Marco Feliciano: “Cheirei cocaína. Tentei maconha, não consegui tragar”

Fotos: Joédson Alves

Fotos: Joédson Alves

Publicado na VIP

Em uma madrugada do ano passado, o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) havia acabado de comer no restaurante paulistano Sujinho, na região da Consolação, quando viu uma mesa com um grupo de homens perto da saída o encarando. Já se preparava para ser xingado quando vieram as palmas: “Valeu, pastor, estamos com o senhor!”. Eram corintianos agradecidos pelo projeto em defesa dos torcedores do time presos em Oruro, na Bolívia. Na hora, ele pensou: “Finalmente, alguém falando bem de mim…”

Natural de Orlândia (SP), sem conhecer bem a capital, o deputado foi parar no Sujinho por sugestão de Talma Bauer, seu chefe de gabinete, um policial civil de 60 anos que também faz as vezes de roommate e cozinheiro em Brasília. E aquela foi só mais uma madrugada agitada na vida do deputado entre março e dezembro de 2013, período em que esteve sob todos os holofotes enquanto presidiu a Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Câmara dos Deputados. Pastor evangélico em seu primeiro mandato, eleito com quase 212 mil votos,Feliciano virou uma estrela da casa. Enquanto ativistas de direitos humanos se revoltaram por ter alguém com o seu perfil na presidência da Comissão, sua base de eleitores conservadores cresceu. Desde então, acostumou-se a receber de tudo: provocações em avião, latinhas de cerveja na cara e até produtos de uma sex shop em seu gabinete. “Alguns eram óbvios, mas outros eu nem sabia para que serviam”, conta rindo.

Nascido há 41 anos no interior de São Paulo em uma família pobre, único fruto de uma relação adúltera, Marco Antonio Feliciano passou fome, trabalhou na roça, foi engraxate e vendeu picolés e sapatos na infância.

Entre bailes, grupos de break, imitações de Michael Jackson e uma paixão pela cantora Simony, do grupo Balão Mágico, passou a adolescência equilibrando a fé às tentações mundanas. Estabeleceu relações com a Igreja Católica e com a cocaína, nessa ordem, até, aos 16 anos, entrar na Assembleia de Deus para nunca mais sair. Com formação técnica em contabilidade, é graduado e pós-graduado em teologia no Brasil e nos Estados Unidos. Hoje tem a própria igreja, a Catedral do Avivamento, e é autor de dezenas de livros e DVDs com pregações. Casado há 22 anos com Edileusa, que conheceu na igreja, é pai de Kamilly, de 11 anos, Ketlin, de 12, e Karen, de 18. Animado com a exposição que teve em 2013, fala em ampliar sua base de eleitores, concorrer ao Senado e, em breve, à Presidência.
Marco Feliciano conversou com o editor Jardel Sebba e com o diretor de redação Sérgio Xavier Filho em seu gabinete na Câmara por dois dias seguidos em março. Na primeira sessão, marcou às 14 horas e apareceu às 21h30: havia sido convocado para uma conversa com o governador Geraldo Alckmin, que pediu seu apoio nas eleições deste ano e o chamou de “deputado de sete dígitos” (com potencial para atingir mais de 1 milhão de votos).

Quando a conversa terminou, duas horas e meia depois, ficou sem jantar, uma vez que Talma Bauer, cuja especialidade é o frango frito, havia ficado em São Paulo. No dia seguinte, nos atendeu na hora do almoço para mais duas horas de entrevista. Simpático, o deputado se irritou em poucos momentos da conversa, especialmente quando falamos sobre os gastos de seu gabinete e aborto. Questionado sobre por que aceitou dar esta entrevista, respondeu: “A chance de dizer às pessoas que acredito em Cristo na revista PLAYBOY, para mim, é uma coroa”.

Qual é o problema com a união estável entre homossexuais?
Nenhum, nunca tive problema com a união estável. O meu grande problema com tudo isso aí é que eu estudo. Se a pessoa estudar, ela chega a denominadores comuns. O controle de natalidade, esse é um pensamento que vem da ONU para cá. Para segurar a população, só existem duas formas: aprovar o aborto, matar a semente, não ter o ônus de nascer mais um ser humano que vai se digladiar por um prato de comida ou um copo de água; ou incentivar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, que elas vão ter o bônus do casamento, que é o prazer, e não vão ter filhos. Então, se não nascem filhos e se abortam crianças, o mundo se mantém equilibrado.

É tudo um grande plano para conter a natalidade?
Em outubro passado veio notificação da ONU: se o Brasil não votasse a lei que criminaliza a homofobia, perderíamos a nossa cadeira na Comissão de Direitos Humanos da ONU. Para que isso? União estável é um pedaço de papel, o problema não é esse, mas o que esse papel vai dar de direito a essas pessoas. Como o direito à adoção de crianças, que sou redondamente contra.

