A incrível geração das pessoas chatas

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Mariliz Pereira Jorge, na Folha de S.Paulo

Estamos quase no final da semana nacional de reclamação do frio. Acontece todo ano. Bastou as temperaturas caírem para todo mundo reivindicar a volta imediata do verão. Mesmo sendo outono. Mesmo que o inverno apenas comece oficialmente no próximo domingo. Ok, essa reclamação é café com leite, é tipo conversa de elevador.

Esfriou. Esquentou. Que chuva. Que raios. Não temos papo, falamos do tempo.

Até que os dias estão calmos. Talvez pelos ânimos resfriados e hibernativos. Poderiam continuar assim. Porque não há semana que eu não me pergunte se sempre fomos chatos assim. Quero entender o que acontece para as pessoas estarem se tornando tão aborrecentes.

A gente pisca e aparece alguém que se acha mais legal, mais informado, mais moderno, mais bem intencionado e, claro, esfregue em nossa timeline sua superioridade rastaquera travestida de empáfia.

Nada fica impune. Nada passa pelo crivo da inquisição modernoide.

Ontem mesmo o pessoal estava se divertindo com livros de colorir. Só de olhar, quero morrer de tédio. Ganhei um de aniversário, bem lindo, que ficará guardado porque foi presente de uma pessoa querida, que só pensou no meu bem estar. Fico meio culpada de não ter a sensibilidade e a paciência dos outros. Tem que ter dom até para pintar com lápis de cor. Ou nenhum porque é só uma birosca de uma brincadeira.

Mas não faltou gente pra desdenhar, pra fazer piada. Vi psicólogo dizendo que isso era uma forma de fuga. Que bom. Antes fugir da realidade pintando uma árvore do que pulando de cima de uma.

Teve o episódio do nascimento da princesinha, irmã do príncipe George. Quase propus um bolão para acertar a nome da bebezinha. Só não coloquem Diana, comentei num post. Pra que? Para vir alguém dizer que o mundo estava cheio de problemas para a imprensa dar destaque a uma notícia dessa.

Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

E a segunda-feira sem carne?

Por mim. Por você. Pelos animais. Pelo planeta. Bradam os não-carnívoros de ocasião. Dispenso. O que essa pessoa quer dizer é que é melhor do que você que está aí atracado com essa chuleta com bacon. Mais evoluído do que você que baba num picadinho com ovo.

Gente, segunda é o dia mundial no Brasil de picadinho com ovo. Inventei isso agora porque simplesmente não vou abrir mão do meu picadinho com ovo. Nem segunda nem outro dia qualquer que eu tenha vontade. A quem se prontificar, só digo uma coisa: parabéns, você é foda, mas não precisa se sacrificar tanto por mim.

A pessoa não come carne, mas nada com os golfinhos escravizados dos parques aquáticos. Não inventei isso. Pode assistir The Cove, que ganhou Oscar de melhor documentário. Eu como carne, mas não nado com golfinhos e não vejo espetáculos com baleias orcas, outras coitadas. Mas também não encho o saco de quem faz. Não vou instituir as #fériassemgolfinhos. Cada um sabe do seu rabo.

Muita gente agora tem essa mania de jogar na nossa cara que estão fazendo isso ou aquilo por nós. Não como carne por você. Não raspo o sovaco por você. Vou passar um dia sem usar o carro por você. Vou ficar uma hora no escuro pelo planeta. E por você.

Quer fazer alguma coisa pelos outros? Não dê sua opinião. Quer ser uma pessoa mais bacana? Não encha o saco. Quer fazer alguma coisa pelo mundo? Pare de ser chato.

Nada escapa. Tem uma reclamação por semana. Reclama-se do dia das mães, do dia dos pais, do dia dos namorados, do frio, do calor, do trânsito, de quem vê novela. Reclama-se de quem faz ironia, de quem faz piada, de quem é politicamente incorreto, de quem faz teste no Facebook e, ainda por cima, compartilha. Reclama-se de ser adolescente, de ser independente, de não ter trabalho ou de ser escravo dele. Tem jovem reclamando que é mais bem sucedido do que os pais.

Valha-me.

A pessoa quer um mundo mais justo e para uma festa porque o DJ está tocando Fricote e a letra diz que a “nega do cabelo duro não gosta de pentear”. Racismo, gritam. A revista Superinteressante coloca na capa “O lado negro do Facebook” e é acusada do que? Racismo.
Socorro.

A pessoa quer ser um ponto fora da curva e tudo que consegue é ser uma mala. A pessoa quer parecer legal e preocupada com os outros e tudo que consegue é ser insuportável. A pessoa vive num mundo que deveria ser cada vez melhor pela simples evolução do mundo, mas apenas engrossa a massa de uma geração que está cada vez mais chata.

Apenas parem. Aproveito para usar aqui a frase favorita dessa geração que acha que sabe tudo e que tem o direito de mandar na vida dos outros. Tem outra frase repetida como novena. Parem, está feio.

Eu só digo uma coisa: parem, está chato demais. Eu paro por aqui, estou me tornando a chata que reclama dos chatos que não param de reclamar.

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