A era da grosseria on-line

Cresce a intolerância nas redes sociais, onde proliferam os “idiotas da aldeia” do escritor Umberto Eco. Como torná-las mais democráticas?

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Bruno Ferrari e Gabriela Varella, na Época

Parece um duelo do Velho Oeste. No lugar da arma, é o dedo no mouse ou na tela do celular. Navegamos pelas redes sociais como se estivéssemos num filme de bangue-bangue. Aguardamos o adversário chegar armado para nos surpreender. Ao sinal de ameaça, “pá!”, ou melhor, “clique!”. Assim, compartilhamos textos esdrúxulos sem ler porque o título é provocativo. Distribuímos fotomontagens malfeitas achando que são imagens reais. Assinamos petições on-line sem saber do que se trata. “É golpe militar? Achei que fosse impeachment.” Quem veste camisa da Seleção Brasileira e vai para a rua é “coxinha”. Quem bate panela em discurso de político é “reaça”. E quem não bate? “Petralha”. Queremos protestar contra os religiosos intolerantes. O que fazemos? Enchemos uma rede social voltada ao público evangélico de filmes pornôs. Destruímos relacionamentos que levaram anos para ser construídos só por causa de um “curtir” ou de um “compartilhar”. E talvez não estejamos nos dando conta disso.

Lá se vai uma década em que as redes sociais passaram a fazer parte de nossas vidas. Em muitos aspectos, elas trouxeram coisas positivas. Sites como Facebook e Twitter aproximaram pessoas que jamais se encontrariam nos tempos off-line. Também serviram de base para novos negócios. Tornaram nosso trabalho mais produtivo (o.k., nem todos os trabalhos). Mas o efeito colateral é evidente a qualquer um que frequente um desses botecos virtuais: estamos diante da “era da grosseria”. Em algum momento dos últimos anos, grupos na internet voltaram a se comportar como uma horda de visigodos com ímpeto para exterminar adversários em potencial. É a era da polarização, do pensamento binário: ou pensas como eu ou te tornas um inimigo. Se é a favor do PSDB, você automaticamente é contra as ciclovias, a favor da redução da maioridade penal e quer o impeachment da presidente. Se simpatiza com o PT, defende a corrupção e o aparelhamento do Estado. Nesse mundo em preto e branco, não há espaço para os tons de cinza.

Esses chatos não são a maioria dos que usam as redes sociais, mas acabam sendo a parcela que mais chama a atenção. São os “idiotas da aldeia”, como descreveu o escritor e filósofo italiano Umberto Eco ao receber o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, no último mês de junho. “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”, disse. “Antes, eles falavam apenas em um bar, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade. Agora, têm o mesmo direito à palavra de um prêmio Nobel.”

Muitos criticaram a opinião de Eco. Lembraram que talvez a grande contribuição da internet foi ter dado oportunidade a pessoas comuns de ter o mesmo espaço que um prêmio Nobel. Eco justificou-se, depois das críticas, dizendo que se referia a um pequeno e barulhento grupo de chatos que se sobrepunham à maioria. É importante ressaltar que apenas publicar opiniões não faz das redes um espaço democrático. Democracia também pressupõe o debate de ideias, que não costuma ocorrer no Facebook.

Além disso, a impressão de Eco faz sentido na medida em que as redes sociais não são, há muito tempo, uma plataforma em que as informações transitam de forma isonômica. Algumas coisas chamam mais a atenção que outras. Os sites tendem a priorizar essas informações para poder ter mais audiência e, assim, gerar mais receita com publicidade. Pessoas com comportamento mais agressivo, independentemente de seu viés político e religioso, repercutem mais. Pode existir a impressão de que elas são a maioria. “As redes sociais privilegiam aquilo que é considerado socialmente relevante, que vai gerar comentários e interação”, diz Raquel Recuero, professora da Universidade Católica de Pelotas, Rio Grande do Sul. “Temas polêmicos tendem a gerar debate e brigas dentro da mesma rede, e isso pode produzir comentários agressivos”, diz.

O grande motor dessa forma mais recente de como a informação trafega no mundo é o Facebook. O site tem quase 1,5 bilhão de usuários cadastrados. Um bilhão o acessa diariamente. No Brasil, oito em cada dez internautas têm uma conta no “Feice”. São cerca de 90 milhões de brasileiros que acessam as redes especialmente pelo telefone celular, segundo dados da consultoria eMarketer. A forma de organizar todo o conteúdo publicado por essa massa de usuários foi a criação de um algoritmo, uma fórmula para distribuir as postagens entre os usuários. Ele aprende com a rotina on-line do usuário que tipo de conteúdo ele mais acessa. Esse algoritmo recebeu o nome de News Feed. A justificativa do Facebook é que seria impossível para uma pessoa acompanhar tudo o que seus amigos publicam. Diariamente, nossos contatos postam em média 1.500 conteúdos. Mas o Facebook os filtra para nós. Só recebemos cerca de 300 deles. O resto nunca veremos.

