Gentileza, s’il vous plaît

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Ricardo Gondim

O crítico literário Antônio Candido defendeu a crônica no texto “A vida ao rés do chão”. Ele desmontou a ideia de que a crônica não pertence ao ‘gênero maior’ da literatura. Candido afirma: Já que não se imagina que uma literatura feita de grandes cronistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse. ‘Graças a Deus’, – seria o caso de dizer, que sendo assim, ela fica perto de nós. 

Cada vez que alinhavo alguns pensamentos sobre qualquer sensação que o cotidiano me impõe, aquiesço: Antônio Candido estava certo. O desafio de escrever deve nos trazer a vida ao rés do chão.

Dialogo com pensadores alternativos. Quero saber como gente que gosta de cinema, pedagogia, filosofia, política e teologia encara a deliciosa tragédia de existir. Tudo em mim pede por mais saber.

Se entendo um pouco do bem, fico perdido com a maldade. Inquieto-me com as catástrofes naturais. Revolto-me com a universalização do mal. As desgraças que a espécie humana produz não fazem sentido. Identifico-me com qualquer pessoa que ousa questionar a necessidade de um sistema, ou uma ideologia, ou uma política, ou de um Deus, provocar a morte de milhares de pessoas. Quem usa a perversidade para engrenar a história me parece sádico.

Preciso saber se existe mesmo um propósito maior. O que faz a divindade provocar – ou aceitar passivamente  – o sofrimento e a desgraça? Se existe essa intencionalidade, quero me insurgir contra ela. Perturbo a minha própria alma. Consinto com o dever de negar a proposição de que a glória de Deus depende de genocídios e carnificinas, ou da destruição de um rio.

Coloco-me em franca oposição ao teísmo – aberto ou fechado. Minha intuição me avisa que toda a percepção de Deus sentado em um trono de espaldar alto, como um soberano organizador da história, desemboca em fatalismo. Infelizmente, a noção de que não passamos de marionetes nas mãos de um Senhor soberano permanece intocada na prática de muitas comunidades cristãs. Não me conformo. Como um Deus que tem o universo sob seu controle poderia consentir com um ataque terrorista ou com a ganância de uma multinacional que arrasa com um sistema sócio-ambiental? Esse Deus é mais facilmente explicado na filosofia grega do que nas narrativas da Bíblia hebraica.

Escrevo neste site mais por teimosia. Não pretendo, a cada linha, justificar no que creio e por quê. Incomodo, estou consciente, sem a pretensão de ser controverso. Espero, tão somente, que a tensão das ideias nos tire do vício de repetir jargões. A vida é perigosa e muitas vezes, trágica. A dor de existir não suporta slogans. Toda a reflexão sobre o aqui e o agora deve ser grave e perturbadora.

Não me arvoro de oferecer respostas definitivas. Eu não as tenho. Cada crônica ou ensaio deve conduzir a novas perguntas. Só crescemos na coragem de continuar a debulhar dúvidas; e se ousamos desestabilizar antigas certezas. Há luto mesmo nas despedidas conceituais. Dói dizer adeus a ideias infantis.

Convém perguntar: a dor do outro é suficiente para nos dispormos a sair das razões absolutas? A fé que dá estabilidade não serve. A fé só faz sentido se nos animar no enfrentamento do insólito e da inevitabilidade da morte. A história não nos conduziu ao paraíso. Cada dia fica mais evidente que o provir de delícias, prometido pela modernidade, não se concretizou. O mundo foi engolfado em novos tipos de violência. Temos sido inventivos em construir maneiras de matar. Não sabemos que caminhos tomar. Resta-nos dizer que a única estrada que continua proibida é a da violência.

Em meio a tanta dor, lembro-me da poesia de Manoel de Barro: Só quisera trazer pra meu canto o que pode ser carregado como papel pelo vento. Eu também. Anseio trazer para a minha reflexão, a impertinência de uma lágrima, a fragilidade de um soluço e a leveza de uma prece. O mundo, cada dia mais frio, individualista e cínico carece de gente com um pedacinho de humanidade – e de olhar gentil.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Comentários

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2 Comentários

  1. Caro pastor Gondim… compreendo que é muito mais fácil entender uma catástrofe natural (não como esta vergonha que aconteceu em Mariana), do que tentar explicar um atentado terrorista que ceifa a vida de centenas de pessoas. Afinal, se recebemos de Deus o Sol e a chuva, sendo bons ou maus, indistintamente, não estaríamos também sujeitos, da mesma forma, ao tempo e o acaso (Eclesiastes 9.11)

  2. Fani Ferreira disse:

    Havemos de pensar e carecemos de coragem e desprendimento para discordar. Especialmente, quando não comparecemos apenas para concordar, bajular e dizer amém! Tão carentes que andamos de gente que não se rende à violência, grosseria e brutalidade. Tão bonitas, agradáveis e fazem tão bem ao coração a delicadeza, a lucidez e a naturalmente e racional filosofia de viver cada instante como gente! Homem feito, mas não vivente, a imagem de Deus! Pensamos parecido quase sempre, mas fico tímida com o retorno da era do homem das cavernas e então te curto sempre é aplaudo. Sistema muito bruto…

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