‘Ser amoroso faz bem para o sistema imunológico’, diz Patch Adams

Em visita ao Rio, médico americano famoso por defender a humanização dos tratamentos pediu mais carinho nos hospitais e criatividade para se alcançar a universalização da saúde

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Paula Ferreira, em O Globo

Uma consulta com quatro horas de duração, na qual o paciente é indagado sobre seus hobbies, os detalhes de sua relação amorosa e até a maneira como beija seu companheiro. O médico quer saber como anda sua vida e, se para além dos problemas físicos, você está bem consigo mesmo. Durante o atendimento, as únicas regras são o amor e o cuidado com o outro. Essa “consulta dos sonhos” diz muito sobre a maneira como Patch Adams entende a medicina. Interpretado no cinema pelo ator Robin Williams no filme “Patch Adams: o amor é contagioso,” o médico americano é famoso por adotar uma metodologia de trabalho voltada para a humanização da medicina. Em visita ao Rio para uma palestra intitulada “A alegria do Cuidar”, o oncologista pediatra contou casos, criticou o sistema de saúde americano e a formação nas universidades mundo afora. Ele também pediu que os médicos usem a criatividade para universalizar o acesso à saúde.

— Você não pode se tornar um médico em poucos minutos. Decidi que passaria quatro horas com os novos pacientes. Você escolhe quem vai ser, e eu decidi ser criativo, carinhoso. Na História, nunca houve nenhum estudo mostrando que ser sério, violento e rude é bom. Milhares de artigos falam do valor de ser amoroso. É bom para o sistema imunológico — contou Patch Adams a uma plateia composta por diversas faixas etárias, lembrando que a imensa maioria de seus professores universitários eram arrogantes e tratavam mal os pacientes.

Com o cabelo metade branco e metade azul caindo pelas costas e trajando roupas extravagantes como as usadas pelos palhaços de circo, o médico pediu que os profissionais sejam criativos para promover o acesso à saúde de maneira igualitária.

— Quando vejo um médico que, em vez de querer ganhar muito dinheiro, quer trabalhar em uma favela, vejo que ele tem uma inspiração heroica. Se você se sente herói é muito difícil se esgotar. Se tivermos cuidado suficiente, não teremos guerra na Humanidade. Como podemos dar um cuidado para alguém de uma favela da mesma maneira que é dado para alguém que mora na orla da praia? É necessário muita criatividade — defendeu. Nas horas em que se dedicou a falar ao público, ele fez rir e chorar, mas também sorriu e se emocionou. Patch Adams criticou o fato de os hospitais serem lugares tristes.

— Não há um único hospital feliz no mundo inteiro. E por quê? — perguntou, aproveitando para convidar os presentes para para uma “revolução” enquanto comentava a situação da saúde em seu próprio país. — O sistema de saúde dos Estados Unidos é uma vergonha. Os planos dão ordem aos médicos. Como podemos, assim, ter um hospital onde o amor faça parte do contexto?

O espaço reservado para o amor no ambiente hospitalar também é uma preocupação no Instituto Nacional do Câncer (Inca), referência no tratamento da doença no Brasil. Com uma área dedicada aos programas de voluntariado, o instituto aposta na atenção e no carinho como agentes potencializadores da recuperação dos pacientes, como explica Angélica Nasser, supervisora do Inca-voluntário, presente na palestra de Patch Adams.

— A humanização é fundamental para levar a casa ao hospital. A gente tenta comemorar datas como o Dia das Crianças. É uma forma de integrar a equipe médica, os voluntários e os pacientes. Para estes últimos, isso é fundamental, já que muitos chegam com medo do tratamento. Esse contato é como um renascimento.

A explicação para que os pacientes se sintam mais felizes, mesmo em situações de sofrimento, segundo Patch Adams, é simples.

— O mundo inteiro é seu quando se tem amor.

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