Frei Betto: Francisco e a encíclica verde

Os efeitos mais graves de todas as agressões ambientais recaem sobre as pessoas mais pobres

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Frei Betto, em O Dia Online

Um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus. É nossa humilde convicção que o divino e o humano se encontram no menor detalhe da túnica inconsútil da criação de Deus, mesmo no último grão de poeira do nosso planeta. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza e a justiça para com os pobres.

Infelizmente, muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados, não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros.

A Terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo. É verdade que há outros fatores (tais como as variações da órbita e do eixo terrestre, o ciclo solar), mas numerosos estudos científicos indicam que a maior parte do aquecimento global das últimas décadas se deve à alta concentração de gases com efeito estufa (anidrido carbônico, metano, óxido de azoto) emitidos, sobretudo, por causa da atividade humana.

Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder econômico ou político parecem concentrar-se, sobretudo, em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudanças climáticas.

Os impactos ambientais podem afetar milhares de pessoas, sendo previsível que o controle da água por grandes empresas mundiais se transforme numa das principais fontes de conflitos deste século.

Os efeitos mais graves de todas as agressões ambientais recaem sobre as pessoas mais pobres. Hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da Terra, como o clamor dos pobres.

Todo o Universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós. O solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus.

É evidente a incoerência de quem luta contra o tráfico de animais em risco de extinção, mas fica completamente indiferente perante o tráfico de pessoas, desinteressa-se dos pobres ou procura destruir outro ser humano de que não gosta.

Toda a abordagem ecológica deve integrar uma perspectiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos.

PS: Todas as palavras acima são do Papa Francisco na Encíclica ‘Louvado Seja’, lançada no último dia 17 de junho.

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