Conheça a história de Talita Oliveira, a ex-militante da “cura gay” que voltou a ser travesti

Em outubro, Talita Oliveira diz ter buscado refúgio na Alemanha para se proteger de ameaças de evangélicos e de militantes do movimento LGTB (foto: Reprodução Facebook)

Em outubro, Talita Oliveira diz ter buscado refúgio na Alemanha para se proteger de ameaças de evangélicos e de militantes do movimento LGTB (foto: Reprodução Facebook)

Ana Carolina Soares, na Veja SP

O gorro cinza protege do frio de 7ºC de Reisensburg, na região alemã da Bavária, e esconde os cabelos curtos de Talita Oliveira. Desde outubro, ela se refugia na Alemanha. Sente-se perseguida por pessoas do movimento LGTB e também por evangélicos. Até julho, ela era conhecida como militante da “cura gay”, percorreu diversos programas de televisão e eventos, vários deles acompanhada pelo pastor e deputado federal Marco Feliciano.

Travesti desde a adolescência, sob o nome social de Talita Sayeg, passou a frequentar no início de 2014 a Assembleia de Deus e reassumiu seu nome de batismo, Thiago Oliveira. Cortou as longas madeixas, passou a usar roupas masculinas e tirou as próteses de silicone. Nessas múltiplas metamorfoses, buscava se firmar no emprego de cabeleireira (ela diz que se prostituiu algumas vezes, porque brasileiros não dão empregos a transexuais) e, acima de tudo, queria aceitação da sociedade, dela mesma e até divina.

Depois de quase dois anos peregrinando pelo Brasil entre programas de televisão e igrejas evangélicas, chegou à seguinte conclusão: “Não existe cura gay! Não existem “ex gays”! Tudo é conveniência, medo e pressão psicológicas das pessoas (…) Abandonei a congregação, recolhi-me e calei-me nas redes sociais. Dei um basta em tanta mentira e falsidade. Cansei de ser usado por pessoas como ele (referindo-se ao deputado Marco Feliciano), que desejavam ter somente um estandarte ‘ex gay’ para uma causa a qual ele nem mesmo compreende”, escreveu em sua página no Facebook.

A seguir, o relato de sua trajetória de confrontos, buscas e preconceitos, que postou para seus amigos em sua página no Facebook:

“Olá gente, como estão vocês? Passei um tempo apenas observando todo o movimento por aqui, esperando a melhor ocasião para lhes contar tudo o que passei e como estou no momento.

Como todos já sabem fui uma pessoa descoberta depois de vídeos dando minhas opiniões sobre os movimentos LGBT’s e sempre defendendo pautas em favor da família.

Andei muito durante todo esse tempo e grandes coisas aconteceram. Tornei-me evangélico, participei de programas de televisão, viajei para várias cidades do Brasil, mudei radicalmente meu visual e entreguei meu coração ao povo brasileiro e sobretudo a Deus.

Entretanto durante esse 1 ano de jornada, deparei-me com fatos e situações que simplesmente não posso ignorar ou deixar para trás.

Após a divulgação dos meus vídeos e tendo em vista o conteúdo deles, comecei a ser ameaçado por vários membros de movimentos e coletivos de esquerda. Foram inúmeras mensagens de cunho extremamente agressivo, ameaças de morte e agressão, já que meus posicionamentos contrariavam todas as ideologias defendidas por eles. Por eu ser também uma pessoa homossexual e ainda por cima uma travesti, esses militantes jamais poderiam deixar por menos. Eu os estava contrariando e isso foi um golpe forte demais que acabou abalando as estruturas dentro daquele contexto.

Mesmo estando convicto dos meus valores e crenças, todo aquele assédio me deixou extremamente temeroso. Não tenho a menor vergonha de confessar que aquela situação me deixou apavorado! Eu tinha medo de andar pelas ruas de Porto Alegre, pois tinha a nítida impressão de que a qualquer momento, eu poderia sofrer algum atentado (encabeçado é claro pelos mais radicais).

Foi nessa hora que o destino começou a me surpreender. Muitos gays influenciados por essa militância esquerdista me viraram as costas. Os militantes me apedrejavam todos os dias em páginas, blogs e vlogs pela internet (muito tolerantes com a “diversidade” não é mesmo?) e eu me sentia cada vez mais acuado.

As únicas pessoas que me abraçaram foram justamente os conservadores, direitistas, liberais, cristãos mas PRINCIPALMENTE os evangélicos! Foram inúmeras mensagens de apoio, carinho, compreensão e tendo em vista a minha solidão, tudo aquilo me tocava demais o coração, afinal de contas quem não gosta de ser abraçado em um momento de dor?

Mas ao mesmo tempo em que estes irmãos tão amáveis me acolhiam, muitos deles criticavam (ainda que sutilmente) o meu jeito de ser e meu estilo de vida. Diziam sempre que era possível mudar caso eu tivesse verdadeiramente amor e confiança em Deus. No início eu batia de frente e duvidava deles, sempre tive plena e total convicção da minha sexualidade mas ao ver tamanho apelo para que eu me “renovasse” segundo as palavras deles, resolvi me submeter de LIVRE E ESPONTÂNEA VONTADE à famigerada ‘cura gay’ (entre aspas, já que ser gay não é doença).

Então foi aí que tudo andou de maneira radical. Modifiquei meu corpo todo: Cortei os cabelos, fiz cirurgia para remover minhas próteses de silicone, troquei minhas roupas por roupas masculinas, terminei meu relacionamento amoroso e resolvi me entregar totalmente à igreja. Até tentei namorar com uma mulher e não consegui. Ao contrário, eu cada vez que tentava me aproximar dela entendia que não gostava mesmo de mulher e que não nasci para ter um relacionamento heterossexual. Ela era uma garota linda e bem feita de corpo teria tudo para me seduzir mas simplesmente não consegui.

Com o deputado Marco Feliciano (foto: Reprodução Facebook)

Com o deputado Marco Feliciano (foto: Reprodução Facebook)

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