Relação positiva com fé tem efeito benéfico sobre prevenção e tratamento de doenças

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Camila Muniz, no Extra

Diante de um problema, o que você faz? Entrega tudo a Deus e espera ou faz a sua parte e conta com a ajuda do divino para resolver o resto? E quando algo não ocorre como o previsto, você tenta tirar algum ensinamento da situação ou acha que Deus está lhe pregando uma peça? Para a medicina, já não é novidade que ter fé impacta a saúde. Mas, de acordo com novos estudos, é a forma de lidar com o sagrado que determina as consequências: alimentar uma relação positiva com as próprias crenças, por exemplo, têm efeito benéfico sobre a prevenção e também o tratamento de doenças. Por outro lado, pessoas que travam uma luta com o espiritual têm mais risco de depressão, transtorno bipolar e mortalidade em geral.

A importância da religiosidade para o bem-estar, tema abordado na semana passada durante o Congresso Brasileiro de Psiquiatria, em Florianópolis, Santa Catarina, acaba se ser reconhecida pela Associação Mundial de Psiquiatria (WPA) em um posicionamento que será publicado como trabalho científico, na edição de fevereiro de 2016 do jornal “World Psychiatry’’.

— Todos nós enfrentamos adversidades durante a nossa vida, mas isso não quer dizer que não tenhamos escolhas. Pesquisas mostram que sentir raiva de Deus, se considerar punido, pouco ajudado e questionar se a vida importa são fatores que levam à piora no estado de saúde mental e também ao declínio na qualidade de vida — afirmou o psicólogo Kenneth Pargament, professor da Bowling Green State University, em Ohio, nos Estados Unidos. — Níveis altos de dificuldade espiritual estão associados a maior chance de ansiedade, estresse pós-traumático e queda na imunidade.

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A ciência ainda não sabe, ao certo, a razão de práticas religiosas positivas trazerem benefícios à saúde. No entanto, acredita-se que, entre os motivos, esteja o fato de o indivíduo valorizar o corpo como algo que Deus deu, o que favorece a adoção de um estilo de vida mais saudável, com alimentação equilibrada e também sem abuso de substâncias ou comportamentos sexuais de risco.

Para o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o reconhecimento da relação entre saúde, espiritualidade e religiosidade é importante para que os médicos possam ter uma compreensão mais abrangente dos pacientes.

— A maioria das pessoas são religiosas. E elas gostariam que este assunto fosse abordado nos atendimentos prestados. Precisamos mostrar que nos importamos com este aspecto e também que nos interessamos em saber como a história espiritual do indivíduo influencia o modo que ele enfrenta, por exemplo, a própria doença — assinala Moreira-Almeida, que também é coordenador das Seções de Espiritualidade e Psiquiatria da WPA e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Psicólogo e professor da Bowling Green State University, Kenneth Pargament diz que a volta à espiritualidade deve ser incentivada

Médicos devem incentivar os pacientes a serem religiosos?

O que é preciso fazer é incentivá-los a ter acesso a todos os recursos para lidar com a doença. Se a volta à atividade física é estimulada, por que não a volta à espiritualidade?

Muitos religiosos têm experiências espirituais, como ouvir vozes ou falar em outras línguas, que se assemelham a comportamentos psicóticos. Pode ser sinal de transtorno?

Não se pode supor isso. Se a experiência não trouxe sofrimento e, pelo contrário, ajudou a pessoa a superar algum trauma e ampliou a sensação de conexão com Deus, então isso é sinal de saúde mental.

O fato de ateus rejeitarem a religião e Deus pode trazer prejuízos à saúde?

Eles também têm recursos espirituais de natureza não teísta. Por outro lado, há ateus emocionais lutando contra o próprio ateísmo e se zangando com um Deus em que não creem.

Religiosos extremistas conseguem obter benefícios da fé?

Faz uma diferença enorme a natureza do Deus no qual se acredita. Se você acha que Ele tem um guarda-chuva grande, capaz de abrigar todo tipo de pessoa, é menos provável que surja o ódio. Se crê em um Deus pequeno, que só protege os escolhidos, aí existe o terrorismo. Tudo depende se, para você, Deus é mais amplo e poderoso do que isso.

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