Esse casal não pode ter carinho e compreensão para criar uma criança, mais até que um casal heterossexual?
Esse aí é o discurso mais lindo dos socialistas. O problema é que quem estuda psicologia vai lembrar que Freud disse: tudo o que uma criança vê, ouve e sente, de zero a 7 anos, na primeira fase, e de 7 a 12 anos, será a base da sua estrutura para sempre. Já li 80 livros sobre a homossexualidade, até para poder ir aos debates. Noventa por cento dos psicólogos afirmam: 80, 85% dos casos de homossexualidade são decorrentes de abuso sexual na infância. Dez por cento, de problemas de relacionamento. Não sou eu quem está dizendo, é a psicologia. Quando você conversa com eles, e eles têm coragem, vão dizer: eu fui abusado sexualmente.

O senhor cogita a hipótese de que um homem pode ter prazer pelo ânus?
Com certeza, tem homens que têm tara por ânus, sim. Eu não entendo muito dessa área porque nunca fiz, graças a Deus, e espero nunca fazer, porque parece que quem faz não volta mais. [Risos.] Deve ser uma coisa tão estranha…

Eventualmente tem gente que pode ter tara na própria mulher enfiar o dedo no ânus…
Tem gente que tem tara por cachorro. É tara. Quando você protege um homem que gosta de sexo com homem, dizendo “tudo bem, você pode desejar isso”, o pedófilo também diz: “Mas se ele só sente desejo de sexo com homem, eu só sinto por criança”. “Eu sinto prazer com uma vaca!” São tendências. Uma vez que você abre uma oportunidade para cá, abre um leque para todas as outras.

Uma coisa é uma relação consensual entre dois adultos, outra bem diferente é uma relação com uma vaca ou uma criança…
O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), diante do MEC e de um monte de gente, falou sobre a diversidade sexual na primeira infância, de zero a 7 anos. Vi professores e doutores lá falando assim: “Se o menininho na creche quiser tocar o órgão genital do outro menininho, deixa. Se você impedir o menino aqui, ele vai ter um transtorno psíquico ali”. Aí veio um professor universitário: “Gente, as pessoas têm de entender o pedófilo, ele pode aprender com uma criança e vice-versa, porque a criança tem prazer também, não no limite de um adulto”. Começa a se abrir um leque que, daqui a pouco, não tem mais volta.

A pedofilia é um crime. O senhor considera um homem que dorme com outro homem equivalente?
Não porque, como você disse, há consenso entre os dois. Para mim, é, no mínimo, mau gosto e, no máximo, imoral.

Mau gosto precisa ser regulado pela Câmara dos Deputados?
Mas não estamos regulando nada aqui. Nós só tratamos sobre direitos civis. Agora, quando falam de casamento, mostro aonde isso vai dar. Uma criança não tem como se defender. E eles vão poder adotar crianças. Vão poder botar aqui na sala um menininho de 6, 7 aninhos e pôr na cabeça dele que tem dois homens transando no quarto. Isso se eles fizerem dentro do quarto, não sei como vão fazer mais. Luiz Mott [antropólogo baiano, fundador do Grupo Gay da Bahia] já disse que, entre os 20 e os 40 anos de idade, teve 500 parceiros. Quinhentos parceiros!

O senhor não teme estar generalizando ao associar a promiscuidade ao homossexualismo?
Eu defendo a base da família, que é algo puro e santo, sagrado para mim. Em todas as sociedades, antes da sociedade, antes do Estado, vem a família. Os direitos, as grandes leis nasceram dentro da família. As religiões nasceram dentro da família. E família, para mim, é homem e mulher e aquilo que gerar disso. Qualquer coisa contrária a isso, para mim, é contrária à própria criação e natureza humana.

O papa esteve no Brasil recentemente. O Deus dele é o mesmo do senhor?
O mesmo, Cristo é um só. Só existe um Deus. As três maiores religiões do mundo comungam desse mesmo pensamento, o islamismo, o cristianismo e o judaísmo. Todos temos a fé embasada na história de Abraão, é o Deus de Abraão.

Quando o papa diz que, se um homem homossexual procura Deus, quem é ele para julgar…
Faço minhas as palavras dele. Nunca julguei ninguém.

Já que o senhor falou em pedofilia, o que acha dos casos na Igreja Católica?
Eu não vejo assim, porque conheço a Igreja Católica. Eu fui coroinha.

Não há pedofilia na Igreja Católica?
Há. Como há em todo lugar.

Há pedofilia na sua Igreja?
Há pedofilia na minha Igreja. Sim, há pedofilia entre os evangélicos, isso é do ser humano. Veja só, a Igreja Católica é uma instituição de 2 mil anos, com 1 bilhão de membros. Tem centenas de milhares de líderes. Quando aparece isso, são casos isolados, e a igreja trata dos assuntos.

