Sentir ou ficar frio?

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Contardo Calligaris, na Folha de S.Paulo

Li e amei o novo livro de Marcelo Rubens Paiva, “Ainda Estou Aqui” (selo Alfaguara, R$ 39,90, 296 págs. ). É um livro de memórias. E é um livro sobre a memória –ou melhor, sobre a lembrança da infância.

O pai de Marcelo foi torturado e assassinado nos porões da ditadura militar. Sua prisão aconteceu num dia de sol no Rio de Janeiro, um dia que “dava praia”. Parece uma história inventada para contar o que é o fim da infância, na vida de todos nós.

Por razões que não é preciso narrar, o livro me produz uma empatia imediata, uma impressão de proximidade, como se eu soubesse, de dentro, o que foi viver aquela infância. Talvez seja efeito da maestria do escritor ou de coincidências no caminho de nossas vidas; seja como for, pareceu-me sentir o que o outro sentiu –estar, por um momento, no seu lugar.

Eunice, a mãe de Marcelo (também presa, junto com uma filha de 15 anos), no isolamento, escuta um soldado “dissidente” lhe dizer: “Um dia, vai acabar. O que estão fazendo aqui não está certo” (pág. 141).

De novo, pensei na empatia, na capacidade de se colocar no lugar do outro que sofre, como a última garantia moral: até onde será possível cometer o horror se a gente sentir a dor da vítima?

Foi da leitura de Marcelo e dessa pergunta que surgiu uma reflexão sobre uma mudança recente de nosso olhar sobre as emoções.

No meu doutorado (em parte sobre os algozes nazistas), tratei da importância da empatia no comportamento moral. Nos anos 1980, para um psicanalista, na França, a empatia era um erro clínico, uma identificação perigosa com o paciente, na pressa de entendê-lo. Ou seja, a empatia era mal vista.

Coincidência curiosa: eu falei bem da empatia logo quando Daniel Goleman inventava a “Inteligência Emocional” (Objetiva, R$ 53,90, 372 págs.), proclamando que sentir e saber o que os outros sentem é uma forma de inteligência superior, que torna nossas vidas mais plenas, mais felizes, mais saudáveis e mais bem-sucedidas.

O elogio da inteligência emocional e da empatia representa perfeitamente os anos 1990, a era Clinton nos Estados Unidos: um mundo sem inimigos (o Muro de Berlim não existia mais), todos capazes de se colocar no lugar do outro, todos generosos e, portanto, todos recompensados pelas riquezas de um mercado ativo e tranquilo –não é?

Naqueles anos, se emocionar pouco e não perceber as emoções dos outros (ou pior, não gostar delas) era considerado um transtorno –no mínimo, um defeito cognitivo (a década de 1990 foi a dos diagnósticos de Síndrome de Asperger); no máximo, uma porta de entrada para psicopatias socialmente perigosas. De qualquer forma, seríamos melhores se fôssemos capazes de “sentir”.

Essa época da pieguice talvez esteja acabando. O novo milênio começou num 11 de Setembro, com a descoberta de que ainda existem inimigos. A empatia não combina com o Estado Islâmico, suas decapitações e nosso ódio.

Curiosa mas esperadamente, os que sentem menos emoções estão sendo reabilitados.

É recente “O Filho Antirromântico” (ed. Companhia das Letras, R$ 39,90, 352 págs.), em que Priscilla Gilman relata os percalços do amor materno quando ele lida com um filho que lê aos dois anos, mas detesta ser abraçado –beijado nem se fala. É uma leitura indispensável para quem acredita na possibilidade de relações que frustram qualquer sentimentalismo.

Outro indício. “The Bridge”, seriado sueco-dinamarquês (não confundir com o remake norte-americano), está em sua segunda temporada (disponível no Now, da Net). A heroína, Saga, totalmente amável embora ela não saiba bem o que isso quer dizer, tem pouca familiaridade com suas emoções e com as dos outros; suas corajosas tentativas de aprender a sentir parecem demonstrar que as emoções não têm nada de natural, são hábitos culturais.

Instigado por um breve artigo da revista “The Atlantic” de maio passado, fui ler pesquisas recentes sobre o caráter duvidoso da empatia como critério moral.

Encontrei duas boas pesquisas que mostram que a inteligência emocional (capacidade de saber o que a gente e os outros sentem), em vez de ser uma dádiva, pode ser usada para manipular os outros –isso, por personalidades narcisistas e beirando a psicopatia.

Encontrei até uma pesquisa sobre os que usam a inteligência emocional para passar a perna nos colegas do escritório.

Em suma, no começo do século 21, um lenço molhado não é mais uma garantia moral. Isso é bom ou é ruim?

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