5 passos para não passar por estúpido

estupido

David Robson, no BBC Future [via BBC Brasil]

Se você alguma vez duvidou da noção de que mesmo as pessoas tidas como extremamente sábias podem cometer burrices, lembre-se do tempo em que o homem mais inteligente dos Estados Unidos tentou eletrocutar um peru.

Benjamin Franklin capturou “fogo elétrico” em potes de vidro como um tipo primitivo de bateria, e achou que seria uma boa ideia usar a carga armazenada para “assar” o jantar.

A ideia deu certo e ele acabou usando o expediente como truque de mágica para entreter convidados. Mas durante uma dessas apresentações, Franklin se distraiu e cometeu um erro básico – ele tocou um dos potes carregados enquanto segurava uma corrente de metal na outra mão.

“Os convidados disseram que houve um forte clarão seguido de um estrondo barulhento como um tiro”, ele escreveu mais tarde. “Eu senti um baque dos pés à cabeça, algo que não sei descrever; depois notei uma onda violenta sacudindo meu corpo”.

Claramente, ser inteligente não significa necessariamente agir da maneira mais sensata ou racional. O caso de Benjamin Franklin pode ser engraçado, mas há outros bem mais sérios.

O conhecido cirurgião americano Atul Gawande escreveu sobre o que chamou de grande tragédia da medicina moderna. Apesar de suas espantosas habilidades, cirurgiões podem causar mortes por pura falta de cuidados básicos – algo simples como esquecer de lavar as mãos. No mundo dos negócios, uma visão limitada pode resultar em decisões apressadas que eventualmente levam uma empresa à ruína.

Para o psicólogo Robert Sternberg, da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, o problema é que nosso sistema educacional não nos ensina a pensar de uma maneira que será útil por toda a vida.

“Os exames e provas de hoje preveem muito pouco além do desempenho escolar”, afirma. “Você vê pessoas que tiram ótimas notas, mas são péssimos líderes. Ao mesmo tempo em que há técnicos muito bons sem nenhuma ética. Alguns chegam a presidir uma empresa mas são muito incompetentes.”

O que pode ser feito? Sternberg e outros especialistas estão agora fazendo campanhas para reivindicar um novo modelo educacional, que ensine as pessoas a pensar de maneira mais eficiente. As ideias desses cientistas podem nos ajudar a agirmos de maneira menos estúpida.

1. Reconheça seus pontos cegos

Assim como o personagem Zé Colmeia, você no fundo pensa que é “mais inteligente do que a média”? Bem, todos nós pensamos assim. É o que se chama de “superioridade ilusória”, e como vemos no famoso desenho americano, é algo particularmente inflado entre as pessoas menos capazes.

Você pode até argumentar que é inteligente porque sempre tirou notas boas e tem uma boa cultura geral. Mas isso pode ser apenas um sinal de “predisposição à confirmação” – a tendência a só colher evidências que sustentem o seu ponto de vista.

Ainda não está convencido? Então os psicólogos podem dizer que você está sofrendo de “inclinação ao ponto cego” – uma tendência a negar falhas em seus próprios pensamentos.

O fato é que todos nós temos essas propensões, que turvam nossas ideias – da decisão de comprar uma casa à opinião sobre os conflitos no Oriente Médio.

Felizmente, os psicólogos estão descobrindo que as pessoas podem ser treinadas para perceber essas tendências e se desvencilhar delas.

2. Prepare-se para calçar as ‘sandálias da humildade’

“Um homem nunca deveria ter vergonha de admitir que errou, o que, em outras palavras, quer dizer que ele é mais sábio hoje do que era ontem”, escreveu o poeta do século 18 Alexander Pope.

Para os psicólogos de hoje, esse tipo de ideia é considerada como um traço de personalidade essencial conhecido como “ter a mente aberta”.

Entre outras coisas, esse dom determina a facilidade de lidar com incertezas, e a rapidez e a disposição com que alguém pode mudar de ideia diante de novas evidências.

É uma qualidade que muita gente acha difícil de cultivar, mas que apresenta recompensas a longo prazo.

A humildade intelectual acontece de várias formas, mas em seu centro está a habilidade de questionar os limites de seu conhecimento.

É fazer-se perguntas como: Em que suposições você está baseando uma decisão? Que outras informações é preciso buscar para conseguir um ponto de vista mais equilibrado? Você examinou outros exemplos para fazer comparações?

3. Discuta com você mesmo

Se a autodepreciação é sua camisa de força, há uma estratégia simples para diminuir as tendências negativas: tente olhar uma questão pelo extremo oposto e discuta com as suas convicções.

Esse diálogo interno pode ferir algumas das propensões mais resistentes, como uma autoconfiança superestimada e a tendência de se convencer pela primeira evidência que surge à sua frente.

Uma tática semelhante envolve se colocar no lugar de outra pessoa e imaginar o ponto de vista dela. Isso pode ser particularmente útil ao lidar com problemas pessoais.

4. Pense ‘e se…’

Uma das principais críticas de Sternberg com o sistema educacional é que nós não aprendemos a usar nossa inteligência para sermos práticos ou criativos.

Muitos professores já não nos preparam para ter aquele tipo de flexibilidade da qual precisamos na vida real.

Uma maneira de desenvolver essa capacidade é reimaginar acontecimentos importantes. Estudantes de História poderiam responder a perguntas como “Como o mundo estaria hoje se a Alemanha tivesse ganho a Segunda Guerra Mundial?”. Mas também é positivo pensar em hipóteses mais pessoais e discorrer sobre questões mais cotidianas.

O objetivo é fazer você considerar diferentes eventualidades e formar hipóteses. Crianças pequenas tendem a fazer isso em meio a suas brincadeiras, o que as ajuda a aprender das leis da física a habilidades de socialização.

Mas quando adultos não praticamos essa abstração deliberadamente. Vale a pena. Você pode descobrir que sua mente pode se ampliar quando se depara com o inesperado.

5. Faça um ‘checklist’

A distração pode representar a queda de muitas pessoas inteligentes. Quanto estamos lutando com situações complexas, facilmente nos esquecemos do básico. Por isso, Atul Gawande, especialista em saúde pública da Universidade Harvard, reitera a importância de se fazer checklists (listas com itens a serem checados) para servirem de lembretes.

Uma medida simples, como afixar uma lista de cinco passos para uma boa higiene, ajudou a reduzir a taxa de longas infecções no Johns Hopkins Hospital de 11% a 0%.

Uma lista semelhante para pilotos, lembrando-os dos procedimentos básicos para decolagem e pouso, teria diminuído pela metade o número de mortes entre pilotos americanos durante a Segunda Guerra Mundial.

Como destaca Gawande, eram profissionais com habilidades incríveis e tecnologia de ponta à disposição – mas foi um simples pedaço de papel que acabou salvando muitas vidas.

Qualquer que seja a sua profissão, é importante pensar em casos como esses antes de achar que você já sabe tudo.

Pratique esses passos e você pode descobrir talentos que não eram reconhecidos.

“A inteligência não é uma nota em um teste de QI, mas sim a capacidade de descobrir o que você quer da vida e encontrar maneiras de chegar lá”, afirma Sternberg. Mesmo que isso envolva a dor de perceber seus próprios erros bobos.

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