Trata da forma apropriada?
Não sei, quem sou eu para cuidar da forma como a Igreja doutrina? Nem sei como, mas sei que o problema é tratado. O que quis dizer é que toda vez que a mídia mostra a Igreja Católica, só mostra isso. E toda vez que mostra a Igreja Evangélica, só mostra gente roubando. Isso destrói a imagem da instituição.

O que destrói a imagem da instituição não é o padre pedófilo?
Ele não representa a instituição toda, é um cidadão de carne e osso. É uma pessoa digna de pena, que precisa de ajuda.

De ajuda ou de cadeia?
Cadeia, que seja. Agora massificar e falar: a Igreja Católica é pedófila, você fala muitas vezes e vai virando verdade. Há hoje, no nosso país, uma perseguição ao cristianismo. Exemplo: há dois meses, o menino Kaique, de São Paulo, homossexual, foi encontrado morto. A [ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos] Maria do Rosário fez uma nota pública e mandou gente para lá, o Jean Wyllys escreveu no Twitter que era culpa da Igreja Evangélica, culpa minha, inclusive. Dias depois, descobriram que o rapaz se suicidou.

Esse menino se suicidou, mas muitos gays são agredidos e assassinados por intolerância sexual. O senhor se sente culpado de alguma forma quando vê um crime desses e pensa que pode ter influenciado o pensamento do criminoso?
De maneira alguma, jamais! Eu assumi a Comissão de Direitos Humanos em março. De dezembro a março, continuou sendo o pessoal do PT. Na gestão anterior à minha, eles iam à tribuna dizer que recebiam mil, 2 mil ligações por dia de crimes de homofobia. Engraçado, de dezembro até o dia em que assumi, não houve uma ligação, e no restante do ano também não. Vão dizer: “Ah, mas era o senhor que estava lá, quem vai fazer uma denúncia?” Mas é a Comissão de Direitos Humanos.

A que o senhor atribui isso?
Mentiras.

Crimes de homofobia são mentiras?
Não são mentiras, mas são exagerados. Num país com 50 mil assassinatos por ano, 2012 teve 270 crimes tidos como de homofobia. Desses, apurados um a um, 70% foram crimes passionais. Crimes cometidos pelo parceiro homossexual. E o restante, crimes tidos como homofóbicos porque morreu um homossexual, mas que não foram elucidados. Existe, sim, gente louca, skinhead, mas eu desafio você a me mostrar um evangélico que bateu num gay. E a comunidade gay quer jogar a culpa na gente.

O senhor comentou o episódio do jantar no restaurante paulistano Sujinho. Tem problemas em conviver com o público gay?
Muito pelo contrário. Veja só, nos últimos dez anos, eu acho que não teve um político que ficou tão massificado na imprensa como eu. Tentaram me rotular, além da homofobia, com racismo, e isso pesou. Porque uma coisa é você achar que ter um relacionamento homossexual é errado, outra coisa é alguém falar que você tem nojo de uma pessoa por causa da cor da pele dela. Isso me causou ameaças de morte, tive de andar com segurança.

Quem teria ameaçado?
Ameaças anônimas. Ligações dizendo: “Olha, carro fura o pneu, principalmente em curva, existe coquetel molotov, avisa que a gente tem o endereço dele, tem foto da casa dele”. Hackeamos alguns IPs, e tinha gente da Malásia, da Indonésia. Quem vai brigar comigo da Indonésia e da Malásia? São revolucionários da internet bancados por cofres públicos. Os meninos que vinham na Comissão todos os dias eram pagos, a casa detectou que alguns eram de gabinetes daqui.

De algum partido específico?
Do PT, do PSOL, do governo. Aqui em Brasília tem escritório que, se você quiser fazer uma manifestação, fecha o contrato na hora. Você paga cem reais por cabeça, paga um lanchinho, eles nem sabem o que estão fazendo ali.

Mas o senhor apoiou a eleição da presidente Dilma. Entrou na política apoiando a candidatura errada?
Quando entrei na política, tínhamos um fator aborto na eleição presidencial no segundo turno. O [candidato do PSDB José] Serra tinha um histórico de aborto na família e, ao ser questionado, disse que não via como um problema, era uma questão de saúde pública. Tenho medo quando alguém diz que aborto é questão de saúde pública. Aborto é questão de consciência para mim. Do outro lado, a Dilma assinou um documento dizendo que não ia votar pelo aborto. Fui procurado pelos dois, e ela tinha o documento, por isso a apoiei. Mas se soubesse de política o que sei hoje, teria rido na cara dela e ido com o Serra. O PT não cumpre o que fala.

