Rubem Alves, o pastor subversivo

Biografia revela como se deu o apoio da Igreja Presbiteriana à ditadura.

Rubem: livro detalha como nasceu seu interesse pela religião, que, depois, viria a renegar

Rubem: livro detalha como nasceu seu interesse pela religião, que, depois, viria a renegar

Marília César

Uma espessa fumaça cinzenta subiu pelo céu da cidade de Lavras, no sul de Minas, numa noite tensa e fria do mês de abril de 1964. Era Rubem Alves queimando livros.

As chamas da fogueira no quintal da casa do então pastor presbiteriano destruíram mais de 50 exemplares, que, por ser graúdos, queimaram até o amanhecer. O pastor precisava dar fim àquelas obras “subversivas” que poderiam comprometê-lo junto aos patrulheiros da ditadura militar.

Rubem Alves, no ano do golpe, 1964, entrou para uma lista de pastores “perigosos” da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), ao lado de Cyro Comwack, João Dias de Araújo, Lemuel Nascimento, Nilo Rédua e Ovelino Ramos. Os nomes foram indicados por outras lideranças evangélicas ao Supremo Concílio da IPB, a sua mais alta instância no período.

Além de apoiar o novo regime, por temer uma invasão comunista no país, a cúpula da Igreja Presbiteriana, na época muito influenciada pela igreja americana, fez que vários outros pastores, presbíteros, professores de seminários e estudantes de linha progressista fossem perseguidos, acusados de propagar os ideais de esquerda. A guerra declarada contra esse suposto inimigo foi estampada nas páginas do principal meio de comunicação entre as comunidades então, o jornal “Brasil Presbiteriano”, que defendia uma limpeza dentro da igreja.

Essa participação de uma das principais denominações protestantes e o papel de vários de seus líderes nos anos da ditadura militar no Brasil é um dos aspectos mais interessantes da recém-lançada biografia de Rubem Alves, “É uma Pena não Viver”, escrita pelo jornalista Gonçalo Júnior, autor de cerca de 30 livros e colaborador do Valor.

Durante um período de oito meses que se seguiram à morte do escritor – reconhecido educador, teólogo, humanista, poeta e acima de tudo, como queria ser lembrado, um dedicado jardineiro -, em 19 de julho de 2014, Gonçalo mergulhou em livros, artigos, entrevistas e reportagens sobre o escritor. Vasculhou arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e compôs, assim, uma sólida pesquisa. Esta incluiu ainda entrevistas com familiares, amigos, e visitas ao sul de Minas, região onde Rubem nasceu, na cidadezinha então chamada Dores da Boa Esperança, onde, segundo o biografado, “todos os caminhos levavam a nada”. O município hoje se chama apenas Boa Esperança.

Uma narrativa delicada conta da infância pobre do caçula de quatro filhos do casal Carmem e Herodiano (Diano) do Espírito Santo, que até pouco antes de Rubem nascer era um dos homens mais ricos e respeitados do sul de Minas. A tragédia bateu à porta da família quando a crise de 1929 atingiu todos os que tinham seu patrimônio vinculado ao café, como era o caso de Diano.

Sem um tostão e com a autoestima na lama por ser responsabilizado pela perda da fortuna construída a duras penas por sua mãe, Sophia, o pai de Rubem se mudaria para uma casa caindo aos pedaços a poucos quilômetros de distância, cedida por um cunhado, a Fazenda Marimbondo. Somente muitos anos mais tarde, conseguiria se reerguer.

O livro mostra em detalhes como nasceu o interesse de Rubem Alves pela religião – que, num momento posterior de sua vida, ele viria a renegar. (“Onde estava minha inteligência? Tenho vergonha de haver acreditado no que acreditei. Mais que vergonha, o que sinto é raiva de mim mesmo”, escreveu.)

Foi naquela época de dureza, em que os ricos haviam se tornado pobres e os amigos desapareceram, que se achegou à família um humilde pastor presbiteriano, a única boa alma que os visitava regularmente. Esse pastor, chamado Firmino, mudaria a vida de Rubem para sempre.

A solidariedade do evangelista foi essencial para conseguir uma bolsa para o menino estudar na melhor escola particular de Lavras na época, o Instituto Gammon, fundado por missionários americanos. Esse convívio na escola levou-o a frequentar a Igreja Presbiteriana e encontrar ali um ambiente amigável e acolhedor, motivando o menino a cursar teologia e seguir a carreira pastoral na juventude.

O desencanto viria depois da perseguição nos anos de chumbo, quando se desligou da igreja por entender que os crentes só pensavam em salvar a alma dos perdidos, enquanto ele via mais sentido num evangelho que transformasse a vida das pessoas na Terra.

Um fato pouco conhecido da vida do autor foi seu pioneirismo na concepção de uma teoria que poucos anos depois seria conhecida como a Teologia da Libertação – um ideal de mundo que integrava a mensagem cristã de salvação à luta pela redução da injustiça social. “Eu achava que religião não era para garantir o céu, depois da morte, mas para tornar esse mundo melhor, enquanto vivos. Claro que minhas ideias foram recebidas com desconfiança pela maioria dos meus colegas.”

A biografia detalha outro fato curioso: o amor de outono vivido por Rubem com a psicóloga Thaís Helena Andrade Machado, de Campinas, por quem ele deixaria Lídia, companheira por 37 anos. Foi um conflito enorme para o grande educador, autor de 120 livros, teólogo apaixonado que se tornou ateu, que construía altares à beira de abismos, amava a simplicidade das crianças, o cheiro da manga e os ipês amarelos.

fonte: Valor Econômico

 

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Rubem Alves, o pastor subversivo

3 Comentários

  1. Gláucia Monteiro disse:

    Livro da vida de Rubem Braga

  2. Dito assim, fica como se fosse correto concluir que, enquanto não tinha onde se apegar, o desinteligente Ruben Alves, correu pra traz da religião, porém, tão logo tenha se tornado “inteligente” evoluiu para o ateísmo. Ora, façam-me o favor.

  3. Nicea Lemos disse:

    Ele rompeu com a instituição religiosa. Não creio que a conclusão de que virou ateu seja veridica. Pelo contrário um ser extremamente sensivel e espiritual!

Deixe o seu comentário