Eu tenho depressão

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Mariliz Pereira Jorge, na Folha de S.Paulo

Cheguei da academia, tomei banho e sentei no sofá. Senti um cansaço estranho. Pensei que pudesse ter exagerado nos exercícios, em minha décima tentativa de deixar a vida sedentária de lado. Falei para o meu marido que iria deitar um pouco. Na cama, comecei a sentir o coração acelerar ainda mais, um suor frio, que eu achei que era só a noite quente misturada com o metabolismo ainda acelerado.

Tentei controlar a respiração, daquele jeito que fazemos, depois de um esforço muito grande, para que os batimentos se acalmem. Então, tudo aconteceu muito rápido. Comecei a tremer descontroladamente, as mãos ficaram dormentes, perdi o fôlego, a barriga e o peito doíam. Achei que iria morrer.

Senti um desespero enorme. Fui para o pronto-socorro. Quinze por nove, disse o enfermeiro sobre a minha pressão. Morte na certa. Minha pressão sempre foi baixa, nunca passou dos 11. Se estava nos 15 tinha alguma coisa errada. Era morte na certa. E eu pedi para não me deixarem morrer, ao mesmo tempo que chorava e tentava respirar.

Não deu nada no eletro. Quando a médica entrou na sala, com aquela boa vontade típica de quem está num plantão, mas preferia estar em casa comendo miojo, tudo parecia mais calmo. Não sabia se me sentia melhor porque estava melhor ou porque estava dentro de um hospital. Me deram uma dose de ansiolítico. A médica queria saber se eu tinha me aborrecido, discutido com alguém. Nada. Meu dia tinha sido tranquilo, sem altos nem baixos.

Ela refez meus exames. O coração estava ótimo. A pressão de volta ao normal. E a sensação de morte tinha ido embora. A médica quis saber se eu tinha algum psiquiatra. Não, não tenho. Melhor procurar um porque você teve uma crise de síndrome do pânico. Assim, como quem diz que meu problema era gases. Acho que não desmaiei porque estava dopada.

Passei dois dias em casa chorando. Fui diagnosticada com depressão leve e síndrome do pânico.

Os meus familiares mais próximos sabem. Contei também para os amigos. Preferi que eles soubessem de cara porque eu mesma não sabia com o que estava lidando. Ainda não sei a profundidade de tudo, ainda que tudo esteja sob controle.

Eu poderia guardar essa história e dar o caso como encerrado, mas na semana passada vi um post no Facebook de uma pessoa aparentemente esclarecida que dizia o seguinte: o único antidepressivo que realmente funciona é mexer de verdade na sua vida, e/ou no modo como você lida com ela. O resto é doping.

Doeu. Muito. Tive vontade de chorar. De raiva. Doeu por mim e pelas pessoas que tem que lidar com a doença e com o preconceito que existe em torno dela. Frescura, dizem.

Lembrei de como cheguei no hospital achando que iria morrer. Lembrei de outras duas crises que tive. Uma dentro de um bar, de onde fui tirada às pressas, para virar umas gotas de ansiolítico no meio da rua, antes de entrar num táxi, enquanto tremia, suava e chorava, compulsivamente. Outra no saguão de um aeroporto, onde tive que me trancar dentro da cabine do banheiro e deitar no chão esperando que o remédio fizesse efeito, sentindo o chão frio e sujo confortarem meu rosto suado.

Ninguém pede para ter depressão. Ninguém escolhe que a tristeza paralise sua vida. Eu sempre entendi dessa forma, mas como a maioria das pessoas achava que é o tipo de coisa que só acontece com os outros. Acreditava que gente feliz e de bem com a vida são imunes.

Descobri que não são. Eu sou feliz, minha vida é boa. Como a maioria, tenho dias melhores, outros piores. Tenho frustrações profissionais, discuto com o meu marido, me decepciono com pessoas, tenho vontade de esganar o pedreiro. Como todo mundo.

Mas sou do tipo que acha que nunca vai chover, que sempre vai dar tempo, que tudo vai dar certo, que vale a pena fazer as pazes. Para mim o copo sempre está meio cheio. Foi difícil entender e aceitar que tenho uma doença que precisa ser cuidada o resto da vida.

Uma das coisas que mais me assustaram nesse post nem foi o post em si. Um imbecil falando bobagem é só um imbecil falando bobagem. Fiquei abismada com a quantidades de likes que ele recebeu. Uma quantidade enorme de gente que deve achar que depressão é frescura. Que basta vontade para que ela seja resolvida.

Apenas vontade não faz efeito na maioria dos casos.

Entendo que haja um exagero no uso de ansiolíticos e antidepressivos. Qualquer tristezazinha tem sido tratada com tarjas vermelha e preta. Mas quem sou eu para medir o tamanho da tristeza de uma pessoa ou a falta de habilidade dela para lidar com suas tristezas?

Tomei dois tipos de remédios durante seis meses. Um para acordar, um para dormir. Além do famoso ansiolítico para emergências, que eu só tomei nas pouquíssimas emergências. Depois desse período fiz o desmame, fui parando de tomar aos poucos, tudo com supervisão médica. Tive alta do psiquiatra, mas vez ou outra nos falamos e ele está sempre disponível, caso eu precise. O ansiolítico não sai da bolsa. Talvez não saia nunca mais. Não uso, só preciso saber que está ali ao meu alcance.

Sim, eu fiz a minha parte. Reagi. Tem gente que não consegue. Mesmo com a doença, sou mais positiva, otimista e alegre do que muita gente com quem convivo. Mas é a minha essência. Sou uma pessoa alegre. Tive o apoio e o amor do meu marido, da minha família e de amigos queridos. Tem gente que não tem nada disso. Tem gente que é naturalmente menos alegre e tem mais dificuldade para lidar com essa situação.

Me sinto como um ex-alcoólatra. Estou ótima, mas não posso me descuidar. Presto atenção em mim mesma. Sei que tristezas, decepções e frustrações fazem parte da vida e que depende de mim a forma como lido e encaro tudo. Mas de um ponto em diante os remédios foram essenciais. Me ajudaram a levantar durantealegre,  várias semanas em que eu estava sob tratamento. Me ajudaram a encontrar equilíbrio para que eu conseguisse buscar as minhas próprias forças para sair do buraco. Espero não precisar mais deles, mas fico aliviada de saber que eles existem.

Dizer que “o único antidepressivo que realmente funciona é mexer na sua vida, e/ou no modo como você lida com ela, e que o resto é doping” é de uma leviandade, maldade e ignorância enormes.

Cada um sabe onde seu calo aperta. Cada um sabe como lida com seus tombos. É uma injustiça julgar as pessoas dessa forma. É claro que é melhor ser alegre do que ser triste. Mas em muitos casos não é só uma questão de escolha ou de vontade.

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