O que o PT fez com o senhor?
Quando fui eleito presidente da Comissão, veio ordem de cima para baixo: “Destruam-no politicamente!” Aí falam que o governo nunca se manifestou. Ora, um ministro de Estado fala por quem?

A [ministra da Cultura] Marta Suplicy provavelmente falou por ela mesma quando disse que o senhor era um “tapa na cara dos direitos humanos”…
Ela é madrinha do movimento gay do país, e foi ela quem conseguiu botar quase todo mundo dentro do Conselho Federal de Psicologia, que é tomado pelo movimento homossexual. Mas não foi só a Marta. A Maria do Rosário disse que eu era incompetente. A Marina Silva, que é evangélica entre aspas para mim, disse que eu era incompetente, que eu não merecia estar na Comissão…

Mas a Marina Silva não defendeu o senhor?
Defendeu nada. Ela tentou. Quando bateram, ela veio com tudo.

Marina Silva representa o povo de Deus?
Não. Porque a Marina é um engodo. A Marina, com aquele jeitinho de cristã, a roupa de crente, coquezinho na cabeça, ela foi muito inteligente. A Assembleia de Deus, que é a minha igreja, a igrejinha do coque, tem 20 milhões de membros. Deles, uns 8 a 9 milhões que votam. E quando apareceu a irmã Marina falando bonito, cristã, evangélica, todo mundo foi junto. Mas você assistiu à última entrevista dela? “Marina, você é creacionista?” “Não, não sou creacionista. [Rindo.] Mas creio que Deus criou o mundo e criou Charles Darwin para dar a sua contribuição.” “Marina, você é a favor do casamento gay?” “Não, eu sou a favor da união civil sem a sacramentação.” Sabemos muito bem que não é esse o problema.

Mas o senhor só descobriu que não concordava com o PT depois que já tinha ajudado a eleger a presidente Dilma?
Quando entrei aqui e vi que não tem diálogo com petista. Dentro do PT há irmãos meus da igreja. Walter Pinheiro (PT-BA) no Senado, um homem ilibado, cristão evangélico. Benedita da Silva (PT-RJ), crente da Assembleia de Deus, da minha igreja! Quando íamos para os embates, nenhum deles ficava conosco. Nosso país está todo aparelhado hoje. Nossas grandes universidades não estão criando mais pensadores, intelectuais, estão gerando revolucionários. Outro dia desci aqui e havia oito meninos de camisa com a cara do Zé Dirceu e bonezinho do Che Guevara. Che matou mais de 700 pessoas com a mão, né? E a turma que bate palmas para ele não sabe que ele matava gays e negros, né?

Dilma pelo menos cumpriu o compromisso do aborto?
Ela não aprovou o aborto, mas a profilaxia da gravidez, que é um eufemismo para o aborto.

A Dilma é cristã?
Não sei, nunca estive com ela, a não ser nessa vez, no diretório do PT. Talvez ela nem se lembre.

Ela enganou o senhor a respeito da questão do aborto?
Completamente. Não só ela. O [ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência] Gilberto Carvalho é um religioso, e é mais à esquerda que a esquerda. É outro que engana a gente com facilidade aqui dentro. O problema é que nós temos 33 partidos, cada um quer um pedacinho para si, e a corrupção está desenfreada…

No governo?
Principalmente no governo. Está aí o mensalão, meu Deus, que acabou em pizza! Para um revolucionário não existe lei, cadeia para ele é como se fosse um troféu, então eles estão surfando.

A Dilma nesse caso é uma revolucionária?
Revolucionária, pegou em armas e matou gente.

Ao mesmo tempo, foi torturada…
Sim, mas depois de matar uma pessoa…

Justifica?
Não justifica. Mas ela fez por onde, naquele momento histórico. Para poderem tirar dela o que queriam, usaram a tortura. Tortura não se faz com ninguém, nem com um animal.

Uma mulher estuprada hoje tem, pela lei, direito ao aborto. O senhor acha que não deveria ter?
Sou contra tirar qualquer tipo de vida. Sinto por quem foi estuprada, é um crime hediondo, nojento, mas é tudo fruto da sociedade em que vivemos.

O senhor está condenando uma mulher a conviver com o fruto de uma violência pelo resto da vida?
Digo que o que foi gerado nela é vida. E vida é um dom que só Deus dá e só Deus pode tirar. A vida deve estar protegida desde a sua concepção. Está no artigo quinto da Constituição. Se foi concebida da maneira errada, sinto muito. O estuprador precisa ser punido, mas a criança não tem culpa. As mesmas pessoas que querem o aborto criaram leis para proteger o mico-leão-dourado. Vivemos em um país esquisito, onde o macaco vale mais do que uma vida humana.

