Uma cruz, uma pedrada e nove mortos

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Magali Cunha

Em duas semanas fomos confrontados com três notícias que tiveram muita repercussão nas mídias: a encenação da crucificação de Jesus na Parada Gay, em São Paulo, por uma transexual, o apedrejamento de uma menina fiel do Candomblé, na saída de um culto no Rio de Janeiro, por dois homens identificados como evangélicos, o assassinato de nove pessoas que participavam de reunião de oração na Igreja Metodista Africana, da cidade de Charleston (EUA) por um jovem defensor da supremacia racial branca. O que estes casos têm em comum? São claras expressões de intolerância – um elemento cada vez mais presente nos diferentes espaços sociais nos quais estamos inseridos.

A cristofobia, de fatohomofobiaa

No primeiro caso, não houve um ato de violência (apesar de alguns grupos religiosos o terem interpretado como agressão ao símbolo cristão que é a cruz), mas de denúncia dela da parte de uma pessoa transexual. Ao trazer um símbolo cristão para o protesto, a transexual chamava a atenção, propositalmente, às agressões verbais, simbólicas e físicas (práticas homofóbicas) que as pessoas LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais) sofrem, muitas delas praticadas por cristãos.

O ato comunica que, assim como Jesus foi crucificado por religiosos de sua época, há pessoas sendo “crucificadas” em nossa época, entre elas, cidadãos e cidadãs LGBT. A repercussão levou grupos católicos e evangélicos a classificarem a encenação como cristofobia (aversão a Cristo). Há quem pense o contrário, que a cristofobia vem sendo justamente praticada por religiosos que são avessos aos valores de amor, misericórdia e justiça pregados pelo Cristo. Celebridades evangélicas políticas e midiáticas, que disseminam discursos homofóbicos, têm feito discípulos (veja a postagem de um pastor de Salvador/BA no Facebook).

O incômodo (e até revolta) de ver a cruz sagrada junto ao corpo de uma transexual, provocado em muitos cristãos, mais do que novas ações de intolerância, deve ser uma oportunidade de reflexão e avaliação para estes grupos: como tem sido valorizada a cruz de Cristo nas práticas religiosas hoje? Tem sido cantada? Pregada? Experimentada? De forma individualista ou coletiva? Tem escandalizado/incomodado com valores contrários aos que predominam no tempo presente (como está na Carta de Paulo aos Coríntios, no Novo Testamento bíblico) ou tranquilizado/acomodado? O sofrimento pessoal e do próximo (o Outro/o Diferente) é objeto de reflexão, preocupação e ação solidária da parte de seus seguidores?

Um caso entre muitosmalafaia menina pedra

Sobre o apedrejamento da menina Kailane, repercussões entre muitos religiosos foram de rejeição ao ato. Pastores evangélicos manifestaram contrariedade (veja imagem abaixo) e solidariedade à menina e sua família (veja exemplos aqui e aqui ). O arcebispo católico do Rio de Janeiro teve um encontro com Kailane e familiares, quando reafirmou que a atitude partiu de uma minoria que não pode ser chamada de cristã (saiba mais aqui). Interessante que vários comentários em mídias sociais classificam os criminosos como loucos, idiotas.

Algumas pessoas, em defesa do seu grupo religioso, ainda registraram que é preciso verificar se eram mesmo evangélicos. São formas de amenizar o fato e não admitir que a intolerância que sempre existiu no Brasil, com diferentes grupos e de várias formas, e se manifesta de maneira mais exacerbada e explícita em nossos tempos, em especial pela força das mídias. As pessoas que praticaram o ato não são loucas ou idiotas; sabem o que estão fazendo e a quem estão se dirigindo. Este é apenas um entre muitos casos que são noticiados ou não, de apedrejamentos e violência verbal e simbólica contra pessoas e destruição de templos e imagens religiosas. Há milícias religiosas formadas para tal. Sejam evangélicos ou não, durante o ato usaram palavras do jargão religioso cristão carismático-avivado-pentecostal. Isso quer dizer que os cristãos carismáticos-avivados-pentecostais são intolerantes? Seria por demais injusto e irresponsável generalizar e rotular. No entanto, ao invés de se tentar amenizar o fato ou deslocar a responsabilidade por ele, o caso é mais um grande oportunidade que os cristãos têm de refletir: não seria a teologia da guerra e da batalha espiritual um estímulo a práticas de intolerância? Não seriam os cristãos hoje, por meio de canções da parada de sucessos gospel e pregações de líderes, os mais diversos, incentivados a encontrar inimigos concretos (não mais poderes invisíveis combatidos só com oração) a quem se deve “pisar na cabeça”, destruir? Ao amenizar e deslocar a responsabilidade, cristãos não se tornam apoiadores de novas atitudes como essa que ocorreu?

Desigualdade no trato do ódio

A matança na Igreja Metodista em Charleston chocou muita gente mas não teve a repercussão do caso da revista Chalie Hebdo, na França, em janeiro passado – um atentado de radicais islâmicos contra jornalistas europeus críticos do Islam. Diferente do sempre apelativo caso islâmicos x ocidente, em Charleston temos uma explícita manifestação radical de ódio racial. Da mesma forma que no episódio da candomblecista Kailane, muitos comentários em mídias buscaram explicar o caso como tendo sido praticado por um louco e que este seria mais um dos atiradores solitários que comumente matam pessoas nos EUA. Os primeiros interrogatórios indicam que o rapaz de 21 anos sabia muito bem o que estava fazendo: declarou que desejava iniciar uma guerra racial e que chegou mesmo a pensar em desistir pois “todo mundo era muito amável com ele” (saiba mais aqui).

A trágica morte das nove pessoas metodistas negras em Charleston traz três considerações importantes para reflexão:

1) negros evangélicos estadunidenses assassinados não tiveram o mesmo tratamento nas mídias e nas manifestações internacionais como o tiveram os jornalistas franceses; da mesma forma a questão do racismo ganha tratamento inferior frente às questões políticas que envolvem o islam radical;

2) O jovem pode ter comprado a arma que usou no crime apesar de ter ganhado uma do pai quando completou 21 anos; como relacionar este e outros casos nos EUA com a atual plataforma da “Bancada da Bala” no Congresso (que tem evangélicos na sua formação) que prega a liberação das armas para a segurança dos/as brasileiros/as?

3) Este jovem aprendeu a odiar negros. Intolerância se aprende.

fonte: Mídia, Religião e Política

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