O monge e o jornalista em Jerusalém

foto16cul-401-livro4-d32

Por Marília de Camargo Cesar

O encontro inusitado entre um grande jornalista e um conselheiro espiritual resultou num livro que já nasce como um pequeno clássico da literatura de espiritualidade cristã. No fim de 2014, Laurentino Gomes, o professor de história do Brasil preferido de milhares de brasileiros, autor dos mais bem-sucedidos livros recentes sobre o tema no país (“1808”, “1822” e “1889” – Globo Livros, cerca de 2 milhões de exemplares vendidos no total), fez parte de um pequeno grupo de autodenominados peregrinos numa viagem a Israel – aqueles que, ao contrário dos turistas, olham para dentro enquanto viajam e não para fora.

O objetivo, segundo conta em seu novo livro, “O Caminho do Peregrino – Seguindo os Passos de Jesus na Terra Santa” (Principium, um selo da Globo Livros), era fazer uma pausa para silêncio e reflexão, um “mergulho interior em busca de orientação e paz espiritual”. Laurentino tinha lançado “1889” um ano antes e precisava aquietar a alma antes de decidir qual seria seu próximo projeto editorial.

Eram 23 brasileiros cristãos ao todo (católicos e evangélicos de diferentes denominações) liderados pelo teólogo e pastor Osmar Ludovico da Silva, que também é escritor (“Meditatio”, ed. Mundo Cristão, 2007). Ludovico tem mais de 40 anos de trabalho pastoral no Brasil e é conhecido no meio evangélico por promover retiros nos quais ensina a prática da Lectio Divina. Trata-se de um jeito singular de ler as “Escrituras Sagradas” que muito o distancia dos ruidosos pastores evangélicos da atualidade, aproximando-o dos monges de tradição beneditina.

foto16cul-402-livro4-d32

A Lectio Divina é, em síntese, uma forma de ler a “Bíblia” com o coração. Foi desenvolvida pelos Padres do Deserto, monges eremitas gregos e egípcios do século IV e V, que se retiraram das cidades para fugir às tentações do cristianismo recém-adotado como religião oficial do Império Romano.

As reflexões diárias feitas pelo pastor com base em trechos tirados dos evangelhos muito impressionaram o jornalista, que sugeriu ao “monge” que escrevesse um livro sobre elas. Ludovico, então, devolveu o convite a Laurentino: “Por que não escrevemos juntos?” O jornalista viu na ideia um risco. “Eu correria o risco de ser criticado por uma guinada tão radical no meu trabalho.” Apresentando-se sempre como um peregrino, Laurentino entendeu, contudo, que “peregrinos convivem com o perigo. Mas sabem também que não caminham sós. O próprio objeto de sua busca lhe segue os passos.”

A obra que resultou dessa parceria é um conjunto de meditações profundas sobre episódios conhecidos do “Novo Testamento”, contextualizadas e que podem ser aplicadas à vida cotidiana do leitor. É para ler sem pressa, uma escrita tocante que poderia ser comparada a relatos de escritores religiosos renomados como Anselm Grün e Henri Nouwen. As reflexões são todas assinadas por Ludovico.

No livro, Laurentino entra com sua conhecida habilidade jornalística, ao traçar um panorama histórico ao mesmo tempo consistente, porém rápido, sobre a geopolítica atual de Israel e da região da Galileia nos tempos de Jesus Cristo. No relato, ensina também sobre a trajetória do povo hebreu desde os patriarcas da fé judaica, no “Gênesis”, até os dias de hoje.

Entre muitas curiosidades reportadas, somos informados de que alguns entre os cerca de 2 milhões de pessoas visitam Israel todos os anos, sem possuir nenhum histórico de doenças mentais, subitamente, “são tomados por delírios e comportamentos obsessivos” quando visitam Jerusalém, considerada cidade santa para cerca de 4 bilhões de pessoas – cristãos, muçulmanos e judeus. Eles são acometidos pela síndrome de Jerusalém, um distúrbio catalogado pela Organização Mundial da Saúde em 1930.

Mas o ponto mais forte do livro são as reflexões. Ao ir contra a corrente de uma religião que adotou as regras do mercado, tão em voga atualmente, Ludovico é uma prova de que nem todo pastor evangélico bebe da fonte da Igreja Universal do Reino de Deus nem toda interpretação das “Escrituras Sagradas” está sujeita à ideologia de Mamon.

Para a conhecida história da expulsão dos vendilhões do templo, por exemplo, sua análise é contundente: “Ao se afastar da dimensão espiritual e transcendente, a fé se transforma em mercadoria e Deus, em produto. Não há mais lugar para a santidade, o compromisso, o sacrifício, a renúncia, a integridade, o amor ao próximo; ao contrário, o importante é a produtividade, o desempenho, o faturamento, o profissionalismo, as estratégias de marketing, ou seja, como arrecadar mais.”

“O Caminho do Peregrino”

Laurentino Gomes e Osmar Ludovico Ilustrações: Claudio Pastro Principium, 198 págs., R$ 29,90 / AA+

AAA Excepcional / AA+ Alta qualidade / BBB Acima da média / BB+ Moderado / CCC Baixa qualidade / C Alto risco

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for O monge e o jornalista em Jerusalém

Deixe o seu comentário