O senhor enxergou uma oportunidade para se projetar presidindo a Comissão de Direitos Humanos?
Devo a presidência da Comissão ao Jean Wyllys. Em um acordo, o meu partido, o PSC, ficou com a última comissão, a que sobrou. Quando saiu na mídia que a Comissão, reduto do movimento GLBT, vinha para o PSC, o Jean Wyllys disse que só faltava ir para a mão doFeliciano. Há três anos eu brigava com eles aqui por outras questões. Aí o PT, com o [presidente nacional do partido] Rui Falcão, se pronunciou: “O PSC jamais fará isso, nós não vamos deixar”. Aí o meu partido resolveu agir. Eles vão querer mandar na gente? Eu estava quieto, na minha. O partido, para mostrar que não ficava a reboque dos outros, resolveu bancar meu nome. Por um tempo, depois fraquejou, me propôs uma “saída honrosa”. Aí me dei conta de que, se aceitasse sair daquele jeito, não seria eleito nunca mais nem vereador. Avisei que ia ficar. O partido então decidiu comprar a briga comigo.

O problema não era presidir ou não a Comissão, mas não se eleger depois?
Eu não podia sair como covarde. Não importa o que você crê, político precisa ter posicionamento e postura.

Se Jean Wyllys e Rui Falcão não tivessem “sugerido” o seu nome…
Eu não seria presidente da Comissão. Seria o deputado Zequinha Marinho (PSC-PA). Eu era o último da fila, é o meu primeiro mandato. O marketing da Câmara veio me perguntar quem bolava minhas ações. Ninguém! A gente faz tudo de intuição, eu e o doutor Talma Bauer, um delegado de mais de 60 anos que é o meu assessor.

Mas não foi ótima para o senhor essa polêmica toda?
O ganho político foi imenso. Eu vim para cá pelo movimento evangélico, e hoje os católicos me param na rua e me abraçam. Os espíritas estavam aqui numa passeata um dia desses e me chamaram para discursar, 10 mil espíritas. Entrou aqui um babalorixá. O Palácio do Planalto fez uma pesquisa espontânea para a Presidência e eu apareço hoje em quarto lugar, com 6, 7%. Hoje eu já começo a sonhar com a Presidência da República.

O senhor fala tanto de família, como foi a relação com a sua?
Fui criado só pela minha mãe. Via meu pai uma vez por semana, mas fui criado filho único. Minha família vivia abaixo da linha da pobreza, morávamos 12 pessoas em dois cômodos. Meu avô e minha avó tiveram seis filhos; ela morreu, ele desapareceu e os filhos foram doados. Quando minha mãe fez 16 anos, arrumou um emprego fixo, alugou um cômodo e começou a buscar os irmãos. E conseguiu trazer todos eles. Começaram a trabalhar na roça, na lavoura, e ela, como empregada doméstica, conseguiu melhorar e alugou uma casa de dois cômodos. Nessa casinha de dois cômodos, eles começaram a casar e a vir morar com a gente.

O seu pai se separou da sua mãe?
Não, minha mãe era a outra da história. Quando ela nasceu, meu pai já era casado e tinha filhos. Tenho um irmão mais velho que a minha mãe.

A chamada para a religião aconteceu nesse ambiente?
Aos 6 anos de idade, eu acordava aos domingos escutando o sino da igreja. Até que o sino foi me chamando pelo nome. Só eu acordava, morava a 100 metros da igreja, a paróquia Cristo Rei, católica. Um dia, fui para a igreja sozinho. Na hora em que terminou a missa, não sabia voltar para casa, deu um tumulto, minha mãe chamou a polícia. Até que alguém do bairro viu, as mulheres da igreja não deixaram ela me bater e falaram: “Ele tem um chamado”. Até que eu comecei a ir à igreja sozinho, com o consentimento dela.

Ela batia no senhor?
Bastante. Eu era peralta. Mas agora vem a parte mais bonita. Eu fiz a primeira comunhão com 10 anos de idade. E, no dia em que fiz, descobri que a igreja nunca teve sino…

No colégio, o senhor descontava nos colegas?
Sempre apanhei, sempre fui mole. Não sei por que, acho que a minha presença incomodava… Eu passei fome. Com 7 anos, ia para a roça apanhar laranja, algodão, café, trabalhei em corte de cana. Tenho minha caixa de engraxar sapatos até hoje. Só que eu sempre tive uma queda pela religião.

Por que o senhor não seguiu na fé católica?
Porque, com 12 anos, descobri os bailezinhos, a dança. Embora a igreja não proibisse, a missa era domingo de manhã, e eu não conseguia acordar.

