‘Shopping’ de religiões, espaço no RS reúne templos e pirâmide de energia

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Publicado na Folha de S. Paulo

Durante uma meditação em busca de “paz e amor”, em 1972, Maria Correa dos Santos teve uma visão do apocalipse onde “campos floridos murcharam e animais gordos ficaram esqueléticos”. Um “feixe de fogo” e uma missão encerraram a visão: construir uma pirâmide.

A tarefa foi concluída no final do ano passado. A pirâmide tem mais de 20 metros de altura –equivalente a um prédio de sete andares– e fica no extremo sul de Porto Alegre (RS), em uma área de 28 hectares de mata nativa.

Aos 62 anos, mestre Tala –como Maria é chamada– é a responsável pelo Templo Universal da Paz Pai Francisco de Luanda, um espaço “universalista” que hoje conta com 27 templos de diferentes crenças e religiões. A visitação ao local é gratuita.

A pirâmide é feita de laterais de metal e, na base, tem pedras ametistas e cristais. “É um campo de energia. Assim como o rio nos abastece de água, a pirâmide nos abastece de energia”, explica Tala, que a compara ainda a um carregador de celular -uma “bateria humana”.

Tala viajou ao Egito e ao México para pesquisar diferentes pirâmides. “Entrei em Quéops [a grande pirâmide egípicia]. É estreito… Queria algo diferente”, diz.

Na pirâmide gaúcha Mãe Gedi, mesmo nome da mãe de Tala, há amplo espaço interno (“cabe um caminhão na base”, diz), claridade e algumas imagens místicas.

Segundo a mestre, as quatro faces iguais da construção representam os quatro elementos da natureza (terra, água, ar e fogo) e “multiplicam nossas energias”.

SINCRETISMO

Os diferentes templos –espalhados e distantes entre si– impressionam. Há, por exemplo, um castelo de pedra semelhante a uma construção medieval. O lugar homenageia são Jorge e atrai anualmente cerca de 4.000 cavaleiros devotos do santo.

Outro espaço foi construído em cima de um morro com vista para o rio Guaíba. Existem ainda capelas católicas, loja maçônica, senzala dos pretos velhos e templos aborígenes, xamânicos e de umbanda –esses na linha “branca”, como Tala ressalta.

“Não fazemos sacrifícios de animais. Respeitamos todas formas de vida, nossa filosofia é o amor”, disse.

Cada um dos 27 templos foi erguido em uma data diferente. O primeiro, uma “catedral de umbanda”, foi em 1981.

Segundo Tala, o sincretismo do local não tem fanatismo. O único episódio de intolerância religiosa aconteceu há alguns anos. “Atearam fogo em um galpão com nossos carros alegóricos”, disse.

Nenhum atendimento de cura espiritual é cobrado, diz Tala. Ela e outros místicos sobrevivem de jogar as cartas e búzios, por exemplo. A estrutura é mantida com a venda de ingressos para almoços comunitários, quermesses e doações –o “mocotó beneficente” custou R$ 55.

A história do templo começou em 1950, com o médico Luiz Correa da Silva, pai de Tala. Internado num hospital, o homem teve uma visão que lhe garantiu cura.

Silva também recebeu a missão de construir um terreiro para Francisco de Luanda, um “preto velho” da tradição umbandista. Assim, o obstetra largou a rotina para desenvolver a mediunidade.

Tala conta que começou a trabalhar no templo aos 12 anos, quando “incorporou um santo” pela primeira vez.

Apesar da busca pelo local para tratamento de doenças, Tala garante que a medicina nunca é desprezada. “Os caminhos de Deus não são perfeitos, mas às vezes ele dá um atalho. Vejo muito desses atalhos”, diz, sobre as curas.

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