Meu frágil crer

fé99

Ricardo Gondim

Creio que não deva estranhar nada do que é humano. Convoco a minha direita a tocar a beleza do mundo, a esquerda a alcançar homens e mulheres no sofrer e a sentar os dois pés no dever de mudar o porvir.

Creio que a tarefa primordial de homens e mulheres não é interpretar os fatos, mas mudá-los. A pulsão da vida merece ser maior do que a pulsão da morte. Nosso desejo tem que abarcar, inclusive, o ideal que repousa além da linha do horizonte. Obriguemos o coração a dizer que só existirá futuro se a injustiça não prevalecer; e que o ódio não merece a última palavra; e que a antivida jamais não pode ser tolerada.

Creio que toda a ciência, tecnologia e saber  ser humanizantes. Se nosso conceito de civilização desprezar a inclusão dos mais frágeis, a defesa dos excluídos e o direito dos velhos, cavamos o inferno com a ponta dos nossos dedos.

Creio que a paz nunca se viabilizará se não tiver grandeza de albergar a justiça. Compete não só aliviar a dor do mundo, mas desmontar as estruturas adoecidas que causam sofrimentos desnecessários – existem, sim, dores evitáveis.

Creio que todo o critério de ação política, de prática religiosa e de ideal filosófico consiste em saber se os meios utilizados seguem ou não rumo a um mundo menos assimétrico na distribuição da riqueza, no reconhecimento do diferente e no apreço pelo estrangeiro.

Creio que não é prioridade das religiões fomentar a expectativa de um mundo de delícias para depois da morte. Construímos nossos ideais no dia a dia, no interior da vida – no aqui e no agora.

Creio que a mandado de desabrochar a esperança desde os charcos da guerra pertence, irremediavelmente, a homens e mulheres. Anjos não cumprirão o que compete à humanidade.

Creio que Deus não intervém de fora para dentro em nossa história. Os atos divinos acontecem no sentindo inverso, de dentro para fora. Ações imanentes, quando praticadas com integridade, tornam-se transcendentes. Não há ninguém além de nós mesmos a quem podemos delegar a tarefa de construir a realidade.

Creio no amor como uma fragilidade poderosa. Os valentes não são os que pegam em armas, mas os que conseguem adensar gentileza.  As pequenas atitudes  – muitas vezes anônimas – revelam a nossa fortaleza ou a nossa falência. A caridade tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo pode.

Creio que o cotidiano – maçante – é oportunidade de nos enraizarmos na vida. Só enfronhados no assombro de viver tornamo-nos herdeiros da vida eterna. Desacredito nos santos alienados. Santidade não encaramuja, mas assume o mandato de cultivar o Jardim, abandonado desde que experimentamos o pecado.

Creio que o mundo, encharcado com a concupiscência da carne, com a concupiscência dos olhos e com a soberba da vida, pode desandar em nada. Creio, sobretudo, nos puros de coração, nos pacificadores, nos que têm fome e sede de justiça. Eles e elas anunciam que a salvação é viável – já encarnam lampejos de que o reino de Deus está em nós e em nosso meio.

Creio. Acima de tudo, preciso crer que creio –  a assim alimento o ânimo.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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