O aprendizado do algoritmo é baseado em fatores óbvios, como o grau de proximidade que você tem com a pessoa que publicou o conteúdo e o tipo de conteúdo que você mais gosta. Se você clica mais em fotos que em vídeos, o Facebook vai mostrar mais amigos que publicaram fotos. Há também fatores menos óbvios, como a infraestrutura de acesso. Se a rede de seu celular está ruim, seu perfil passa a priorizar textos e fotos no lugar de vídeos mais pesados, que consomem mais conexão. Se alguém comenta “Parabéns” numa publicação, é provável que ela se trate de alguma celebração. Como isso gera muitas “curtidas”, o Facebook tende a promover o post. As páginas que você curte também são levadas em consideração pelo algoritmo.  Posts de perfis que pagam ao Facebook também têm mais chance de chegar a você. E aqui vem o ponto central para a “era da grosseria”: se a comunidade tem uma determinada visão política ou ideológica, é provável que você tenha contato com mais publicações relacionadas ao tema.

O problema, segundo especialistas, é que essa obsessão por oferecer ao usuário apenas o que ele quer clicar tende a criar ilhas de opiniões. As pessoas têm a falsa sensação de que o mundo inteiro pensa como elas, já que o algoritmo não as confronta com outras ideias. Como efeito colateral subsequente, passam a publicar conteúdos que seriam aceitos num determinado grupo, e não pelo público em geral. É o que a pesquisadora americana Danah Boyd, fundadora do Data & Society Research Institute, chama de audiências invisíveis. No mundo off-line, você costuma ajustar o tom de seu discurso de acordo com a audiência. No mundo on-line, você acha que sabe com que audiência está falando. Mas alguém que não faça parte desse grupo pode ter acesso àquele conteúdo, interpretá-lo de uma forma diferente e expor a uma situação de conflito. É um caso comum em discussões sobre política. O comentário de uma pessoa com uma visão mais à esquerda pode receber diversas curtidas em seu hábitat no algoritmo. Mas, se um amigo mais à direita compartilha a mesma opinião em sua página, chovem críticas e ironias. De um lado, os histéricos de esquerda, que fantasiam, de forma delirante, um novo golpe militar no Brasil. De outro, os histéricos de direita, com seu indefectível bordão: “Vá para Cuba!”.

Não é só o Facebook que usa um algoritmo desse tipo. Google, Twitter, Amazon, Uber e outras empresas de tecnologia desenvolveram sistemas com o objetivo de facilitar a vida do usuário numa ponta e gerar mais receita na outra. Mas ela se torna um problema quando as pessoas não sabem que estão tendo acesso a um conteúdo enviesado. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos pela pesquisadora Karrie Karahalios, da Universidade de Illinois, mostrou que 62% dos americanos que usavam o Facebook não sabiam da existência de filtros pelo algoritmo. “Recebi uma série de respostas viscerais quando expliquei para as pessoas como o algoritmo do Facebook funcionava”, disse Karrie, numa entrevista para a revista Time. “Algumas passaram cinco minutos em choque, pensando sobre aquilo.”

Há pouco mais de um ano, o Facebook divulgou um estudo realizado em 2012 com 700 mil usuários que tinha como objetivo entender como funcionavam as reações emocionais das pessoas na internet. Para isso, a companhia manipulou as páginas de metade deles com notícias e comentários positivos dos contatos. Os outros 350 mil receberam notícias e comentários mais tristes. A ideia de entender como as emoções contagiavam os usuários virou um escândalo. O cientista americano Jaron Lanier, em artigo publicado no jornal The New York Times, se lembrou dos riscos envolvidos. “A manipulação das emoções não é algo pequeno. Cerca de 60% dos suicídios são precedidos de algum tipo de distúrbio de humor”, escreveu. Com a repercussão negativa, Sheryl Sandberg, braço direito de Mark Zuckerberg, pediu desculpas. Desde então, o Facebook criou políticas mais transparentes para seu algoritmo. Além da ferramenta “Deixar de seguir”, que já existia e dava mais controle ao que o usuário acessa em sua página, a empresa implementou o “Veja primeiro”, em que o usuário pode selecionar um grupo de amigos para acompanhar com prioridade.

Não há um consenso sobre a relação de causa-efeito entre a tecnologia usada pelas redes sociais e uma eventual mudança de comportamento de seus usuários. Nas últimas semanas, ÉPOCA conversou com uma dezena de especialistas em comportamento, sociólogos e estudiosos da internet, e a maioria acredita que os algoritmos são apenas uma ferramenta na mão de uma sociedade que há tempos carece de ponderação na discussão de ideias. Leonardo Lazarte, professor de internet e sociedade na Universidade de Brasília (UnB), lembra que o ambiente em algumas dessas comunidades nas redes sociais é muito semelhante ao visto em gangues. A pessoa entra no grupo e precisa passar por provas para ganhar a confiança dos outros. “A diferença é que isso é amplificado no mundo virtual”, diz.

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