Dez frases que você não espera ouvir do seu filho, mas deve escutar um dia

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Publicado no Estadão

Em Procurando Nemo (2003), o peixinho Marlin fica triste e surpreso ao ouvir do filho a frase “eu te odeio”. A cena, ainda que de uma animação, é mais comum do que se imagina na relação pais e filhos. De acordo com psicólogos, dizeres desse tipo são recorrentes, principalmente no início da adolescência.

Nessa fase, pais precisam ser participativos e atentos às necessidades dos filhos e, ao mesmo tempo, impor limites e monitorar, de forma positiva, suas atividades, segundo a psicóloga Suzane Schmidlin Löhr, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia. “Quando pais colocam limites, de início, não é agradável ao filho. Ele gostaria de fazer o que quisesse quando fosse de sua vontade. Porém, a própria vida traz limites”, diz.

Pensando neste conflito, o Estado pediu a alguns psicólogos que selecionassem frases de crianças e adolescentes que, apesar de inesperadas pelos pais, são frequentes. Confira:

1 -“Não sou seu(ua) filho(a), devo ter sido adotado”. A frase, lembrada por Roberto Banaco, psicólogo e diretor de ensino e pesquisa do Núcleo Paradigma, é uma das que mais magoou os pais que passaram por seu consultório. O especialista recomenda que os pais escutem todas as queixas que os filhos apresentarem, sem tentar fugir delas, ou rejeitá-las.

2-“Você não me compreende”. De acordo com a psicanalista Malvine Zalcberg, autora do livro A relação mãe e filha, muitos pais ouvem, em algum momento, essa frase dita de forma queixosa pelo filho/filha adolescente.
Apesar de os pais ficarem entristecidos, é essencial que eles percebam que não podem mesmo compreender alguns aspectos vividos pelos filhos. “Uma geração separa aquela à qual pertencem da que os filhos fazem parte”, explica. “É importante os pais darem-se conta e aceitarem com tranquilidade que, sim, eles compreendem os filhos, mas não totalmente. Não são menos bons pais por causa disso”.

3) “A mãe do meu amigo é mais legal que você” ou “você é uma chata, a mãe do meu amiguinho deixa fazer isso”. Neste caso, o filho, ao estabelecer comparações, tenta desestabilizar a mãe, diz a terapeuta comportamental Ramy Arany, fundadora do instituto KVT Feminino. Para Suzane Schmidlin Löhr, dizeres desse tipo também são resultado da dificuldade de impor limites. Aqui, o importante é avaliar caso a caso e argumentar com a criança.

4) “Eu detesto me parecer com você”. A maior parte dos pais gostaria de ser um modelo para os filhos, mas, às vezes, estes podem não gostar de alguns aspectos que ‘herdaram’, segundo Roberto Banaco. “Os filhos acabam, por meio desses episódios, apontando diversos ‘defeitos’ de comportamentos que os pais apresentam”, afirma.
Aos pais, o conselho é autorizar o sofrimento do filho. “Se for o caso, diga apenas que lamenta que o filho não goste de ser assim, mas que você conseguiu grandes felicidades desse jeito. Se não for esse o caso, diga ‘eu também detesto este pedaço da minha vida, sabia? Vamos tentar, juntos, fazer alguma coisa para que a gente consiga mudar em um sentido mais feliz?’”.

5) “Eu não devia – ou queria – ter nascido”, ou “Eu quero morrer”. A frase, levantada por Roberto Banaco, pode tomar nuances que vão de algo muito simples tal qual uma tristeza perante um fracasso momentâneo, até revelar uma preocupante tendência suicida. De qualquer forma, é preciso atenção a dizeres do tipo. “Aponte que, com um pouco de esforço, é possível encontrar uma saída para o sofrimento, e que você está disposto a acompanhá-lo na busca da solução desse problema”, orienta Banaco.

6) “Você ama mais minha irmã ou irmão do que eu”. Neste caso, há uma cobrança em relação ao amor dos pais, segundo Ramy Arany. Para Malvine Zalcberg, este tipo de reclamação pode surgir quando a mãe, sem perceber, dá sinais de se identificar mais com um filho ou outro. Em outros casos, no entanto, se trata apenas de um indicativo de que a filha gostaria de ser “mais amada” do que é. Cada caso deve ser avaliado com cuidado.

7) “Vou sair de casa e virar Hare Krishna! (Ou evangélico, ou espírita, ou ateu, ou qualquer outra orientação religiosa que seja diversa da de seus pais)”. “Como, em geral, as religiões ditam determinados valores morais e éticos, o desconhecimento “da outra” que o filho estiver abraçando será literalmente endemoniada pelos pais”, diz Roberto Banaco. O mesmo vale para os pais ateus que veem os filhos tornarem-se religiosos.
O psicólogo acredita que neste momento é importante conversar. “Uma boa ‘sabatina’ compreensiva e que investigue se os filhos estão cientes das consequências individuais e sociais de estarem abraçando essa nova proposta costuma ser cabal para que o filho desista ou que os pais se aquietem com a nova escolha”.

8) “Todo os pais deixaram não ir à escola amanhã; não vai acontecer nada de importante. Só vocês, não”. Para Malvine Zalcberg, encontrar parâmetros para decidir dar permissão a um filho ou filha de acompanhar outros jovens, em alguns momentos, é uma incumbência muito delicada para os pais e cada situação requer uma resposta particular. “Não se pode ignorar que cada geração tem seus próprios códigos e que nossos filhos pertencem a uma geração diferente da nossa”, diz.
Com relação à escola, é importante mostrar aos filhos que é possível ser responsável sem ser rígido ou inflexível. “Às vezes, pode-se não admitir a falta à escola, outras vezes, sim”.

9) “Por que você me joga na cara que deixou de seguir carreira para cuidar de mim? Não foi escolha sua?”. Muitas mulheres escolhem dedicar-se à família e abandonam carreiras promissoras. Para Malvine Zalcberg, este caminho deve ser tomado conscientemente, por escolha. “Aos poucos, escolhas “não tão livres” assim da mãe acabam pesando em todos os membros da família: seja, a mãe reclamar que o marido pensa mais na sua profissão do que na família, seja, esperando ser elogiada incessantemente em sua função materna”, afirma. Questionamentos desse tipo surgem nesses casos.
ou

10) “Você me abandonou a vida toda dando tanta atenção para o trabalho e, por isso, sou infeliz”. “Ávidos por darem o melhor de material para os filhos, muitos pais pesam nas cores deste lado da vida e não dão conta da falta afetiva que eles fazem”, afirma Roberto Banaco.
Para o psicólogo, os pais devem explicar aos filhos que não houve intenção de abandoná-los, mas que não tiveram habilidade no manejo da equação vida emocional / vida material. Agora, a recomendação é perguntar: “o que os filhos acham que poderia ser feito hoje para equilibrar melhor a equação?”.

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