Por que as fotos de comida no Facebook fazem você engordar

publicado na Época

O músico Gabriel Cavalcante, conhecido como Gabriel da Muda, é um dos talentos mais promissores do samba carioca. Aos 29 anos, com cavaquinho nas mãos e boas letras na cabeça, dedica-se a resgatar os elementos tradicionais do gênero. Mas, em um de seus perfis em redes sociais, não são exatamente suas composições que arrebatam elogios calorosos de seus seguidores. Nem suas músicas são páreo para as imagens indecentes que ele publica, em um festival de closes obscenos de muito queijo, chocolate e calorias explícitas.

Cavalcante é um verdadeiro entusiasta do food porn, uma expressão da língua inglesa que traduz, com humor, o prazer quase sexual suscitado por imagens com overdose de gostosura alimentícia. Para o êxtase de seus mais de 12 mil seguidores no Instagram, a rede social de fotos e vídeos, Cavalcante exibe detalhes de hambúrgueres suculentos, pizzas com queijo borbulhante, bolos recheados com gotas de chocolate que derretem na tela.

Cada um devidamente provado por ele. “Gosto de comidão mesmo. Coisa de ogro”, afirma. A maioria de nós gosta, algo que Cavalcante já bem descobriu. Quanto mais calórica a comida fotografada, mais curtidas a imagem recebe. Os posts do cantor têm, em média, 250 curtidas. Os mais apetitosos chegam a 500. Mas atenção: a comilança desenfreada com os olhos no mundo digital vira quilos na cintura bem reais. A ciência explica.

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Fotografar e compartilhar fotos de comida – numa espécie de competição de quem descobre o prato mais despudoramente gostoso – já virou uma mania. Se você procurar pela expressão “food porn”, terá ideia da popularidade desse tipo de conteúdo e se deliciará com a paisagem. São 71 milhões de publicações só no Instagram, um mar de calorias para se lambuzar virtualmente. A graça é compartilhar com os amigos para não passar vontade sozinho. E aprender a receita. E encontrar o restaurante em questão, para liquidar a vontade. Aí jaz o problema.

Quem é que se contenta só em olhar? Como manter a forma – e os bons resultados dos exames de colesterol e glicemia – se cruzamos o dia inteiro com esse tipo de imagem nas redes sociais? A ciência começa a comprovar algo que a balança já denunciava: as redes sociais vêm mudando nossos hábitos alimentares para pior.

“O aumento da exposição a imagens de comidas deliciosas está acabando com nosso autocontrole”, afirma o psicólogo britânico Charles Spence, professor da Universidade de Oxford. Ele estuda como a visão e outros sentidos afetam a forma de o cérebro lidar com comida – o nosso conhecido “olho maior que a barriga”. Ele trabalha em conjunto com o chef Heston Blumenthal, dono do restaurante The Fat Duck (O Pato Gordo, em inglês), na cidade inglesa de Bray, um dos melhores do mundo. São três estrelas, a honraria máxima, no Michelin, o conceituado guia de alta gastronomia.

Spence e Blumenthal desenvolvem combinações sensoriais para potencializar sabores, como ouvir sons agudos para aumentar a doçura de um prato e graves para realçar o amargor.A conclusão de Spence sobre a influência das imagens apetitosas não é palatável para quem se delicia com a pornografia gastronômica. Quer dizer que nem olhar mais pode? Não se revolte com o pesquisador. Ele é apenas o mensageiro.

Justiça seja feita, as telas do celular, do tablet e do computador não são as únicas culpadas por infiltrar tentações calóricas em nossas mentes. Em boa parte dos reality shows de culinária, competidores se digladiam usando como armas generosas porções de gordura e açúcar, grandes responsáveis pelas calorias extras consumidas por nós. Somados à overdose de imagens nas redes sociais, o potencial de estrago para qualquer dieta é enorme.

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