E por que volta para a Igreja Evangélica, e não para a Católica?
Aí é uma parte bonita. Eu tinha 13 anos quando comecei nas drogas. Experimentei cocaína, tinha amigos que faziam isso. Eram amigos ricos, que tinham condições de comprar. Eu era de família pobre, mas sempre fui o centro das atenções, carismático, então eles me levavam junto, eu conquistava as garotas e ganhava como prêmio de consolação. Conheci a cocaína nos bailinhos, no fim dos 12 anos.

Só a cocaína?
Só a cocaína. Eu tentei a maconha, mas engasguei, nunca consegui fumar nem cigarro. Não conseguia tragar. Com a cocaína era fácil.

E a sensação?
A sensação é tremenda, né? Se não fosse boa ninguém ia atrás, só que ela vai te destruindo, causando dependência. E eu não tinha estrutura nem dinheiro para manter, estava entrando em colapso. Enxergava coisa que não devia, tinha síndrome do medo.

O senhor pensou em fazer o quê?
Eu não sabia o que fazer, na verdade. Trabalhava numa empresa e era o guarda mirim de um rapaz que trabalhava na contabilidade. Ele percebeu que comecei a ficar triste depois de um tempo. Comecei a emagrecer, a perder a fome… Um dia, no escritório, ele assoviou uma música tão bonita que comecei a chorar, sem entender o motivo. Era um hino de igreja. Ele cantou um pedacinho, é um clássico da música evangélica, chama-se Deus Está Aqui. O efeito foi mais forte que o da droga. Ele falou: “Você não quer ir à igreja?” Eu perguntei: “Que igreja, a dos crentes? Aquele povo grita demais…”

E grita, não grita?
Gritamos muito, e hoje eu sou o que mais estimula a gritar…

A igreja dos crentes era a Assembleia de Deus?
Era a Assembleia de Deus. Não entendi nada do que o pastor pregou. Ele dava uns pulos, aquelas coisas que nunca tinha visto um padre fazer, e me apaixonei por aquilo. Ele fez um apelo: alguém gostaria de render a sua vida a Cristo? “Eu quero!” Quando eu dobrei o joelho, tive uma forte emoção, chorei muito. Quando levantei dali, já sabia o que eu queria ser.

O senhor nunca mais cheirou cocaína?
Dos 13 aos 16, fiquei na igreja. Aí fracassei na fé, tive uma recaída. Pensei se não estava perdendo a minha juventude na igreja. Porque na igreja a gente não vai a baile, só fica entre casa, igreja e trabalho. Tinha que aguentar o meu pai na época, que chegou a falar pra mim: “Preferia ver você chegando em casa bêbado do que chegando da igreja”. Ser crente era uma vergonha.

Como foi a sua primeira vez?
Rapaz, não queria entrar nesse assunto…

Mas é uma pergunta clássica de PLAYBOY…
[Risos.] Foi aos 17 anos, com uma mulher bem mais experiente que eu, uma senhora divorciada.

Então posso concluir que o senhor não casou virgem.
Não casei.

Houve uma descoberta do seu corpo em algum sentido?
Eu lembro que foi quase violento. Uma mulher experiente, eu um cidadão sem experiência nenhuma, foi quase traumático. [Risos.]

Foi durante essa recaída?
Sim, vacilei e caí numa época de Carnaval. Voltei às drogas, voltei para os amigos. A moçada fez uma festa: “Ele voltou para nós!” E me deram cocaína de presente. O que fiquei limpo em quatro anos, me afoguei em uma semana. Aí que conheci essa senhora.

Ela cheirava também?
Também. Isso foi aos 17 anos. Fiquei nisso oito meses, mas foram oito meses intensos. Um dia, cheguei de um baile umas 6 da manhã, dopado, drogado, me joguei na cama 6h30, às 6h45 bateram na janela do meu quarto com uma música. As igrejas faziam serenatas. Era um grupo da igreja liderado por uma irmã de Uberlândia, a Orivalda. Quando soube que eu havia saído da igreja, ela veio à minha cidade, pregou na igreja no sábado à noite e veio fazer uma serenata na minha casa domingo de manhã.

E conseguiu levá-lo de volta?
Ela me acordou. Quando olhei para o pessoal, comecei a chorar, e Orivalda falou: “Esse não é o seu mundo, você tem uma vocação divina, ainda vai ser pastor”. Ela me levou de volta à igreja, e eu nunca mais saí.

O senhor bebia também?
Bebia muito. Aprendi com meu avô, que era alcoólatra. Deitado na cama, ele só mexia o braço para pegar a garrafa ao lado. Ele chegava ao ponto de se urinar na cama.

Bebia o quê?
Cerveja, conhaque. Nunca gostei de pinga. Hoje não bebo nada.

Aos 13 anos, o senhor devia estar com os hormônios à flor da pele, não?
Sim, estava me descobrindo homem, me descobrindo um ser viril. Mas fiquei um menino puro, não conheci o sexo até os 17 anos.

