Quem ganha Bolsa Família não pode ter um iPhone?

Caixa Econômica Federal lançou um aplicativo para smartphones, incluindo o iPhone. Tem muita gente ofendida com isso

Usuários do Facebook ironizam aplicativo do Bolsa Família (foto: reprodução/Facebook)

Usuários do Facebook ironizam aplicativo do Bolsa Família (foto: reprodução/Facebook)

Bruno Ferrari, na Época

Fui conferir as regras do Bolsa Família: “a população alvo do programa é constituída por famílias em situação de pobreza ou extrema pobreza”. Certo. “As famílias extremamente pobres são aquelas que têm renda mensal de até R$ 77 por pessoa”. Beleza… continuei lendo. “As famílias pobres são aquelas que têm renda mensal entre R$ 77 e R$ 154 por pessoa”. Depois passei algum tempo procurando o item que dizia: “As famílias beneficiárias não podem ter um iPhone ou usar o smartphone da Apple para fazer consultas”. Esse até agora não achei.

Procurei essa informação depois que vi uma série de publicações no Facebook de gente indignada com o fato de o aplicativo do Bolsa Família, lançado pela Caixa Econômica Federal no mês passado, ter uma versão para iPhone. As avaliações do app na App Store também vão nessa linha. “Quer dizer agora que quem vive no limiar da miséria pode acessar seus benefícios num iPhone que roubou no arrastão no shopping?”, resenhou um usuário. Confesso que não entendi bem. É um aplicativo para smartphones. Está disponível, portanto, para Android, para Windows… e também para aparelhos da Apple. Estamos falando de um serviço lançado por um banco público. Espera-se que ele esteja acessível para toda a população e não para quem usa determinado sistema operacional.

Para quem não entendeu, até aqui foi uma provocação. É claro que um iPhone novo, que custa R$ 4 mil, não é um produto voltado a pessoas pobres. “Nem aqui, nem na China”, como diria a minha avó. O público-alvo da Apple são os ricos, que têm grana para pagar o preço de um carro 0 km num computador. Também é evidente que o Bolsa Família, que paga, no máximo, R$ 77 por mês aos beneficiários, não tem o objetivo de financiar a compra de smartphones (levaria mais de quatro anos para juntar o dinheiro necessário para um aparelho da Apple). O próprio vídeo de demonstração do aplicativo mostra um celular simples, com Android.

O que não entendo é isso gerar um sem-número de comentários raivosos e intolerantes contra os beneficiários. Pessoas que aproveitam a ocasião para destilar o ódio contra os “vagabundos” e “preguiçosos que se recusam a trabalhar”. Como se um pobre não tivesse o mesmo direito de ter um iPhone do que o rico. Ou em algum lugar há uma lei dizendo que as pessoas só podem ter um iPhone a partir de determinada faixa de renda? Ninguém deveria ficar ofendido com isso. Guardadas as devidas proporções, me parece um “incômodo” com a mesma raiz de quem olha para um negro dentro de uma Ferrari e diz: “Só pode ser pagodeiro ou jogador de futebol”. 

Segundo a CEF, o desenvolvimento dos aplicativos do Bolsa Família para todas as plataformas custou R$ 160 mil. Para nós, trabalhadores, é realmente bastante dinheiro. Para um banco público que precisa desenvolver um serviço para milhões de cidadãos, acho um investimento razoável. Lembrando que só nos seis primeiros meses de 2015, a Caixa lucrou R$ 3,5 bilhões. A dúvida pertinente, no caso, é se esses R$ 160 mil se justificam para o desenvolvimento de um aplicativo para três plataformas que servirá como ferramenta de acesso para o Brasil num futuro cada vez mais conectado. Os smartphones tendem a seguir os passos da TV, que hoje está presente em mais de 96% dos lares brasileiros.

Cometi um deslize, aliás. O aplicativo não é voltado “apenas” aos 13,9 milhões de beneficiários, que poderiam usar o iPhone alheio para acessar seus dados de qualquer forma. Quem não recebe dinheiro do programa também pode usá-lo para fazer consultas, incluindo informações sobre onde estão as agências da Caixa mais próximas e dados gerais sobre as regras. É fundamental que o governo preste contas sobre seus programas em todas as plataformas digitais possíveis. O aplicativo deveria ser incrementado, por exemplo, para esclarecer inverdades criadas em correntes nas redes sociais sobre o programa. Que tal, Caixa?

Aliás, sabe em que lugar eu chequei as informações do programa para escrever este texto? No aplicativo do Bolsa Família do iPhone.

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