Furemos nossas bolhas

conteudo-mais-importantePedro Abramovay, no Quebrando o Tabu

Uma das experiências políticas mais fortes que eu tive foi em uma igreja batista. Fui convidado para dar uma palestra sobre drogas em um curso de formação de pastores.

É claro que fiquei um pouco aflito quando recebi o convite. Qual seria a reação dos pastores ao ouvir minha posição? Imaginei que eles soubessem que eu defendo a descriminalização das drogas e outras mudanças radicais nas atuais políticas sobre o tema. Mas, mesmo assim, confesso que não conseguia prever como seria o debate.
Cheguei na igreja batista, na Tijuca, e meu companheiro de mesa era um pastor metodista: Edvandro Machado Cavalcante, coordenador da pastoral carcerária. Na plateia, uma centena de bem-vestidos candidatos a pastor.

Defendi o que penso e foquei nas injustiças causadas pela atual lei. Como sempre, nos debates em que participo sobre o tema, mostrei que a atual lei nos impede de cuidar de quem precisa, gera mais violência ao prender quem não devia e provoca injustiças ao tratar de forma diferente pobres e ricos.

Meu colega de mesa, para surpresa de muitos, foi em linha muito semelhante. Relatou sua experiência nos presídios e os efeitos perversos da criminalização das drogas.

Ao final, as perguntas foram incríveis. Estavam carregadas de um sentimento tão raro atualmente. Uma vontade genuína de compreender o argumento de quem fala. Perguntas complexas, mas completamente sinceras. E um acordo geral no final de que a lei precisava mudar.

Naquele dia eu aprendi muito. Aprendi que eu tinha ido cheio de preconceitos para o debate, ao imaginar que, pelo fato de serem evangélicos, já teriam uma visão cristalizada sobre o tema.

Foi essa lição que me fez aceitar, na semana passada, um convite para falar, sobre esse mesmo tema, no programa Fala que Eu te Escuto, da Rede Record. Um programa de inspiração evangélica. Vários amigos pediram que eu não fosse, disseram que seria uma cilada. Fui. Ainda bem.

As perguntas foram ótimas. A edição melhor ainda. Eles mostraram vários casos de pessoas com quantidades idênticas de drogas em zonas ricas e pobres da cidade e mostraram como o judiciário as tratava de forma diferente. E como isso era injusto.

Tenho visto muita gente fazer uma associação imediata entre a onda conservadora e os evangélicos. É evidente que há muitos evangélicos liderando essa onda. Mas corremos um grande risco de, por preconceito, perder a oportunidade de construir aliados importantes na defesa de ideias progressistas.

O único político com mandato do PSDB que eu vi (há de haver outros) criticando de forma veemente a redução da maioridade foi o deputado estadual – evangélico – Carlos Bezerra Jr. Esse deputado, inclusive, participou de uma frente de pastores contra a redução.

O momento político atual é muito duro. A posição conservadora tem conseguido vencer o debate não apenas no Congresso, mas também no âmbito da opinião pública. Para vencer o atraso, é necessário buscar aliados fora das nossas bolhas. E para romper nossas bolhas, precisamos vencer nossos preconceitos.

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