O senhor era muito tentado?
Não, na nossa época era diferente. No meio do mato, quando dávamos um selinho na menina já era a conquista máxima. A nossa turma só gostava de dança. A gente tinha um grupo chamado The Boys Break. Tinha uniforme, luva, tudo. Dançava break.

O senhor dançava bem?
Rapaz, modestamente, sim. Cheguei a dar show. Tinha circo na cidade, show do Michael Jackson, cheguei a ganhar prêmio.

Melhor imitação do Michael Jackson?
Fiquei em segundo lugar, era o Michael Jackson branco. Na época, o cabelo era crespo, a gente passava limão nele para ficar mais enrolado ainda.

Como dançarino, fazia sucesso com as mulheres?
Sempre chamei a atenção, não pela beleza, mas pela simpatia.

O senhor se masturbava antes da primeira relação?
[Risos.] Me descobri viril aos 17 anos, a primeira relação, mas não lembro dessa coisa, não…

Quando um casal constituído faz sexo, vale tudo, até o ménage à trois?
Dentro do casamento, o que é feito por duas pessoas com consentimento e com desejo não tem problema. Mas a terceira pessoa extrapola o limite daquilo que é cristão e bíblico.

A Igreja Católica condena o sexo que não é feito para reprodução. O senhor também é contra sexo recreativo?
Não, sou contra o sexo pelo sexo, o “ficar” de hoje em dia.

O senhor e sua esposa podem fazer sexo sem a finalidade reprodutiva, então?
E a gente faz muito! Fizemos quatro filhos. Sexo é um presente de Deus para o homem, não serve só à procriação. Tenho minha esposa como grande amante depois de 22 anos de casado!

Alguma fiel mais ousada já chegou se oferecendo?
Chegou uma carta em casa mais ou menos assim: “Foram bons os momentos em que estivemos juntos. Sentir o seu perfume foi algo tremendo. Sentir o seu abraço, então… Por favor, não demore, volte logo”. E com o telefone dela. Minha mulher perguntou o que era aquilo. Respondi que não sabia, sou uma pessoa que abraça todo mundo, beija todo mundo. Minha mulher ligou para ela e perguntou que história era aquela. A mulher respondeu que, no fim do culto, me deu um abraço, sentiu o perfume, tirou uma foto e pediu que voltasse ao templo. Só isso.

Essa senhora estava dando mole, não?
Com certeza, mas a capitã botou logo o freio, na hora. [Risos.]

É aflitivo ser pai de três mulheres? O senhor gostaria de ter um homem?
É uma bênção. Mas, entre Ketlin e Karen, tivemos um menino, que faleceu no oitavo mês de gravidez. Ia vir o Kameron. Ele teria 17 anos hoje. Minha mulher teve sangramento, fez ultrassom e o líquido da placenta tinha sumido. Não tem explicação. Perdemos o bebê por falta de atendimento. Foram três horas na fila do SUS no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Nesse período, o bebê morreu. Ficou o trauma. A morte do meu filho foi uma das experiências que ajudou a me projetar no mundo evangélico como pastor. Deus me deu um sermão que se tornou um dos meus best-sellers, mais de 1,5 milhão de DVDs, chamado O Sonho de José. Fala que o sonho de Deus é maior do que o nosso, e que o que a gente não consegue entender, é obrigado a aceitar.

Foi um chamado que o senhor recebeu?
A gente diz entre os evangélicos que os mais belos hinos são escritos em tribulação. Eu tinha dois caminhos. Ou me desesperava e abandonava tudo ou buscava uma explicação. E qual se dá a um pai que perde um filho? Um pai não enterra um filho, o natural é o contrário. Aí que as pessoas se decepcionam com Deus. Eu quase perdi a fé.

O senhor em algum momento achou que isso pode ter sido uma punição?
Eu não, mas a minha igreja, sim. A Igreja Evangélica de 20 anos atrás tinha esse pensamento. Era a lógica de que quem não obedece uma lei é punido por ela. Na minha igreja, a mulher não raspava as pernas, não cortava o cabelo, não tinha televisão. Algumas pessoas da igreja chegaram a nos questionar se ela ou eu tínhamos cometido algum erro.

Erro seria adultério?
Adultério, ou não ter aceitado algum chamado. Isso me magoou muito. A oração que me ajudou a passar por isso veio de um livrinho de São Francisco de Assis. “Deus, me ajude a suportar aquilo que não consigo entender.” A oração virou um DVD que ajudou muita gente que passava por situações parecidas. Foi a grande alavancada da minha vida.

