Mães que trabalham fora têm filhos mais educados e independentes

Gabriela Gomez, 37 (à esq.) e Thaís Vilarinho, 36, que criaram o blog "Mãe Fora da Caixa" (foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

Gabriela Gomez, 37 (à esq.) e Thaís Vilarinho, 36, que criaram o blog “Mãe Fora da Caixa” (foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

Juliana Vines, na Folha de S.Paulo

Resultados de pesquisas recentes podem ajudar mães que trabalham fora a espantar de uma vez por todas o fantasma da culpa. Segundo esses estudos, investir na carreira é bom para a educação das crianças.

Um levantamento da Universidade Harvard publicado no mês passado revelou que as filhas de mães que trabalham, quando adultas, ganham mais e têm melhores cargos do que aquelas cujas mães ficaram em casa. Nos Estados Unidos, a diferença salarial chegou a 23%.

Entre os homens, a vantagem não está no bolso, mas nos hábitos. Os filhos de mães que trabalharam ajudam mais nas tarefas domésticas e passam quase o dobro de horas em família em comparação com aqueles que tiveram mães dona de casa.

O estudo analisou dados de 50 mil pessoas com idades entre 18 e 60 anos, coletados em 25 países de 2002 a 2012.

Segundo as pesquisadoras, o “working mother effect” (algo como “efeito mãe que trabalha”) é benéfico para toda a sociedade porque ajuda a reduzir diferenças de gênero.

Outra pesquisa dos EUA já tinha analisado 69 estudos sobre o tema e mostrado que crianças cujas mães trabalham fora têm menos problemas de aprendizagem e tendem a ser mais bem sucedidas na escola.

Para a psicóloga Cecília Russo Troiano, os resultados fazem sentido e podem ser trazidos para a realidade brasileira. Ela fez uma pesquisa com 400 pessoas (metade tinha mães que trabalhavam; metade, não) para o livro “Aprendiz de Equilibrista” (Generale, 130 págs.).

“Os pais são os principais modelos dos filhos. Se há um ambiente de igualdade entre homem e mulher, isso vai servir de referência para a vida das crianças. Nesse caso, é de pequenino que se torce o pepino, sim”, afirma.

Além de criar meninos e meninas menos machistas, outro benefício para as crianças é a autonomia, afirma.

“A mãe que trabalha fora precisa de um filho mais independente, que resolve parte dos problemas sozinho. Isso ajuda a superar desafios na escola e no trabalho.”

A fonoaudióloga Thaís Vilarinho, 36, acredita que o seu trabalho faz bem não só para os dois filhos –Matheus, 7, e Thomás, 4–, mas principalmente para ela.

“Quando o Matheus nasceu decidi cuidar dele integralmente e parei de trabalhar. Com o tempo, fui me perdendo como mulher, me esquecendo. Comecei a me achar chata, só falava nisso.”

Dois anos depois, voltou a trabalhar meio período. “Hoje me sinto completa. Mudou minha autoestima, melhorou meu casamento. Acho que sou melhor mãe trabalhando do que sem trabalhar.”

Claro que às vezes a culpa aparece, mas ela não se arrepende. “Os filhos se adaptam. É algo importante para a independência da mulher”, diz ela, que nesse processo criou com uma amiga o blog “Mãe Fora da Caixa”.

REALIDADES DIFERENTES

Para a psicóloga Maria Lúcia Rocha-Coutinho, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ao trazer a discussão para o cenário brasileiro é preciso diferenciar as mães que trabalham fora.

Aquelas que têm uma carreira e se sentem realizadas são um exemplo positivo. Já aquelas que têm que trabalhar pelo salário, nem sempre.

“Se elas não gostam do que fazem e não têm ajuda em casa, como acontece em muitos casos, acabam se sentindo sobrecarregada, e isso, claro, não é bom para os filhos.”

A psicanalista Malvine Zalcberg diz que o grande desafio da mulher que trabalha fora é equilibrar carreira e família. “Tem que saber avaliar o quanto ela pode ficar fora, para que o filho seja independente, e o quanto deve ficar em casa e dar atenção à criança para que ela não se sinta abandonada.”

Na busca desse equilíbrio, a professora Luana Grigoleti Rocha, 31, deixou o mercado financeiro e começou a dar aulas depois que o filho Samuel, 2, nasceu. “Reavaliei toda minha vida. Quando a mãe decide trabalhar fora tem que estar muito decidida, senão sofre.”

Hoje ela se diz realizada em todos os papéis. Um ponto fundamental nessa virada foi a compreensão de que ela precisa de ajuda.

“É importante perceber os próprios limites. Será que não dá para o filho ir para a escola de perua ou fazer compras pela internet em vez de ir ao mercado? A mãe tem que evitar se sobrecarregar para estar disponível emocionalmente para os filhos”, diz a psicóloga Eliana Marcello De Felice.

A professora Luana Rocha, 31, com Samuel, de 2 anos (foto: Karime Xavier/Folhapress)

A professora Luana Rocha, 31, com Samuel, de 2 anos (foto: Karime Xavier/Folhapress)

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