Coral jovem une israelenses e palestinos, ainda que por poucas horas

Questões políticas, religiosas, sociais e culturais tornam processo complicado, mas participantes não se importam

Coral reúne jovens judeus e muçulmanos - Reprodução

Coral reúne jovens judeus e muçulmanos – Reprodução

Isabel Kershner, no The New York Times [via O Globo]

Avital Maeir-Epstein e Muhammad Murtada Shweiki vivem a 140 metros de distância em Abu Tor, um bairro de Jerusalém que fica justamente na linha do armistício pré-1967, uma marca invisível mas que se tornou um símbolo político da divisão da cidade entre Israel e a Palestina.

Os adolescentes vivem em lados diferentes dessa linha divisora, mas por algumas horas todas as segundas à tarde, os dois se encontram.

Avital, de 16 anos, é soprano e Muhammad, de 15, é tenor/baixo do Coral Jovem de Jerusalém, que une jovens israelenses e palestinos em sessões de canto e diálogo conduzidas por facilitadores profissionais. Criado em 2012, o coral é uma das poucas iniciativas de coexistência que resistiu ao ódio e à violência que eclodiu em ambos os lados ao longo do ano passado.

Esses encontros são realizados em um dos raros espaços considerados neutros na região: o imponente edifício que abriga a ACM Internacional de Jerusalém na Rua do Rei Davi, em Jerusalém Ocidental. Lá, ao invés de ignorar as questões políticas, o grupo cria um ambiente alternativo onde jovens israelenses e palestinos podem discutir suas diferenças enquanto produzem música em parceria.

“Foi muito difícil no ano passado durante a guerra”, afirmou Avital, que estava vestida casualmente, com shorts e camiseta, e se sentava ao lado de outros cantores. Ela se referia à ofensiva contra grupos militantes na Faixa de Gaza que durou 50 dias no ano passado, quando Israel bombardeou Gaza em resposta aos foguetes lançados de territórios nos arredores de Jerusalém. “Sempre recebíamos notícias diferentes – as notícias árabes e as israelenses”, afirmou. “Foi muito complicado, mas passamos por isso juntos”.

Muhammad estava mais formal, com camisa social branca e o cabelo raspado, e se lembrou imediatamente do “shahid”, ou mártir, Muhammad Abu Khdeir em uma discussão a respeito dos eventos traumáticos do ano anterior. Um jovem palestino de 16 anos nascido em Jerusalém Oriental, Khdeir foi sequestrado, espancado e queimado vivo por três judeus israelenses no início de julho, depois que os corpos de três adolescentes judeus que haviam sido sequestrados e mortos por palestinos foram encontrados em uma cova rasa na Cisjordânia.

Avital e Muhammad, que não se conheciam antes de entrarem para o coral, conversavam durante o ensaio final antes que o Coral Jovem de Jerusalém partisse para sua primeira turnê nos Estados Unidos. O grupo se apresentou nas últimas semanas no Festival Internacional de Corais de Yale, em New Haven, além de fazer inúmeras outras paradas, incluindo em Nova York e Washington.

Quem teve a ideia de formar um composto por jovens israelenses e palestinos foi o americano, Micah Hendler, que cresceu em Bethesda, Maryland. Hendler, de 25 anos, frequentou os acampamentos de verão Seeds of Peace (Sementes da Paz) realizados no Maine com jovens árabes e israelenses. Além disso, ele estudou árabe e hebraico e se formou em música e em relações internacionais em Yale. Ele contou que veio a Jerusalém há três anos para ver se o senso de comunidade criado no ambiente controlado dos acampamentos de verão poderia ser recriado na realidade dura de Jerusalém.

Com a arrogância – ou a ingenuidade – de um forasteiro, Hendler foi até escolas de ambos os lados da cidade. Em poucas semanas, 80 jovens se candidataram a uma vaga no coral, a maioria de Jerusalém Oriental, onde Hendler enfrentava menos concorrência com outras atividades extracurriculares. Ele escolheu 35 adolescentes com idades entre 14 e 18 anos. Naturalmente, algumas pessoas saíram e outras entraram ao longo dos anos, mas cerca de metade do grupo original continua envolvido com o coral.

