Foi só um sonho, Gigante. Volta a dormir!

o-gigante-adorrmeceuLeão Serva, na Folha de S.Paulo

Vai, deita, Gigante. Foi um pesadelo, você bebeu e comeu demais e não estava acostumado. Dorme…

Não se engane, eles sabiam muito bem. Só fingiam, uns porque queriam manter o poder, outros, em troca de migalhas, mantinham o coro dos contentes. E teve também os que simplesmente se enganaram por não ter lido o “Discurso da Servidão Voluntária”, para sorte dos autores.

Todos tinham aprendido desde a primeira aula: a história quando se repete vem como farsa. Até porque essa apostila (“O 18 Brumário”) é curta. Sim, eles já sabiam, só estavam esperando o circo vir abaixo. Depois, sabiam, uns poucos pagariam a conta. Porque no fim da festa, sempre aumentam impostos.

Foi um sonho, a ideia de que o Brasil assumia seu papel na história; de que “o gigante adormecido” acordou para ocupar o papel de potência, sentar no Conselho, arrotar umas ordens para o Obama sobre paz mundial, palpites para a Angela Merkel sobre economia da Europa, e ensinar todo mundo como implantar o “bolsa família” para salvar o planeta da fome.

Enfim, quem conhecia a história sabia que o “Brasil potência” é uma lorota antiga, já do início da colonização, sempre usada para enganar o povo.

Foi pensando no Gigante —você— que todos aqueles portugueses toparam vir para este fim do mundo. Acreditando que era verdade, holandeses chegaram a invadir um pedaço. Basta ler o que diziam sobre a decisão de D. João 6° ao implantar a corte no Rio. Estava criando “a Idade do Ouro” do Brasil, em 1808…

Quando seu neto D. Pedro 2° foi aos EUA para o centenário da independência deles, foi recebido como o líder de potência, embora soubessem que sua nação era pobre de espírito, só escravos trabalhavam e o Gigante dormia. Por diplomacia, na festa foi dada ao imperador a oportunidade de ouvir a primeira chamada telefônica da história oficial. A farsa foi narrada por Sousândrade no “Inferno de Wall Street”. Mas você não leu, Gigante? Estava dormindo. Leram; e fingiram que não sabiam de nada.

E quando precisaram do Brasil para combater a Alemanha? Até o ditador fascista envergonhado, Getúlio, foi feito de estadista (até agora há aqui quem acredite). De novo, o mundo fingiu que você, Gigante, estava de pé.

A farsa se repetiu quando Médici, o tirano sanguinário, foi a Washington: “Para onde for o Brasil, vai a América Latina”, disse o presidente deles, pouco antes de renunciar (aliás, Gigante, você ouviu algum americano dizer que a demissão do Nixon foi golpe?). E mais adiante, foi a vez do Collor ser recebido na Casa Branca com ares de respeito inebriante. E dessa vez quem caiu foi ele (escute, Gigante querido, alguém disse que a demissão do Collor foi golpe?). Todos sempre incensados como se fossem líderes de um Gigante -você! Só esqueceram de te acordar.

Estava escrito no Sousândrade: “Eu sou o Americano sem títulos, Que derriba imperadores; Sou o Guesa, e para amores tenho o meu sol”. Em vez de combater tiranos, esta geração achou legal servir a um simulacro, como se fosse acordar e alimentar a todos com uma “Bolsa Gigante”, de conforto, saúde, felicidade e satisfação, para o resto dos tempos.

Tudo sem esforço, sem ter que levantar, que sonho! Mas não passou de pesadelo, você bebeu e comeu demais. Volta a dormir, Gigante, antes que chegue a conta.

Comentários

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1 Comentário

  1. Kayo disse:

    A conta já chegou, e como o gigante já voltou a dormir, quem vai pagar são os que não conseguem dormir…

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