seria se a Igreja expressasse o amor de Jesus de forma simples e sem preconceitos”, escreveu o gerente administrativo Clauber Ramos, um dos participantes da ação, em um texto no Facebook com quase 7 mil compartilhamentos.

“Alguns, a princípio, quando olhavam as faixas e cartazes pensavam se tratar de um grupo evangélico querendo os converter, mas quando olhavam com calma, começavam a aplaudir, tiravam fotos e muitos vieram nos abraçar. Esses eram os momentos mais emocionantes, de aproximação mesmo, como desejávamos. Os trios elétricos que passaram aplaudiam e liam nossa faixa. Foi realmente inesquecível”, resumiu Barbosa Júnior.

As críticas e xingamentos maiores vieram após o evento, também nas redes sociais, por parte de cristãos “mais fundamentalistas”, segundo ele. “O pastor que me batizou, em 1987, por exemplo, foi à minha página para dizer que tinha nojo de ter batizado a mim e outros ‘imundos'”.

Ainda assim, os relatos positivos continuaram a se acumular. “Familiares se diziam arrependidos pela forma como trataram seus filhos e sobrinhos gays e houve até mesmo um caso de um rapaz que estava pensando em se matar pois, evangélico que é, não tinha aceitação nem em sua família e muito menos na sua igreja. Ao ler sobre nossa ação, desistiu do suicídio. Isso não tem preço!”, revela Barbosa Júnior.

Punição à sexualidade

Na opinião dele, a sexualidade é uma “pedra no sapato” para a igreja evangélica aceitar melhor o universo LGBT.

“É um tema com o qual ela ainda não aprendeu a lidar e, na maioria das vezes, trata de forma superficial e punitiva. Isso até entre héteros. Quando vai para o universo homoafetivo aí a coisa triplica, quadruplica. É muito mais fácil lidar com isso na base da proibição e da punição do que aceitar, acolher e entender a realidade de um homossexual, bissexual ou transexual”.

“Como, infelizmente, a maioria é massa de manobra nas mãos de pastores e empresários que fazem desse discurso de ódio o seu ‘ganha pão’, eles só repetem o que dizem seus líderes. Falta reflexão, sobra intolerância. Constantemente estou debatendo o tema com alguns, mas é uma tarefa árdua pois muitos sequer param pra ouvir”, complementa.

Por outro lado, as reações adversas e generalizações da comunidade LGBT aos religiosos também seriam frutos dessa desigualdade, segundo o criador do #jesuscuraahomofobia.

“Primeiro, porque eles foram atacados antes. A Igreja sempre os criticou, puniu e os condenou a um inferno nesta vida e na ‘outra’. Uma comunidade atacada constantemente tende a reagir, e muitas vezes, infelizmente, com as mesmas armas do opressor: ódio e intolerância. Quanto às generalizações, creio que têm menos culpa ainda, pois essa visão de evangélico como retrógrado, alienado e inquisidor é quase consenso geral, não só entre para os gays, porque nos julgam a partir daqueles evangélicos que têm ‘mídia’ e estes, em sua enorme maioria, são inquisidores”, critica.

Após a experiência, José Barbosa Júnior reforça sua crença na convivência harmoniosa entre cristãos e LGBTs. “Não há porque não ter. Não ‘classifico’ as pessoas. Gente é gente. É ser humano”.

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