“O que percebi ao criar o coral é que se você observar as coisas apenas sob um viés político, a situação é bem complicada”, afirmou Hendler. “Mas se você pensar bem, as pessoas são muito mais que objetos políticos. Elas têm vidas próprias e querem se conectar umas com as outras”.

Ele acrescentou que “existem outras maneiras de superar as estruturas impassíveis que construímos para nós mesmos”.

Hendler comanda a maioria dos ensaios em inglês, mas também fala hebraico e árabe com os jovens. Quando necessário, os adolescentes traduzem uns para os outros.

Questões políticas, religiosas, sociais e culturais tornam o processo ainda mais complicado. Há apenas um garoto israelense no coral. Os meninos palestinos são atraídos com mais facilidade para a ideia, já que fazem parte da tradição do mawwal, um gênero vocal árabe baseado em poemas. (“Temos algumas tenores excelentes”, destacou Hendler.) Por outro lado, as meninas palestinas de famílias muçulmanas conservadoras geralmente têm que voltar para casa depois da escola e não podem tomar um ônibus para ir ao lado ocidental de Jerusalém para cantar com israelenses.

Muitos ativistas políticos palestinos também passaram a rejeitar o que veem como interações desnecessárias que podem ser vistas como uma forma de normalizar as relações com o invasor israelense. Cerca de 300.000 palestinos – ou um terço da população de Jerusalém – vivem em Jerusalém Oriental, um território que Israel tomou da Jordânia na Guerra de 1967, anexando-o ao país em uma medida que nunca foi reconhecida internacionalmente.

Em vista dos conflitos, muitos jovens palestinos afirmam que contaram apenas aos amigos mais íntimos sobre sua participação no coral, e Hendler é cuidadoso com os locais onde os jovens se apresentam, evitando eventos abertamente nacionalistas em ambos os lados.

Além disso, os integrantes vêm de contextos musicais muito diferentes. Partes do repertório combina tradições harmônicas ocidentais com ritmos árabes. O coral canta uma versão de “Rolling in the Deep”, da Adele, ao estilo da cantora egípcia Umm Kulthum, além de ter composto uma música que mistura rap e mawwal. Um dos pontos altos do grupo foi a gravação de uma versão especial da música “Home”, de Phillip Phillips, ao lado de Sam Tsui, uma estrela do YouTube que cantava com Hendler na faculdade.

Fora da comunidade que criaram, os adolescentes sentem o tumulto a seu redor. Ao longo do ano passado, houve conflitos em torno de uma área sagrada de Jerusalém Oriental, um ataque mortal a uma sinagoga de Jerusalém Ocidental, uma série de ataques a carro contra israelenses, além de confrontos violentos entre palestinos e a polícia, incluindo em Abu Tor, uma região normalmente pacífica.

“Cada dia era diferente”, afirmou Avital, que vive em uma rua mista. “Eu não sabia se me sentia segura ou não”.

Amer Abu Arqub, de 18 anos, vindo do bairro palestino de Beit Hanina, afirmou que quando percebeu que estava em Jerusalém Ocidental justamente no Dia de Jerusalém, quando nacionalistas israelenses tomaram as ruas para celebrar a reunificação da cidade, tomou cuidado para falar apenas em inglês ao telefone.

Os integrantes do coral começaram a se encontrar fora dos ensaios, se conectando através de um grupo do WhatsApp, assistindo filmes e indo às casas uns dos outros para comemorar seus aniversários. Mas o futuro reserva problemas ainda maiores. Quando os israelenses completam 18 anos, por exemplo, são obrigados a fazer o serviço militar.

“Esse é o plano”, afirmou Aviv Blum, um baixo israelense. Alguns dos palestinos “têm pontos de vista muito definidos” a esse respeito, afirmou, acrescentando que acredita que terá de atravessar essa ponte quando chegar sua vez.

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