Nasce uma fé compassiva

2006062000_compassion-tm

Ricardo Gondim

Me entrego a arte de desaprender. Semelhante a Barthes, busco me despir dos saberes que se agarraram ao meu corpo, da mesma forma que a craca se agarra ao casco dos navios. Entre meus esquecimentos, desejo purificar-me da ideia, que prevalece entre religiosos, de uma divindade orquestradora dos mínimos eventos e de todos os nano instantes do universo. Pergunto, ao lado de Ivan Karamazov, como sustentar uma lógica que necessita do sofrimento das crianças? Não vejo nenhuma urgência em manter verdades que acham válido algum crime, necessário algum genocídio ou essencial algum estupro.

Embora muito sofrimento tenha raízes históricas, minha intuição me avisa que certas pessoas padecem sem causa. Ninguém cumpre a sina de sofrer. Já não suporto ouvir que os pobres do mundo, por terem nascido pecadores, merecem toda e qualquer dor. Deixei de acatar a Causa inicial, o Motor imóvel ou o grande Relojoeiro como faces de uma divindade interessante. Não me dou bem com a teologia que engrena a existência a partir de um pecador original histórico, um personagem concreto e real do passado.

Recuso a teologia que trata como castigo divino o que merece explicação sociológica. As teodiceias da ortodoxia clássica não fazem mais sentido para mim. Teodiceia é uma tentativa da filosofia de resolver o paradoxo: “se Deus é bom e onipotente enquanto convive com a universalidade do mal, ou Deus não é onipotente, ou não é bom”.  A explicação calvinista de que Deus determinou por meio de sua ”vontade permissiva e do seu sábio conselho”, em tempos imemoriais, que mais de um bilhão de pessoas durmam com fome no começo do século XXI pode soar coerente para quem prefere a lógica à compaixão; para mim, não faz o menor sentido.

A lógica inversa também não tem força em minhas confabulações. Como justificar o discurso neopentecostal que promete vitória, prosperidade e vida blindada em um país em que as pessoas esperam no corredor do hospital, não para serem atendidas, mas para morrerem? Como explicar um culto na rádio e na televisão que faz de conta não convivermos com crianças trancadas em casa por falta de creche? Só os obedientes, os santos, passam ilesos pela vida?

Uma coisa é fazer teologia em torres de marfim. Explicar o sofrimento contingencial com água na cintura tem outros contornos. Daí eu ver a necessidade de a fé cristã voltar a ser “o grito do oprimido”. Deus não controla a fome, mas é alimentado por aqueles que lhe estendem a mão. Deus não encurrala o imigrante em barcos imundos, ele acolhe e oferece abrigo – Mateus 25.

O Deus empático sofre. O Deus misericordioso chora. O Deus compassivo se revela nas mãos de quem socorre a tragédia. O Deus da graça interpela profetas para que protestem contra a injustiça. O teísmo, que defende uma divindade olímpica, sentada em um trono de espaldar alto e que usa as pessoas para a sua própria glória, é falso; e sua divindade não passa de um ídolo.

A dor do mundo não é megafone nenhum na boca de Deus. Ele não precisa provocar um mar de lágrimas para ser ouvido. Se o custo da liberdade é nos expormos ao mal, Deus não se manteve fora do drama humano. Ele se fez carne. Deus tabernaculou entre homens e mulheres para que possamos caminhar com algumas seguranças mínimas: se viver é perigoso, Deus corre o mesmo perigo que nós; se viver é vulnerabilizar-se ao abandono, Deus não só experimentou o abandono da cruz, como o sofre todos os dias.

Minguou em mim a teologia do controle. Nasce uma fé solidária. Mirraram as lógicas que tentam dialogar com a filosofia grega. Nasce em mim a espiritualidade do mistério. Me despeço do arrazoamento apologético. Quero oferecer o meu abraço ao esquecido – sem precisar fazer proselitismo.

“Deus é amor”, diz a Escritura. Portanto, em minha curta história, seu amor se torna meu marco, minha meta, meu milagre, meu mistério, minha música e minha marcha.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Nasce uma fé compassiva

1 Comentário

  1. cleide disse:

    Gostei muito do que disse. E em alguns momentos penso assim também, mas logo lembro que também tenho minha parte nisso tudo. Tenho opções e posso convencer ou pelo menor expor a outros essas opções, posso abrir mão de um carro melhor, por apenas um que ande e ajudar alguém com o resto do dinheiro. Amo os cultos de algumas igrejas, não as comerciais, ainda que tenho que admitir que algumas prestam se não um serviço de fé, pelo menos um social. Aqui nos extremos das cidades, não tem praças, as que tem estão cheias de usuários, não tem lugar para nossas crianças andarem de bicicleta, se quiser tem que se deslocar até outro bairro ou cidade. Aqui demora muito para se obter uma consulta. Mas tem uma igreja, e lá oramos, tem uma igreja e lá, tem a salinha de atividades, tem uma igreja e lá o individuo se sente parte, sem bebida, sem drogas, sem cigarro, sem crime. Ele canta, ele aprende a ler, ele aprende a questionar, a liderar. Não é aquele modelo de tudo isso. Mas ainda é o único lugar onde ele pode ter uma vida. Obs. Lógico que tem suas exceções.

Deixe o seu comentário