De Jesus podemos fazer piadas, né?

Charge: Jasiel Botelho

Charge: Jasiel Botelho

Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo

Tem muita gente com medo dos evangélicos. Acho que deve ser trauma de infância. Talvez essa gente tenha sofrido na escola bullying de algum evangélico mais forte ou de alguma evangélica mais bonita.

A tentativa de criar uma lei multando quem fizesse piada com ícones religiosos (leia-se Jesus) deixou os inteligentinhos com medinho.

O assunto é sério. Primeiro, deixo claro que sou contra essa lei. E mais: sou contra toda e qualquer forma de proibição sobre o humor. Mas aqui é que a coisa pega. Os inteligentinhos só defendem a liberdade de expressão no que interessa a eles. Por isso, quando reclamam contra essa lei absurda, soa “fake”. Vou explicar o porquê de soar “fake”.

Óbvio: a falha nos inteligentinhos não é intelectual, mas ética. Sócrates já nos ensinou que o problema do conhecimento é, antes de tudo, ético. Para ele, saber é descobrir a própria ignorância. Quanto mais sei, mas sei que nada sei. É a atitude ética que define o sujeito do conhecimento na maiêutica socrática. Mas voltemos a coisas mais mundanas.

Lembremos o que muitos inteligentinhos corretinhos falaram quando aconteceu a tragédia do jornal francês “Charlie Hebdo” em janeiro.

Na época, os bonitinhos disseram coisas como: os cartunistas não respeitaram “o outro”. Adoro excepcionalmente essa coisa do “outro”. Disseram também coisas como: só se pode fazer piadas com opressores. Ao longo dos anos fui percebendo que uma das maiores falhas de caráter hoje em dia, no que se refere ao debate público, é gente que sempre coloca essa coisa de “oprimidos x opressores” quando vai analisar o mundo. Gente séria não usa isso como argumento. Em 200 anos rirão desse argumento. Outros disseram que a função da mídia é proporcionar a vida harmoniosa entre as diferentes culturas.

Mas, se isso for a missão da mídia (eu não concordo, acho essa ideia uma forma de censura sem vergonha travestida de bom mocismo), então por que proibir piadas com Jesus estaria errado? Por que não se deve “provocar” os muçulmanos, mas pode-se “provocar” os cristãos?

Quer dizer que piadas com Jesus tá valendo, mas com o profeta não? Claro, o cristianismo é o “opressor” e blablablá. Eis a evidência máxima da incoerência de quem critica piadas com o islamismo, mas acha que tudo bem piadas com o cristianismo.

Minha hipótese é mais embaixo: bonitinhos são normalmente medrosos e, por isso, têm medo (com uma certa razão) do islamismo, porque essa moçada não vota no PSOL e não “cobra multa” para quem ofender o profeta.

Há mais um problema a ser analisado nesse assunto. Há anos, inclusive entre nós no Brasil, criou-se a moda de processar humoristas e proibir piadas com X e Y (não vou citar grupos porque a maré não está para peixe).

Os evangélicos apenas estão aprendendo a se mover no mundinho da censura travestida de “direitos” e “dignidades”. Perceberam que há uma tendência puritana no mundo e estão querendo pegar carona no papinho dos “direitos a dignidade”.

Quem é contra piadas com X e Y ou quem acha que devemos respeitar os ícones islâmicos não tem moral para se posicionar contra qualquer tentativa de proibir piadas com Jesus. Pelo contrário, deveria ser completamente a favor de qualquer lei que proíba piadas com Jesus.

Mas aqui surge a última questão: o fato é que os bonitinhos acham legal falar mal do cristianismo porque se movem por meio de argumentos do tipo “piadas só com os opressores”, e, com isso, garantem seu mercado particular de piadas, mas complica o mercado dos outros.

“Follow the money” sempre é uma boa ideia para descobrir motivações escondidas. Principalmente quando tratamos com gente que trabalha “contra a opressão”.

Preste atenção numa coisa: quando alguém disser que faz alguma coisa por alguma razão superior a dinheiro, saiba que ela faz o que faz, antes de tudo, por dinheiro. Mesmo que seja apenas para evitar que você ganhe dinheiro.

Acho uma lástima que a arte, a filosofia e as ciências humanas resolveram “construir um mundo melhor”. A hipocrisia, então, se oferece como virtude. Todos perdemos.

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