Deus de refugiados e proscritos

europe-migrants-hungary_laszlo_balogh_reuters

Por Marília César

No Antigo Testamento, há mais mandamentos de cuidado específico para com os estrangeiros – os imigrantes e refugiados de nossos dias – do que de amor a Deus ou ao próximo. (No final deste texto, eu listo as passagens que encontrei apenas no livro de Deuteronômio)

A ordem de proteger o estrangeiro traz junto uma promessa de bênção. Se vocês fizerem isso, eu vou abençoá-los, é o que Deus garante. Num dos versículos, a orientação é para que os hebreus, na época da colheita, deixem uma parte da produção no campo, para suprir as necessidades do “estrangeiro, do órfão e da viúva”, considerados a parte mais frágil da sociedade de então.

Essa atenção especial para com os refugiados tinha um propósito: Deus queria que Israel nunca se esquecesse do sentimento de ser estrangeiro, e de que vivera como forasteiro no Egito, onde foi escravizado durante 400 anos. Conhecedores da dureza, da aridez e da crueldade enfrentadas nos séculos de exílio, os hebreus deveriam sempre ser solidários a todos os outros povos ou tribos que viessem procurar asilo em sua vizinhança. “Não oprima o estrangeiro. Vocês sabem o que é ser estrangeiro, pois foram estrangeiros no Egito. (Êxodo 23:9)

Abraão foi estrangeiro na terra dos filisteus por longo tempo (Gênesis 21:34). Moisés foi estrangeiro na terra de Midiã e ali constituiu sua família, antes de se tornar o libertador de Israel (Atos 7:29). Ele até mesmo deu nome a um de seus filhos, Gerson, em referência ao sentimento de se sentir “imigrante em terra estrangeira” (Êxodo 2:22). Jacó viveu como estrangeiro na terra de Cam. ( Salmos 105:23)

O registro prova que o Deus da Bíblia é um Deus que se preocupa com os refugiados e por amor a eles institui mandamentos de proteção.

A jornalista Adriana Carranca nos relembra em uma coluna recente publicada no Estadão que entre 1880 e 1910, mais de 17 milhões de europeus entraram nos EUA – 570 mil por ano. “É o dobro do total de migrantes que atravessaram o Mediterrâneo no ano passado para chegar aos países da União Europeia. Isso, com uma população mundial que em 1900 não chegava a dois bilhões, quase um quarto da de hoje.”
“Analfabetos, pobres, famintos, perseguidos, esses europeus venciam o medo, a exploração, a humilhação pelo sonho de conseguir um emprego e liberdade na outra margem do oceano. Eram os sírios, líbios, iraquianos, somalis, eritreus, afegãos de agora. Enfrentavam entre três e 14 semanas no mar — isso quando um incêndio, comum na época, não tomava a casa das máquinas e os deixava à deriva. Viajavam nos porões fétidos de velhos navios, expostos a doenças contagiosas, sem água ou comida suficiente, achacados por traficantes de seres humanos, como os que deixaram 71 asfixiar até a morte num caminhão frigorífico há três dias na Áustria.
Na América, prosperaram e ajudaram a construir uma economia dinâmica e uma sociedade diversa, culturalmente rica, miscigenada. Eles se tornaram nós. Mas a Europa parece ter se esquecido do próprio passado.”

Os EUA “abençoaram” milhões de forasteiros fugitivos e não consta que tenham ficado mais pobres por causa disso. Não que tenham feito esse movimento por puro altruísmo. “A América recebeu os imigrantes europeus porque precisava ocupar a lavoura, após o fim da escravidão. Essa mesma Europa xenofóbica sustentou o boom da indústria e a reconstrução no pós-guerra com a mão de obra barata dos novos imigrantes. Mas não existem mais eldorados”, prossegue Adriana.

A Europa, por outro lado, se apequena e resiste diante da tragédia. Mesmo tendo com essas nações em chamas uma dívida moral. Muitas das quais, segundo a jornalista, “estão no caos em que se encontram em grande parte pela herança da colonização europeia na África ou por intervenções recentes, como as guerras no Afeganistão e Iraque.”

Mas e nós aqui tão distantes? O que podemos fazer?

Ao refletir sobre isso, me vêm à mente as recentes manifestações racistas contra haitianos recém-instalados em São Paulo. Talvez muitas das pessoas que picham muros conclamando os haitianos a “go back home” sejam as mesmas que choraram ao ver a foto de Aylan Kurdi, o menino sírio-curdo de três anos que morreu afogado em uma praia da Turquia.

Há muitos refugiados entre nós.
O que temos feito por eles?
O que a sua igreja pode fazer por eles?
Eu me faço essas perguntas e logo me sinto constrangida.
Envergonhada é a melhor palavra.

Textos que falam de refugiados no livro de Deuteronômio (os grifos são meus)

Ele defende a causa do órfão e da viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe alimento e roupa.
Deuteronômio 10:18
10.28 e 29- Ao final de cada três anos, tragam todos os dízimos da colheita do terceiro ano e armazene-os em sua própria cidade, para que os levitas, que não possuem propriedade nem herança, e os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem na sua cidade venham comer e saciar-se, e para que o Senhor, o seu Deus, o abençoe em todo o trabalho das suas mãos.
Deuteronômio 14:28,29

E alegrem-se perante o Senhor, o seu Deus, no local que ele escolher para habitação do seu Nome, junto com os seus filhos e as suas filhas, os seus servos e as suas servas, os levitas que vivem na sua cidade, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem com vocês.
Lembrem-se de que vocês foram escravos no Egito e obedeçam fielmente a estes decretos.
Celebrem também a festa das cabanas durante sete dias, depois que ajuntarem o produto da eira e do lagar. Alegrem-se nessa festa com os seus filhos e as suas filhas, os seus servos e as suas servas, os levitas, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem na sua cidade.
Deuteronômio 16:11-14

Quando vocês estiverem fazendo a colheita de sua lavoura e deixarem um feixe de trigo para trás, não voltem para apanhá-lo. Deixem-no para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva, para que o Senhor, o seu Deus, os abençoe em todo o trabalho das suas mãos.
Quando sacudirem as azeitonas das suas oliveiras, não voltem para colher o que ficar nos ramos. Deixem o que sobrar para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva.
E quando colherem as uvas da sua vinha, não passem de novo por ela. Deixem o que sobrar para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva.
Lembrem-se de que vocês foram escravos no Egito; por isso lhes ordeno que façam tudo isso.
Deuteronômio 24:19-22

Vocês e os levitas e os estrangeiros que estiverem no meio de vocês se alegrarão com todas as coisas boas que o Senhor, o seu Deus, dá a vocês e às suas famílias.
Quando tiverem separado o dízimo de tudo quanto produziram no terceiro ano, o ano do dízimo, entreguem-no ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, para que possam comer até saciar-se nas cidades de vocês. Depois digam ao Senhor, ao seu Deus: “Retirei da minha casa a porção sagrada e dei-a ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva, de acordo com tudo o que ordenaste. Não me afastei dos teus mandamentos nem esqueci nenhum deles.
Deuteronômio 26:11-13

“Maldito quem negar justiça ao estrangeiro, ao órfão ou à viúva”.
Deuteronômio 27:19

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Deus de refugiados e proscritos

Deixe o seu comentário