A vida, um sono ligeiro

vidabreve

Ricardo Gondim

Passamos rapidamente. Nem nos damos conta de que estamos perigosamente próximos da última curva. Nossos passos largos diminuem e caminhamos vagarosos. Nossa voz adquire o timbre dos idosos. A mão, que outrora assinava o nome com firmeza, não custa a tremer. Não tarda, precisamos de que alguém nos ajude a levantar e deitar. Somos como a flor do campo que floresce pela manhã e murcha no crepúsculo. Como um colarinho lavado algumas vezes, nosso vigor se esgarça sem remendo. Nossa vida é como um sono ligeiro. O que sobra?

Depois de tudo, resta um sentimento impronunciável, muitas vezes confundido com tristeza. Fica uma sensação de perda, um oco. Falta o que nunca nos ocupou totalmente. Sobra um medo de saber que nada nunca será suficiente para preencher o vazio avassalador que nos angustiou por longas décadas. Nossos desejos nos sobrecarregaram na direção do que nem sabíamos o que era.

Depois de tudo, renasce uma saudade estranha. Temos nostalgia, não do que aconteceu, mas das pessoas que nos tocaram. Fica um desespero de não lembrar o nome de quem um dia nos enriqueceu. É duro saber que sequer reconheceríamos gente querida, se cruzasse nosso caminho. Sobra uma melancolia esquisita, desfigurada. Temos vontade de andar para trás, em busca dos anos que sepultamos quando pensávamos ter todo o tempo do mundo. Sofremos com apetite pelo passado.

Depois de tudo, perdura um choro quieto. Nosso lamento não acontece totalmente. Fica apenas a carência do colo materno. Convivemos com a necessidade de nos curvar em posição fetal – que logo abandonamos por acharmos infantil demais. Fazemos as pazes com a ideia de um espírito quebrantado, com alma à flor da pele e com apertos no coração.

Depois de tudo, teimam nó na garganta e borboletear no estômago, sem que saibamos explicar de onde veem. Nada serve para aplacar nossa sede de infinitude senão crepúsculos deslumbrantes, vendavais estonteantes, cenários extravagantes e experiências alucinantes.

Depois de tudo, no fim da picada, desfeitas as vitrines, desmontados os cenários, rasgadas as fantasias, baixadas as cortinas, resta um brado parecido com o do Nazareno: “Eloi, Eloi, lamá sabactani – “meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste”.

Fica a esperança de ainda nos sobrar um derradeiro fôlego para gritar: “Em tuas mãos entrego o meu espírito”.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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