Cinema evangélico dá primeiros passos a reboque de ‘Os Dez Mandamentos – O Filme’

Larissa Felix, atriz do filme 'Eu Escolhi te Esperar", produzido pela Purpouse Films (foto: Gabriel Cabral - 1º.ago.2014/Folhapress)

Larissa Felix, atriz do filme ‘Eu Escolhi te Esperar”, produzido pela Purpouse Films (foto: Gabriel Cabral – 1º.ago.2014/Folhapress)

Anna Virginia Balloussier e Guilherme Genestreti, na Folha de S.Paulo

A expansão evangélica no Brasil dava um filme. Só que você dificilmente o veria nas telonas. Se tramas espíritas e católicas rendem campeões de público como “Nosso Lar” (4 milhões de espectadores em 2010) e “Maria” (2,3 milhões em 2003), o cinema gospel nunca decolou no circuito comercial do país.

Até agora. Escrita por uma evangélica na emissora do bispo Edir Macedo, a novela “Os Dez Mandamentos” vai ganhar uma versão para passar nos cinemas. A releitura do episódio bíblico, segundo a Record, terá novo final.

A novela fez o canal bater a Globo em audiência por vários dias. O novo corte deve estrear em fevereiro, em 500 salas. É uma média de respeito: o brasileiro de maior bilheteria em 2015, “S.O.S. Mulheres ao Mar 2”, entrou em 464.

“Enfim, um filme que podemos divulgar, sem cenas constrangedoras […] e baseado em fatos reais da Bíblia, meu manual de vida”, escreveu Cristiane Cardoso, filha de Edir, em boletim virtual para fiéis.

HISTÓRIA DE EDIR

O próprio Macedo, líder da Igreja Universal, ganhará cinebiografia para suas memórias, contadas na trilogia de livros “Nada a Perder”, de Douglas Tavolaro, vice-presidente de jornalismo da Record.

O diretor poderá ser Alexandre Avancini, que pilotou “Os Dez Mandamentos”. Chegou-se a falar em Wagner Moura para viver o bispo –o ator já disse que recusaria o papel.

Já “A Palavra”, previsto para março, conta a história em que o profeta bíblico Elias vira pregador no sertão, e seu sucessor Eliseu, um engenheiro que trabalha na transposição do rio São Francisco.

A advogada pernambucana Zitah Oliveira, evangélica, criou a produtora Anjoluz especialmente para fazer o filme.

O trailer passará na Record, segundo Zitah –que quer promover uma sessão no Congresso Nacional com apoio de João Campos (PSDB-GO), presidente da Frente Evangélica. Outro plano: gravar um testemunho de Luciano Sfazir, no elenco do longa e de “Os Dez Mandamentos” (é o egípcio Meketre).

A produtora Purpose Films planeja transformar em filme sua série virtual “Eu Escolhi te Esperar”. Febre entre jovens evangélicos, é uma espécie de “Friends” gospel, isso se Rachel e Ross fossem adeptos do movimento que prega: transar, só depois de casar.

“Nossas produções não são crentonas, sabe? Passamos a mensagem de forma engraçada”, diz o diretor Maurício Bettini, que promete tratar de homossexualidade na produção.

Ele ecoa crítica comum a pioneiros do cinema evangélico: a dificuldade de captar verba com leis de incentivo fiscal, como a Rouanet e a do Audiovisual. Falta estrutura para cuidar da papelada burocrática e sobra medo de ser acusado de proselitismo religioso em vez de cultura, o que a princípio é vetado pelas leis.

FESTIVAL CRISTÃO

Começa nesta segunda (23) a terceira edição do Festival Nacional de Cinema Cristão, no Cine Odeon, no Rio. A mostra é um espelho de como a produção evangélica tem sido irregular –só seis filmes se inscreveram, a maioria com estética amadora.

“Ainda existem muitos amadores tentando fazer arte cristã. Isso é trágico, porque Deus ensina que devemos fazer com excelência”, afirma a diretora do evento, Veronica Brendler.

Das três obras aceitas, “Três Histórias, Um Destino” (baseada em best-seller do missionário R.R. Soares) foi a que mais se deu bem: 300 mil espectadores. É uma coprodução Brasil-EUA de 2012 –com atores “B” de Hollywood e dirigida por outro, Robert Treveiler, que fez uma ponta na série “Dawson’s Creek”. Mas ela é temporã. Desde então, nenhum gospel nacional entrou em cartaz.

Pela ótica mercadológica, é difícil entender o desinteresse no gênero. Estima-se que um em cada quatro brasileiros seja evangélico. Na música e na literatura, eles são um fenômeno de vendas, como provam o grupo Diante do Trono e as biografias de Edir Macedo e da vice Miss Bumbum convertida Andressa Urach (tiragens iniciais com um milhão de exemplares, enquanto a média parte de 3.000).

Em julho, o cineasta Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”) falou à Folha por que sua produtora, a O2 Filmes, “nunca pensou em fazer nada do tipo”. “Respeito a fé alheia, mas não me toca o tema. Um sobre a bancada evangélica do Congresso já seria mais interessante, mas aí não pegaria o tal filão.”

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Cinema evangélico dá primeiros passos a reboque de ‘Os Dez Mandamentos – O Filme’

Deixe o seu comentário