O mistério da transexual crucificada na Parada Gay

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Contardo Calligaris, na Folha de S.Paulo

Durante a última Parada Gay, no domingo (7), uma jovem e bonita transexual, Viviany Beleboni, desfilou em cima de um trio elétrico, crucificada, com coroa de espinhos na testa, chaga do lado, sangue e expressão contida de agonia. No alto da cruz, um cartaz: “Basta de homofobia com GLBT (sigla para gays, lésbicas, bissexuais e transexuais)”.

Viviany encenou a paixão final de Cristo. Houve pessoas para se indignarem, achando a performance satírica –o que é francamente bizarro: a encenação não debochava nem um pouco.

A própria já respondeu: “Jesus morreu por todos e foi humilhado, motivo de chacotas, agredido e morto, que é o que vem acontecendo diariamente com LGBTs, por não termos leis”. Concordo, só não sei se isso acontece por não termos leis ou por termos muita “gente ignorante que não entende arte”, como Viviany também disse, com razão.

Arte, alguém perguntará? Sim, claro, a performance de Viviany pertence a uma das formas tradicionais da arte teatral no Ocidente: os mistérios da Idade Média. Eram encenações sem palavras, do alto de charretes estacionadas ao redor da praça da igreja.

A representação da Paixão de Cristo nunca faltava durante a Semana Santa. E a tradição não se perdeu. Sobraram, por exemplo, as encenações grandiosas que são transmitidas pela TV.

Hoje, a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém é encenada por atores globais. Agora, entre Viviany Beleboni e Thiago Lacerda, prefiro Viviany. Lacerda é bom ator, mas ela tem a autenticidade tocante de quem vive a Paixão a cada dia.

Vendo seu torso na cruz, só é possível pensar no calvário de quem é transgênero. Como é possível que alguns se sintam ofendidos por isso?

1. Em geral, os que transformam a fé em comércio preferem deter o monopólio de seu profeta, de seus dogmas, de suas cerimônias etc. Alguns não gostaram da encenação de Viviany, suponho, porque querem ser os únicos donos do Cristo –para vendê-lo melhor.

2. Estranho paradoxo: os que se indignaram porque Viviany desfilou na cruz são os mesmos que se agitam para que a vida dela seja um tormento: fomentam o preconceito contra ela, tentam impedir que possa se casar ou mesmo dispor de um registro de identidade certo para seu gênero –o que permitiria que ela assinasse um contrato de aluguel, trabalhasse com carteira etc.

Na quarta-feira (10), justamente, a dita “bancada evangélica” da Câmara protestou contra a performance, recitando um pai-nosso e erguendo fotografias que misturavam o obsceno ao sagrado. A bancada se sentiu ofendida pelo quê?

3. Ninguém se indignaria se quem desfilasse na cruz, identificando-se com o sofrimento de Cristo, fosse um peregrino penitente, um enfermo incurável ou, ainda, a vítima de uma tremenda injustiça social.

De fato, os homossexuais, sem nem mencionar os transgêneros, morreram nos grandes matadouros do século 20 e, da democrática Inglaterra até a Cuba comunista, foram vítimas de perseguições até os anos 1960, no mínimo.

Isso não conta para nossa “bancada evangélica”. Porque, aparentemente, para nossa “bancada evangélica”, tudo o que tem a ver com sexo (ou com gênero –para ela, aliás, tanto faz) é uma questão de falta de vergonha.

Para a tal bancada, o mistério encenado por Viviany só pode ser pornográfico porque ela é transgênero.

Prefiro nem imaginar os caminhos pelos quais os membros de nossa bancada chegaram a essa conclusão –suponho que seja uma mistura de ignorância com fantasias reprimidas, e uma dose de má-fé com a qual perco até a vontade de argumentar.

Em 1991, Oliviero Toscani tornou famosa uma fotografia de Therese Frare, que mostrava o ativista David Kirby no leito de morte, com seu pai, sua mãe e sua sobrinha.

Toscani chamou a foto de “A Pietà”, que é o nome dado às representações da Virgem Maria chorando o filho depois de ele ter sido descido da cruz.

A “bancada evangélica” da época protestou, justamente porque Kirby, por mais que estivesse sofrendo, estava morrendo de Aids –vítima, segundo ela, de sua vida “promíscua”.

Bom, a fotografia de Frare tornou-se, segundo a revista “Life”, uma das “Cem Fotografias que Mudaram o Mundo”.

E Toscani respondeu: “Chamei a foto de David Kirby e de sua família ‘A Pietà’ porque é uma Pietà que é real. A Pietà de Michelângelo, no Renascimento, pode ser falsa, Jesus Cristo pode nunca ter existido.

Mas sabemos que esta morte aconteceu. Essa é a coisa mesma (a Pietà verdadeira)”.

Comentários

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2 Comentários

  1. Lincoln Menezes disse:

    Ótimo texto. Da um ponto de vista de seriedade que não foi cogitado quanto ao protesto dessevativista. Quero só dizer que a interpretação equivocada das pessoas de um modo geral, não só evangélicos, aconteceu devido aos excessos que foram cometidos durante eventos LGBT, insersão de cruzes no anus, queima se crucifixos, e por ai vai. Talvez seja esse o motivo pelo qual esse protesto tenha sido tao mal interpretado.

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