Viagem em busca da boa convivência religiosa

Organização francesa percorre o mundo atrás de comunidades e ações que valorizem a diversidade

Tolerância. Integrantes do primeiro tour da Coexister em Jerusalém: organização fundada quando conflito entre israelenses e palestinos voltou a se acirrar - Divulgação/Sparknews

Tolerância. Integrantes do primeiro tour da Coexister em Jerusalém: organização fundada quando conflito entre israelenses e palestinos voltou a se acirrar – Divulgação/Sparknews

Jake Cigainero, no SparkNews [via O Globo]

Há dois anos, Samuel Grybowski e três companheiros de viagem chegaram a Nagoia, no Japão, sentindo-se cansados, sujos e precisando ficar sozinhos por um tempo — um luxo raro no ano que passaram juntos na estrada.

— Estávamos sempre um no pé do outro, então, de fato não tivemos um momento sozinhos, a não ser no chuveiro — conta .

Foi um choque então quando souberam que iam tomar banho em um tradicional banho público com outros 200 homens, lembra: “Foi meio embaraçoso”.

Quando Grybowski criou uma organização dedicada a ajudar pessoas de diferentes religiões a viverem juntas, banhos comunitários não faziam parte de seus planos. O jovem francês fundou a Coexister (“Coexistir”) em 2009, aos 16 anos, depois que o conflito entre israelenses e palestinos voltou a se acirrar. Desde então, a organização realizou intercâmbios culturais e projetos comunitários. Mas sua maior iniciativa é a ambiciosa “InterFaith Tour”, uma viagem pelo mundo para ver como organizações similares desenvolvem, em outros países, as relações entre comunidades religiosas. O primeiro tour foi em 2013 e, agora em julho, um novo grupo, com um muçulmano, um judeu, um cristão e um ateu, parte para o segundo.

PROMOÇÃO DA TOLERÂNCIA

O propósito do tour, conta Victor Grezes, outro integrante da primeira viagem, não é difundir uma mensagem pelo mundo. “Isso seria pretensioso”, diz. Seu objetivo é elevar o conhecimento sobre as iniciativas interreligiosas, assim como conectar as organizações para que troquem ideias e práticas na promoção da tolerância e da cooperação entre comunidades religiosas.

O primeiro tour visitou 48 países em dez meses, encontrando 435 organizações, e foi seguido por dois meses na França, em que os integrantes dividiram seus achados com escolas e outras organizações. Agora, Samir Akacha, Léa Frydman, Ariane Julien e Lucie Neumann seguirão os passos de seus predecessores na equipe “InterFaith Tour 2″, com um orçamento de € 100 mil (US$ 108 mil) levantado junto ao governo francês e a diversas organizações (incluindo a Sparknews, parceira da Coexister desde o primeiro tour). Embora esta segunda equipe só vá viajar por 30 países, ela vai passar mais tempo em cada parada e visitar novos locais, como Azerbaijão e Tunísia. As informações coletadas serão arquivadas na Universidade de Viena, como parte de uma parceria de pesquisa. A equipe também vai produzir um documentário multimídia para a internet e um aplicativo móvel que permitirá aos usuários acompanhar o tour por meio de atualizações ao vivo da estrada.

Para a parisiense Léa, estudante de filosofia de 20 anos, o tour é tanto causa social quanto uma saga de sua identidade pessoal.

— Como judia, fiquei chocada em ver o antissemitismo presente na França — conta. — Isso reforçou minha convicção de que o que estamos fazendo não só é importante como necessário.

Akacha diz que espera que o tour fortaleça sua fé por meio da interação com outras religiões.

— Não sou o mesmo muçulmano que seria se tivesse ficado apenas na minha comunidade, se não tivesse conhecido judeus e cristãos, ido a reuniões cristãs ou a eventos em sinagogas — considera. — As pessoas fazem perguntas, então tenho que responder para defender minha religião. Preciso questioná-la e aprender mais para me tornar um muçulmano melhor.

O objetivo final da Coexister não é apenas encorajar a tolerância entre grupos religiosos, mas fomentar a colaboração para a construção de comunidades que valorizem a diversidade.

— Em vez de dizer “apesar de nossas diferenças”, dizemos “graças a nossas diferenças” somos mais fortes — destaca Grezes.

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