Prazer mais propósito, a equação da felicidade

Para o economista inglês Paul Dolan, que passou os últimos dez anos pesquisando o que leva alguém a ser feliz, é fundamental unir prazer e propósito e cultivar as relações sociais

"Minha orientação é para que as pessoas centralizem tempo e energia naquilo que realmente lhes faz bem” (foto: VEJA.com/VEJA)

“Minha orientação é para que as pessoas centralizem tempo e energia naquilo que realmente lhes faz bem” (foto: VEJA.com/VEJA)

Fernanda Allegretti, na Veja

No Reino Unido, o economista londrino Paul Dolan, de 47 anos, é conhecido como guru da felicidade. Professor de ciências comportamentais na prestigiosa London School of Economics, ele passou a última década estudando o que faz com que as pessoas se sintam felizes – a convite do Nobel Daniel Kahneman, foi trabalhar na Universidade Princeton (EUA). Lá desenvolveu métodos de pesquisa para avaliar o bem-es­tar dos cidadãos que são usados hoje pelo governo britânico para embasar políticas públicas.

Descolado, Dolan diz, sem constrangimento, que odeia férias de mais de duas semanas, foge de festas de casamento e que seus dois filhos aplacaram um pouco o prazer que tinha na vida – mas acrescentaram um enorme senso de propósito à sua existência. Fã de exercícios físicos, o economista não deixa de ir à academia mesmo nos períodos de maior acúmulo de tarefas universitárias. Autor de Felicidade Construída, livro que resume seus estudos sobre o tema, ele assegura que a satisfação humana não se escreve no singular: só é feliz quem tem, principalmente, relações sociais bem estabelecidas. De Brighton, na Inglaterra, Dolan falou a VEJA.

O senhor define felicidade como a combinação de experiências de prazer com propósito ao longo do tempo. Como é possível controlar esse processo?

Eu não diria controlar, porque se trata de algo muito influenciado pelas circunstâncias. Mas, sem dúvida, é possível criar felicidade. Minha orientação para quem quer ser mais feliz é centralizar o tempo e a energia naquilo que realmente lhe faz bem. Uma vez que, por definição, a atenção que damos a uma coisa é necessariamente a que não damos a outra, é preciso racioná-la e distribuí-la da melhor maneira possível.

E onde entra o propósito?

É importante considerar a dimensão temporal da felicidade. Aceitar que, em alguns momentos, precisamos abrir mão da satisfação no presente em troca de mais felicidade futura. Eis um exemplo: um casamento que não está dando certo pode ser o ponto de partida para o divórcio. Haverá dor de cabeça e tristeza a curto prazo; no entanto, ao menos no Reino Unido, as pesquisas mostram que o divórcio aumenta a felicidade dos cônjuges e dos filhos adultos. Reformar a casa ou largar o cigarro são outros bons exemplos. Os economistas têm um termo para isso: gratificação postergada. As atividades menos prazerosas do dia deveriam, pelo menos, oferecer algum propósito.

Podemos mesmo construir a própria felicidade?

Boa parte de nossas ações é feita de forma automática. O insight psicológico que sugiro é parar para lembrar aquilo que lhe dá prazer no dia a dia e organizar a agenda de maneira que esses períodos se repitam com mais frequência. Essa organização precisa ser feita de forma que as coisas das quais você gosta apareçam na rotina sem que seja preciso ficar planejando constantemente. Imagine que você está construindo um parque para cachorros. É preciso definir onde pôr a área de adestramento, o gramado para que eles corram, a sombra, a água. Quem já levou o animal de estimação a um desses espaços observa que, quando ele é solto, não fica parado, sem saber aonde ir. Ele simplesmente corre porque está em um local que propicia essa liberdade. Tente montar a sua programação diária mais ou menos da mesma forma. Somos parecidos com os cães no modo de reagir a estímulos situacionais.

É possível criar felicidade mesmo em momentos de crise, como a que a Grécia está atravessando, e o Brasil, numa outra dimensão, também?

Uma pesquisa feita recentemente mostra que o estado de espírito dos cidadãos é de duas a oito vezes mais sensível a depressões econômicas do que a períodos de bonança. Portanto, apesar de não ser impossível, certamente é mais difícil aumentar o bem-estar durante essa fase ruim. Mais uma vez, tem a ver com atenção. Uma crise da magnitude da grega ocupa o pensamento das pessoas. Elas estão preo­cupadas com o aumento dos impostos, com a desvalorização de sua moeda e, o mais importante, com o desemprego. A falta de trabalho em idade ativa exerce um grande impacto no bem-estar. O desemprego pode baixar permanentemente a satisfação com a vida.

Dinheiro, então, ao contrário do que diz o ditado popular, traz felicidade?

Sabe-se hoje que a riqueza aumenta bastante a felicidade quando tira pessoas da pobreza para alçá-las à classe média. Uma vez satisfeitas as necessidades básicas, o impacto de cada dólar adicional na conta bancária diminui, porém ele nunca é nulo. Acredito que o efeito da renda sobre o bem-estar seja maior do que o descrito na literatura, porque é preciso, também, levar em conta seus efeitos indiretos. Indivíduos com mais dinheiro tendem a ter mais amigos, casam-se, são mais saudáveis. Todos esses fatores aumentam a satisfação com a vida. Por outro lado, é fácil entender por que aqueles que saem da pobreza têm o seu bem-estar dramaticamente alterado. A pobreza ocupa muito o pensamento. As pessoas ficam o tempo todo preocupadas com a forma com que vão pagar as contas, com o emprego, com a educação precária dos filhos e até em como farão a próxima refeição.

O World Happiness Report 2015 mede a satisfação de cidadãos em 158 países. No topo, estão apenas nações desenvolvidas, como Suíça e Islândia, e, na base, somente nações pobres, como Togo e Burundi. Não é uma comprovação de que a renda é, sim, crucial para a felicidade?

O World Happiness Report leva em conta uma série de indicadores, e não só os econômicos, como o PIB per capita. Considera, por exemplo, a percepção da corrupção pela população, a liberdade de escolha e a expectativa de vida. Esse tipo de estudo avalia outros pontos de vista além das particularidades de cada cidadão. Perguntar como alguém está é uma boa maneira de medir o bem-estar, mas é importante explorar outros universos se quisermos um retrato mais profundo. Acredito que, com os mecanismos de big data e estudos como esse, surjam, no futuro, outras formas de medir a felicidade, baseadas no tom de voz e na expressão facial, por exemplo.

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