Há uma coisa pior do que o silêncio: opiniões apressadas

meme_face

Gregorio Duvivier, na Folha de S.Paulo

Pessoal, acabei de ler os termos e condições do Facebook. Aquele que a gente assinou sem ler. Acabei de ler. E fiquei pasmo com o que descobri.

Ao contrário do que pensava, o Facebook não te obriga a ter opinião sobre nada. É sério. Não há nenhuma menção à obrigatoriedade de se cagar regra sobre assuntos que você não conhece. Li de cabo a rabo. O Facebook tampouco te obriga a lamentar tragédia, ou sugere que se deva julgar o quanto os outros estão lamentando as tragédias, ou o quanto eles não estão, e muito menos exige que você tenha soluções para o problema do Estado Islâmico.

Uma das poucas coisas que lembro da faculdade de Letras: a linguagem tem três funções principais. Expressiva (“estou mal”). Apelativa (“me ajuda”). Referencial (“fulano está mal e precisa de ajuda”). Mas há uma quarta função, geralmente desprezada: a função fática (“Alô”. “Testando”. “Opa, tudo bem”), na qual cabem as coisas que não querem dizer nada e só foram ditas porque era preciso emitir algum tipo de som, seja para evitar um desconforto, seja para saber se há alguém do outro lado da linha, seja porque o silêncio estava incomodando.

As conversas de elevador, por exemplo: “Gente, e esse calor que não passa, hein?” “Parece que vão reformar a fachada.” “Tá quase na hora da minha novela.” Nada disso diz nada a não ser: “Esse silêncio estava insuportável”.

Tive uma fase bem triste na minha vida em que deixava a televisão ligada o dia inteiro. Era uma maneira de não ouvir as vozes dentro da minha cabeça. Percebi que era pra isso que servia a televisão ligada nos bares e as músicas que tocam nos táxis. Ninguém está ouvindo, ninguém está assistindo. Só serve para não deixar o silêncio doer.

Basta ter um atentado no Oriente Médio para todos se tornarem doutores em Islamismo, pós-doutores em Relações Internacionais, prêmios Nobel da Paz. A tragédia deixa as vozes dentro da cabeça histéricas: “Tem gente morrendo e você aí tentando ser feliz”, “Você também vai morrer”, “Todo o mundo vai morrer”. Falar é, sobretudo, uma maneira de não ouvir.

Aprendi com meu professor Paulo Britto: tudo é fático (inclusive esta coluna). A maioria dos posts só serve para que algo seja postado. Há quem diga: “Não há nada pior que esse silêncio”. Muitas coisas são piores que esse silêncio. As músicas de elevador. As conversas de táxi. As opiniões apressadas, as indignações reproduzidas, o ódio retuitado. Shhh. Deixa o silêncio. Deixa doer.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Há uma coisa pior do que o silêncio: opiniões apressadas

Deixe o seu comentário