Da linda Pátria estamos bem longe

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Por Carlos Bezerra Jr., na Ultimato

Agosto começou com seis haitianos baleados em dois eventos diferentes em pleno centro da maior cidade brasileira, São Paulo. Não vou cair no lugar comum de afirmar que o fato passou despercebido. Pelo menos na imprensa, não. A notícia, os testemunhos e as respostas sobre o caso estiveram em todos os veículos e redes sociais. Arrisco dizer que faltou indignação à altura.

Imagine que não fossem haitianos. Estamos falando simplesmente de cidadãos, alguns deles, atingidos ao sair da igreja. Colocar dessa forma traria maior comoção e clamor por justiça. Mas, para alguns, ainda há dúvidas de que o caso se trate de xenofobia.

A motivação do crime deveria ter indignado ainda mais as pessoas. Segundo o padre Paolo Parisi, da Missão Paz, que acolhe imigrantes, esses haitianos impediram um assalto dias antes do ataque e devolveram a bolsa roubada da mulher. Os ladrões disseram que voltariam.

Gregory Deralus, 34, uma das vítimas, formado em Ciências da Computação, abandonou o Haiti e trabalha há um ano no Brasil como auxiliar de materiais em uma obra. Ao portal G1, disse o que deveria estar na boca de todos: “Primeiro, faz com haitiano, depois africano, colombiano e brasileiros.(…) Aqui tem africano, colombiano, tem muitos estrangeiros no Brasil, não só haitianos. Você é humano e eu também. Não é preto ou branco, todo mundo tem sangue, eu sou filho de Deus.”

Disso não se pode discordar. Gregory é filho de Deus, tanto quanto você e eu. Além disso, somos também descendentes de migrantes estrangeiros, de gente que deixou sua terra e suas raízes em busca de um sonho, ou pela absoluta impossibilidade sobreviver.

Essa é a razão que torna ainda mais bizarras as pichações racistas na cidade de Nova Odessa, localizada a 124 km da capital de São Paulo. Um muro recebeu a frase “Back to Haiti”, – “Voltem para o Haiti”, em inglês. Ao lado, uma suástica, símbolo nazista, da altura de uma pessoa. Como isso é possível numa cidade criada a partir de um assentamento de judeus russos? Nova Odessa foi povoada por colonos da Letônia, protestantes, que levaram a Igreja Batista para a cidade. Não era essa a terra que eles sonharam construir. Mas o que nós, cristãos, temos a ver com isso? Tudo.

Nossos atos definem quem somos hoje. Nossas reações sinalizam quem seremos amanhã. A distância aparentemente curta entre os olhos e o coração parece intransponível para boa parte do mundo. Anestesiados contra o sofrimento alheio, alguns só sabem viver em função de seus próprios interesses. Já para os cristãos, deve ser impossível conjugar o Verbo na primeira pessoa. Andar com Jesus significa entender que “eles” somos “nós”.

A Bíblia é um livro que nasceu e cresceu no contexto de migração milenar. A história dos cristãos teve início com o migrante Abraão. Ele é exemplo da prática da hospitalidade, afinal, no ambiente inóspito do deserto, água fresca, alguns pães e sombra poderiam significar a diferença entre a vida e a morte. Somos herdeiros de uma tradição espiritual de um povo que foi perseguido, rejeitado e escravizado anunciando as “boas novas” de cidade em cidade.

Moisés guiou seu povo na fuga da opressão e da vida indigna que os poderosos lhes impunham, justamente, por serem estrangeiros. Desde o início do Cristianismo, prevalece o sentimento de que a Igreja é peregrina na busca da pátria definitiva, e enquanto caminha, ajuda a criar um novo céu e uma nova terra.

Jesus, filho de migrantes sem-teto, não encontrou lugar para nascer numa sociedade que rejeitou seus pais e se recusou a acolhê-los quando fugiam da violência e do genocídio. Não há lugar para eles na estalagem e nem no coração daqueles que um dia foram acolhidos pelo Senhor. Como migrante, o Mestre entrava e saia de aldeias continuamente. E sempre denunciava a discriminação e os paradigmas preconceituosos e racistas. A escolha de um samaritano como herói na parábola é outra demonstração de que ele veio derrubar os muros de separação e fronteiras imaginárias. O ódio, a discriminação, a xenofobia e o racismo são exatamente o oposto da proposta cristã.

A foto que ilustra esta reflexão correu o mundo. Um sírio, entre lágrimas, abraça seus filhos ao chegar à ilha de Kos, na Grécia. Ele enfrentou o mar a bordo de um pequeno bote inflável, para fugir da barbárie de uma guerra civil e da perseguição implacável do Estado Islâmico. Há milhares de pessoas que, neste momento, tentam concretizar uma travessia como essa. Outras milhares, morreram no meio do caminho.

Quando pensamos no estrangeiro, nós, cristãos, não devemos pensar no abalo que a chegada daquelas pessoas traz ao cotidiano da nossa sociedade. Temos de lembrar o que a Bíblia nos ensina, em Deuteronômio 24:18, “Recorda que foste escravo na terra do Egito, e que Yahweh, teu Deus, daquele povo te resgatou”.

Que as lágrimas do estrangeiro recebam a acolhida dos nossos braços abertos, capazes de convertê-las em lágrimas de felicidade. Jesus disse que, quando acolhemos o estrangeiro, nós o acolhemos. “Quando eu era estrangeiro, você me recebeu?”. Como respondemos a essa pergunta hoje?

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