Venda de CDs de cantores da música gospel supera ídolos da MPB

O gênero transpôs de vez os altares das igrejas e mantém crescimento em torno de 15 % ao ano

 Aline Barros conquistou 44 discos de platina, diamante e ouro em 10 anos foto: Divulgação

Aline Barros conquistou 44 discos de platina, diamante e ouro em 10 anos
foto: Divulgação

Francisco Edson Alves, em O Dia Online

O mercado fonográfico em geral pode estar em baixa. O de vendas de CDs de artistas evangélicos, no entanto, está em crescimento, se expandindo para antigos e novos cantores em meio à crise econômica. De acordo com dados da Associação Brasileira de Produtores de Disco (ABPD), a música gospel, de diferentes correntes religiosas, transpôs de vez os altares das igrejas e mantém crescimento em torno de 15 % ao ano, o equivalente a 30% da arrecadação da indústria de mídias. Já está entre os 20 estilos mais vendidos no Brasil atualmente, superando, inclusive, muitos artistas da Música Popular Brasileira.

Segundo especialistas, consultores e gravadoras, estima-se que o segmento movimente cerca de R$ 1,5 bilhão por ano, só entre gravadoras, editoras, tecnologias e serviços referentes à produção de CDs. É um total de 10% de todos os itens religiosos, incluindo bíblias, livros e lembrancinhas, comercializados para fiéis das igrejas pentecostais e neopentecostais. O sucesso é tanto que pelo menos dez novos CDs do segmento são lançados todo mês no País.

Em 2014, a gravadora MK Music, que reúne o maior e principal grupo das 28 indicações ao Grammy Latino da Música Gospel, instituído há pouco mais de dez anos, vendeu pelo menos dois milhões de CDs e DVDs. Este ano lançou o CD ‘Da Eternidade’, da cantora Fernanda Brum, e DVD ‘Tim-Tim por Tim-Tim’, trabalho especialmente para o público infantil da cantora Aline Barros. A empresa também programou para este mês, o lançamento do disco ‘Extraordinária Graça’, de Aline Barros; e o CD ‘Eternamente’, que marca o retorno de Cassiane para gravadora. “É satisfatório ver que a cada ano a música gospel rompe barreiras e avança, com qualidade sonora e bom conteúdo. E temos potencial para ir mais longe”, prevê Yvelise de Oliveira, presidente da MK Music.

PLATAFORMAS DIGITAIS
Mas de onde vem esse milagre, já que em geral o mercado fonográfico brasileiro amargou em torno de 7% de queda nos últimos cinco anos? Analistas citam dois fatores primordiais, além do crescimento da divulgação em plataformas digitais: o Brasil já é o segundo país com maior número de evangélicos no mundo.

Segundo estatísticas, se continuar nesse ritmo a igreja evangélica no País alcançará metade da população no ano 2045. O outro motivo preponderante é a mudança radical de ritmos, que passaram dos antigos formatos estridentes, repetitivos, tipo campanha de político, para mais populares. Estilos como rock, sertanejo, forró, pop e suas variações, começaram a ter espaço garantido nas rádios, TVs e shows, sem preconceitos. Os chamados cantores-pregadores, como Aline Barros, Anderson Freire, Regis Danese, Cassiane, Fernanda Brum, Cassiane, Oficina G3 e Bruna Karla, por exemplo, não saem mais das paradas de sucesso.

“Infelizmente, hoje temos vivido tempos em que as notícias são de violência, morte ou destruição. Onde o som de um louvor chega, leva a paz de Deus, o amor Dele, a beleza do evangelho de Jesus. O povo cristão tem recebido mensagens de otimismo e esperança através das canções”, define Aline Barros. “Onde há crise para nosso rebanho que nos ouve, há Cristo. Nossas músicas tentam traduzir isso”, resume Cassiane.

Departamento só para música gospel

Além dos tradicionais CDs, os artistas gospel que cada vez mais freqüentemente estão entre os tops dos hits mais tocados, têm aumentado fama e fortuna através de plataformas digitais. A tendência foi temas do debate Mídias Sociais e Música Digital, na Festa Nacional da Música 2015, em Canela (RS) em outubro. Maurício Soares, diretor-executivo da Sony Music, revelou que 72% do faturamento da empresa vem do meio digital, responsável por 68% da divulgação da música gospel nos últimos cinco anos. Tanto que a gravadora, após uma década de estudos, decidiu criar um departamento dedicado à música evangélica.
Soares justifica a decisão: “Se há alguns anos tínhamos três mil pontos de venda de discos no Brasil, hoje trabalhamos com mais de 280 milhões de celulares, pelo menos 60 plataformas digitais, e um imenso campo de oportunidades e novas tecnologias”, opinou.

 A cantora Cassiane costuma levar multidões de até 80 mil pessoas em seus shows especiais foto: Divulgação

A cantora Cassiane costuma levar multidões de até 80 mil pessoas em seus shows especiais
foto: Divulgação

Por mês, uma média de dez lançamentos

Motivos para atrair consumidores não faltam. Afinal, hoje há aproximadamente 4,5 mil cantores e bandas gospel brasileiras no mercado. São pelo menos dez lançamentos todo mês, conforme a ABPD. “Só nessa loja (Coisas de Crente, no subsolo da Central do Brasil), vendemos mais de mil CDs por mês, ou mais de 30 todos os dias”, garante o gerente Franklin Joans, de 28 anos.

Entusiasmado de tanto lidar com a fama dos outros, Joans, da Igreja Plena Paz, de Santa Cruz, também trabalha para lançar o seu álbum, que deverá ser batizado de ‘Onde está o amor?’. “Tenho 50 músicas compostas para passar a mensagem do Evangelho”, comenta.

Ele ressalta que o fato de os CDs evangélicos serem menos suscetíveis à pirataria, e o preço, em média R$ 20 cada álbum — metade dos outros —, influenciam. “Não compro falsificado. É pecado”, explica Míriam Lúcia da Silva, 40, da Igreja Assembléia de Deus de Figueira, em Duque de Caxias. “Quando a grana está curta, vou nas promoções”, diz Luzenir dos Santos, 36, do Templo Poço de Jacó, de Itaboraí.

Aposta no gênero musical em todas as mídias

Outros debatedores do evento, como Cláudia Fonte, da Som Livre; Alomara Andrade, da MK Music; Jeferson Baick, do site Garagem Gospel; e Felipe Kannenberg, do Grupo Dial de Comunicação, concordaram com o crescimento extraordinário do mercado digital, mas apostam ainda na propagação do gênero gospel por meio de outras mídias, como os CDs.

“Temos públicos diferenciados”, ressalta Cláudia. Alomara diz que o faturamento da gravadora é de 70% com produtos físicos (CDs) e 30%, com o universo digital. A representante da MK adiantou que a empresa está ingressando no streameng (transmissão de conteúdo on-line) e tem mantido boas parcerias com o setor de vídeos. Mas muitos fiéis preferem os CDs. É o caso do comerciante Miguel do Nascimento, 56, que não perde um lançamento. Perdeu a conta dos CDs gospel que tem. “No final do dia, Deus fala conosco pelos cânticos, hinos, nos confortando e dando forças.”

 

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