Crianças ganham fama ao pregar em cultos de igrejas evangélicas no RJ

Aos 11, Alani prega em igreja em São Gonçalo (RJ) (foto: Ricardo Borges/Folhapress)

Aos 11, Alani prega em igreja em São Gonçalo (RJ) (foto: Ricardo Borges/Folhapress)

Luiza Franco, na Folha de S.Paulo

O italiano Federico Francolini, 40, saiu de Roma só para conhecer a igreja pentecostal Missão Internacional de Milagres, localizada num bairro de classe média baixa de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio.

Francolini diz ter Aids. Foi à igreja numa noite para ver de perto Alani Santos, menina de 11 anos supostamente capaz de operar milagres. Havia lido sobre ela numa reportagem do jornal americano “The New York Times”.

Não é o primeiro estrangeiro a aparecer por lá atrás de Alani. Na porta da igreja, que fica entre uma peixaria e um terreno baldio, há um cartaz. “Missionarinha Alani: Imprensa de todo o mundo veio entrevistá-la. Pessoas de muitos países alcançaram o Milagre”, diz o anúncio.

Fiéis acreditam que o poder de cura dela se manifesta quando ela toca a pessoa.

No culto presenciado pela Folha, quem pregou foi o pai, o pastor Adauto Santos, 48. “Dizem que o que fazemos é exploração. Não é. Através do toque desta criança você pode sair daqui curado.”

Alani passou a maior parte do tempo sentada na plateia ao lado da mãe, Sandra, 38. Com a Bíblia no colo, acompanhou as leituras. Bocejou duas vezes. Só subiu ao palco quando o pai a convocou para cantar e orar.

Alani tem ar angelical. De olhos fechados e testa franzida, costuma andar devagar pelo palco e dizer versos num tom suave. “Que Deus te mantenha longe do ca-crack”, disse, tropeçando na pronúncia.

Depois, em silêncio, começou a tocar nos fiéis. Nem sempre dá resultados. A uma mulher com tosse intermitente, o pastor ordenou que corresse pela igreja para provar que estava livre do problema. A intervenção parecia ter dado certo. Porém, logo depois, teve outro acesso de tosse.

Ao final, Francolini dizia estar feliz. “Quando ela me tocou, senti um perfume especial. Não acho que a cura funcione como mágica. Tem que orar todo dia”, disse à Folha.

CARREIRA NO EXTERIOR

Assim como Alani, outras crianças têm protagonismo em cultos pentecostais pelo Brasil, como Matheus Moraes. Estreou aos seis e já viajou pelo país e ao exterior. Diz ter passado mais tempo em cultos do que na escola e que já visitou 300 igrejas num ano e gravou quase 40 DVDs.

Aos 17, Moraes quer deixar de ser pregador. “Quando a criança cresce, perde o carisma. Enquanto é pequena, tudo que ela faz impressiona, as pessoas acham fofo.”

A descentralização de igrejas pentecostais dificulta saber quantas crianças fazem esse tipo de papel no Brasil. Organizador de um encontro anual de pregadores mirins em São Paulo, o pastor Valter Luz já reuniu mais de 60.

Mas a participação desses jovens em cultos também é alvo de críticas de outras igrejas evangélicas. “Isso não é comum. Está fora da estrutura psicológica e emocional da criança. É uma exploração por parte dos pais”, afirmou o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no Rio.

O pastor Ed René Kivitz, da Igreja Batista, disse que uma criança não tem maturidade para entender textos bíblicos. “Ela pode, no máximo, decorar discurso e mimetizar o comportamento adulto.”

Para Ronaldo Romulo Machado de Almeida, professor da Unicamp e especialista em pentecostalismo, o fenômeno se insere numa tendência de igrejas terem como pregadores figuras “extremas”.

Exemplos: personagens marginais que se convertem, deficientes físicos e crianças.

“É uma demonstração de que Deus usa qualquer um. [Isso] Produz ânimo espiritual nas pessoas.”

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