De alguma forma esse tratamento recebido pela sua igreja o estimulou a abrir um novo ministério?
Não. O que mudou a minha forma de ver o mundo foram as viagens que fiz. Entendi que existiam culturas diferentes. O que era pregado como dogma de fé não era um dogma. Quando cheguei a uma igreja em Angola, muito pobre, e vi um grupo de mulheres carecas, foi um choque para mim. Um assembleiano sabe que a mulher tinha que ter o cabelo crescido. O pastor de lá me explicou: tinha dado um surto de piolho e cinco ou seis irmãs tiveram que raspar o cabelo. As outras, sentindo que as carecas se sentiam humilhadas, rasparam também. Um ato de amor. Eu até me emociono quando falo disso. [Olhos avermelhados.] Quando volto ao Brasil, percebo o choque cultural. Como falar para um universitário que ele não pode assistir televisão? Para uma médica que ela não pode colocar um brinco? Tudo isso era a cultura da igreja.

A Igreja estava velha?
Não, tudo precisa ser respeitado, só que a Igreja também precisa passar por transformações. Eu saí em paz e abri um ministério na minha região, onde há a liberdade de se fazer o que quiser. Não sou dono deles, sou um orientador espiritual, ensino na igreja. O que eles fazem na rua, na escola e no trabalho é de foro íntimo. A Igreja mais antiga queria doutrinar a pessoa. Pensei: será que não dá para ser assembleiano e moderno sem ser mundano? Na minha época, quantas meninas perderam o emprego porque precisavam colocar calça comprida? Fui um dos primeiros a colocar uma pulseira. Nenhum homem ou mulher da Igreja podia usar adornos. Fui um revolucionário.

O que de mais fantástico o senhor já viu em um culto? Já viu alguém ressuscitar?
Ao vivo não, mas ouvi o relato. Pastor João de Oliveira, ele veio ao meu culto, tirou do bolso um atestado de óbito, assinado por três médicos, e a foto dele no caixão. O pastor João Colenda, de Pindamonhangaba, se ajoelhou diante do caixão e orou por quase quatro horas. E o velho voltou à vida.

O senhor já curou?
Não tenho o dom. Mas a cura se manifesta porque Cristo cura. Como explicar a fé? Ela é mística, alguns alcançam, outros não. Orei pelo meu filho morto e ele não ressuscitou.

Como vão as contas de suas igrejas?
Tenho 12 igrejas fundadas. Tem gastos, aluguel, salário de pastor. Oferta e dizima quem quer, não é obrigado. Eu sustento com os meus rendimentos a maioria das minhas igrejas.

Com o salário de deputado?
Tenho 18 livros e mais de 400 temas em DVD, cerca de 3 ou 4 milhões vendidos. Não vivo só disso. Sou pregador itinerante. Como palestrante, recebo cachês. Só a minha igreja, a Assembleia de Deus, tem 160 mil templos.

Uma das coisas mais comentadas a seu respeito ano passado foi o seu cabelo. O senhor é um homem vaidoso?
Gosto de me cuidar. Gosto de arrumar meu cabelo, que não era muito bom, ainda não está bom, até hoje. Gosto de um terno bom, uma gravata boa.

O que tem em seu nécessaire de viagem?
Tenho um perfume que eu uso há 16 anos, nunca troquei, um gel, um spray de cabelo que acerta as pontas, o trivial. Um creme de rosto que minha esposa me deu para não deixar a pele ficar oleosa, e que eu não lembro o nome.

Esse relógio, esse anel e essa pulseira são todos de ouro?
O relógio Monblanc tem pulseira de couro. O anel eu ganhei quando me formei nos Estados Unidos. A pulseira ganhei do pastor Antônio, está aqui o nome dele atrás. São presentes. Sou um homem de vida simples. Tenho duas caixas com 62 relógios, não comprei nenhum.

O senhor já cometeu alguma extravagância financeira?
Quando construí minha casa, fiz um cinema. Um cinema meu. Tem 14 poltronas, uma tela de 120 polegadas. Amo filme de ação, ficção e drama. Minha videoteca tem uns 4 mil filmes. Mais do que dos filmes em si, gosto dos atores. Um pregador e um político é também um grande ator. Gosto do Al Pacino, Robert de Niro, Mel Gibson.

O senhor já viu filmes que foram acusados de heresia, como Je Vous Salue, Marie (1985)?
Ia ofender minha alma. O Livro de Salmos diz para não colocar diante dos olhos coisas más.

Então por que o senhor clicou em um vídeo do grupo Porta dos Fundos, vídeo que o fez processar o grupo por desrespeito?
Eu não cliquei.

Então o senhor está processando o Porta dos Fundos por um vídeo que não viu?
Meus assessores viram, eu confio muito neles.

Comentários

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1 Comentário

  1. Joilson disse:

    Uma dinâmica de palavra muito expressiva e detalhistas. Mas quando Deus tem o proposito ele revirá a pessoa.

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