Este texto não contém glúten (*)

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Publicado no Observatório da Imprensa

(*) Roger Cohen, jornalista sul-africano e colunista do “New York Times”, usou a advertência dietética como título na edição de 19/10/2015, “This column is gluten-free”. Com bom-humor trata da nova histeria mundial contra os alimentos que utilizam farinhas de cereais ricas em proteínas que levam este nome. Gozação nos preconceitos e modismos deste mundinho dito contemporâneo, tão adoidado quanto a velhíssima Torre de Babel. Além da apropriação do título e, ao que parece, mútua aversão ao contrabando de ressentimentos dentro de inocentes clichés inexiste qualquer relação ou analogia temática.

As impertinências e pré-julgamentos desta era de inabaláveis certezas escancaram-se na mídia — digital, eletrônica ou tradicional, impressa, que funcionam à maneira dos Estados estanques do antigo regime francês (clero, nobreza e povo).

Como classificação social o esquema já não serve, está ultrapassado. As redes sociais do Estado digital compõem um segmento ativíssimo, autocentrado, pretensamente ilustrado, absolutamente impermeável às dúvidas, massificado e monolítico. Não admite ponderações nem nuances – tudo “irremediavelmente claro e equivocado” (segundo o poeta Affonso Romano de Sant’Anna.).

Montado na quantidade de opções, o segundo Estado integrado pela mídia eletrônica imagina-se senhor dos sujeitos e das preferências. Com o controle remoto na mão qual varinha de condão, seus membros vão zapeando nos aparelhos de rádio ou TV em busca de reforços para o troca-troca de afiliações mutantes, sempre precárias.

Composto pelos usuários dos meios impressos (livro, revistas e jornais — papel), o terceiro Estado, embora encanecido, experiente e traído pelas aparências vive amesquinhado pela conjuntura econômica, pela insensata pressa de transformar-se em outra coisa, na verdade uma interminável crise de identidade o torna frágil, inseguro e rabugento.

Neste panorama quem pensa que sabe, não sabe coisa alguma; quem se imagina acima da confusão, está contagiado por ela e quem tenta singularizar-se não encontra no mercado modelos, estilos e tamanhos adequados.

Preconceitos e estereótipos

A solução seria um Estado para abrigar os dissidentes como foi a Enciclopédia para os Iluministas e seus pupilos no final do século XVIII. Com a Wikipedia? Perguntem ao sábio Zigmunt Bauman o que ele pensa desse tipo de esclarecimento e saber . Boiando em preconceitos e estereótipos, estamos nos empanturramos de glúten sem saber exatamente se é proteína ou toxina.

O atual conflito entre Israel e o povo palestino tornou-se uma disputa de narrativas, intifada midiática, guerrilha viral até que uma brutal catarse desvendou o absurdo: o migrante eritreu, 26 anos, trabalhador numa comunidade rural no sul de Israel, Mulu Habtom pretendia renovar sua licença de trabalho e na rodoviária de Beersheba, tomado como cúmplice de um terrorista foi abatido a tiros e no chão linchado pela turba enfurecida. Chocados com a revelação, os linchadores se arrependeram.

Na hora de chutar o desconhecido nenhum deles lembrou dos pogroms no Oriente, na península Ibérica, nas civilizadas Alemanha e Áustria, na enfezada Europa Oriental. Na verdade, os nascidos em Israel hoje estão cada vez mais distantes – no tempo e no espaço — das angústias da Diáspora. Agarrados a ritos religiosos abandonam os valores morais que os mantiveram unidos durante dois milênios. “Não matarás”, era um deles. O premiê Netanyahu condenou o acontecido sem sequer imaginar que a sua xenofobia e sua intolerância são as responsáveis pelo horror. O primeiro ministro israelense descende da mesma linhagem fascistóide, messiânica e intolerante que hoje toma conta da Europa. Evidentemente não é antissemita mas não tem o menor respeito pelos que continuam aferrados ao humanismo judeu.

O Brasil dissolve-se no rancor. A fantasia de um povo alegre, cordial e generoso eliminou da memória a existência da Ação Integralista Brasileira que tentou tomar o poder e matar o ditador Vargas em 1938. Hoje chama-se Frente Integralista Brasileira que cultiva não apenas os totens fascistas de antigamente mas também endossa seus cacoetes ideológicos, suas místicas e exclusões.

Nas mesas do almoço de domingo, descendentes de migrantes do Mediterrâneo e Europa reclamam do estado da nação, das dimensões da corrupção, do tamanho da crise e como exemplo do descalabro alguém certamente lembrará dos refugiados sírios que passaram a receber a ajuda do Bolsa Família no exato momento em que o governo ameaça encurtar os programas sociais.

Ninguém terá a coragem de lembrar como os refugiados da Grande Guerra e do desabamento do Império Otomano foram aqui recebidos nas primeiras décadas do século passado. Se não pelo governo, por comunidades livremente organizadas, comprometidas com sua integração e convivência.

Nossos modismos ainda não alcançaram a histeria de outras paragens, chegaremos lá. A obsessão de certas facções da oposição em arrancar a faixa da presidente Dilma Roussef, enquanto mantêm o indecoroso Eduardo Cunha na presidência da Câmara Federal mostra o quanto avançamos em direção ao retrocesso.

Este texto não contém glúten. Apenas um sonho de paz e a irreprimível nostalgia por um jornalismo decente, plural e responsável.

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